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Joel Pinheiro da Fonseca

Cinco anos depois, não há motivo para se arrepender de impeachment de Dilma

Fatos após queda da petista, porém, deixaram lição sobre os perigos da onda de ódio contra a classe política

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Joel Pinheiro da Fonseca

Economista, mestre em filosofia pela USP e colunista da Folha

[RESUMO] Participante ativo nas manifestação de rua e virtuais contra o governo Dilma, autor avalia que, cinco anos depois, não há motivos para se arrepender do impeachment, nem para atribuir a ele a ascensão de Bolsonaro. Identifica, contudo, um valioso aprendizado no que se seguiu depois da derrocada petista: o sentimento destrutivo contra a política em geral não levará o país a lugar algum.

Começou a CPI da Covid, e somos levados por ela a considerar a possibilidade de que o mandato de Bolsonaro termine antes de 2023. Será que, ao desastre nacional na pandemia, correspondem crimes de negligência e omissão do governo federal? Claro que a pergunta é retórica.

Sou cético quanto ao impeachment de Bolsonaro. Acredito que a CPI servirá para aumentar o preço do centrão, que tem mais um canal de chantagem para exigir verbas e cargos. No entanto, se a pressão popular aumentar, não é impossível que esses cálculos também mudem.

Pensando nisso, minha mente volta a um passado recente, os anos de 2015 e 2016, que agora parecem pertencer a outra era geológica. Participei ativamente, como cidadão e formador de opinião, daqueles anos. Subi em palco do MBL, ajudei a organizar um movimento que levou caminhão para a av. Paulista (o Movimento Acorda Brasil, que entre outros contava com a presença do hoje deputado Luiz Felipe de Orleans e Bragança), discuti e defendi repetidamente o tema nas redes sociais.

Olhando de hoje tudo o que se seguiu, terá sido uma boa ideia a queda de Dilma Rousseff?

Como tudo começou

A história do impeachment de Dilma não começou em 2016, nem na sujíssima eleição de 2014. Seu nascimento espiritual se deu em junho de 2013. A economia ainda crescia, o desemprego seguia caindo, havia obra para todo lado, bancos públicos emprestavam dinheiro barato, a Copa do Mundo no ano seguinte prometia ser nossa consagração eterna. Algo, contudo, não ia bem na alma brasileira.

Um mal-estar latente foi posto para fora em junho de 2013. Uma profunda desconexão entre o brasileiro médio e a classe política se transformou em revolta. Na mira estava não só a corrupção, como também a percepção mais abrangente de que tudo na política era negociação de interesses particulares, com zero espaço para se pensar o bem comum. Governo, Congresso, partidos, imprensa; tudo era parte de um sistema corrupto e alheio aos interesses do povo.

Em 2014, esse sentimento foi epitomizado pela Lava Jato, operação que prometia mudar a relação permissiva da política brasileira com a corrupção e que atingiu em cheio o PT. Seja qual for sua opinião sobre Sergio Moro ou a operação como um todo, é inegável que o megaesquema de corrupção bilionário conhecido como petrolão, que envolvia a Petrobras, empreiteiras privadas e partidos políticos, teve o PT em sua cabeça.

Os valores destinados a Lula pessoalmente, como nos casos do tríplex e do sítio, seriam as migalhas que caíam da mesa desse que foi o maior esquema de corrupção da nossa história. A legitimidade moral do governo Dilma foi dinamitada.

Junte-se a isso a maior recessão da história recente. Dilma iniciou seu segundo mandato, em 2015, com o país já em crise produzida por seu próprio governo: PIB em queda livre, desemprego em rápida ascensão, inflação e gastos do governo fora de controle, Petrobras destruída, preços controlados, maquiagem contábil.

Ninguém nem sabia o tamanho do buraco. O sentimento popular fez a ligação: a farra corrupta do PT tirou o nosso futuro. Assim, o mesmo verde-amarelo que dominara as ruas em 2013 voltou com tudo em 2015 e 2016, agora com pautas menos difusas e um inimigo mais claro: o governo Dilma e o PT.

A pressão popular pelo impeachment foi acolhida pelos deputados. A presidente caiu. Veio o governo Temer. Podemos discutir horas sobre o mérito de suas muitas reformas econômicas —o teto de gastos, a reforma trabalhista, a TLP—, mas ninguém negará que foi um governo que primou pela normalidade democrática.

O grande abalo veio, já em 2018, da greve dos caminhoneiros, com amplo apoio popular. As bandeiras do Brasil estavam de volta. Temer não era do PT, nem de esquerda, mas representava o sistema político.

Em 2018, Bolsonaro encarnou esse sentimento antissistema. É curioso que um político com quase 30 anos de carreira na Câmara dos Deputados, que construiu um pequeno feudo familiar e cujos gabinetes eram cheios de pequenas corrupções, viesse a representar um desejo quase revolucionário.

A política, contudo, é percepção, e não realidade, e foi assim que Bolsonaro foi visto. Só ele tinha a força para contrariar a esquerda, a velha política, a mídia, as universidades, o globalismo; enfim, o sistema. A revolta contra nossa política levou à aposta na antipolítica, na força bruta como substituto da negociação.

Arrependimento?

É tentador, e reconfortante, identificar aquilo de que não gostamos como a causa de males inequívocos. Isso é recorrente com o nazismo. Inúmeras são as suas supostas causas e precursores, ao gosto de cada freguês. Nietzsche, Wagner, o romantismo, o darwinismo, a genética, o Iluminismo, o capitalismo, a reforma protestante, o misticismo alemão, o nominalismo filosófico do século 14. Basta encaixar sua antipatia intelectual numa narrativa histórica que culmine em Hitler que você a terá refutado.

O mesmo é feito com a catástrofe humana que é o governo Bolsonaro. Se algo levou a Bolsonaro, então esse algo deve ter sido muito ruim. “Se o Aécio não tivesse pedido aquela recontagem dos votos em 2014, não teríamos chegado a isso…”, dizem alguns. Este mesmo argumento, hoje, é usado para forçar a direita moderada a se retratar. O impeachment, ao tirar o governo popular, abriu as portas do inferno. “Arrependam-se, todos os que o apoiaram!” A eleição de Bolsonaro, assim, seria só mais um passo do “golpe”.

Essa provocação pode ser respondida de duas maneiras. A primeira é mais concreta. Será que o impeachment levou à eleição de Bolsonaro? Muito provavelmente, a resposta é não. Jamais poderemos testar este contrafactual, mas as bases para a ascensão de Bolsonaro não dependeram da queda de Dilma.

Bolsonaro já começara sua estratégia eleitoral em 2014, depois da vitória como deputado federal mais votado do Rio de Janeiro (pelo PP). As redes sociais e o WhatsApp se consolidavam como os principais novos meios de comunicação do país, o que Bolsonaro e sua equipe souberam explorar melhor do que ninguém. Perto deles, o trabalho sujo de blogs a soldo do PT parecia até coisa de criança.

Se Dilma tivesse completado seu mandato —de mãos amarradas frente à crise (lembrando que Joaquim Levy saíra do governo depois de falhar no ajuste fiscal), sendo sangrada mais dois anos pelo centrão para se manter no cargo, com a Lava Jato e outras operações desmoralizando cada vez mais seu governo e seu partido perante a opinião pública—, o provável é que Bolsonaro vencesse em 2018 por uma margem ainda maior.

A segunda resposta é mais filosófica. Até que ponto os desdobramentos distantes e imprevisíveis de um ato são responsabilidade de quem agiu? A história é feita de contingências nas quais penamos (e falhamos) para encontrar padrões. Olhada do presente para o passado, a sucessão dos fatos parece seguir uma concatenação lógica, quase necessária. Olhando daqui para o futuro, somos confrontados com a incerteza total.

O impeachment não pode ser julgado por suas imprevisíveis ramificações. Voltemos a 2016: o sofrimento do Brasil era intenso, e a Presidência tinha chegado à completa inoperância e à mais profunda desmoralização. O crime fiscal estava bem configurado. Mudar era quase um imperativo.
De fato, com a troca do governo, o Brasil entrou em (lenta) recuperação, bem como fez uma limpeza do desarranjo econômico deixado pelo governo PT.

A esse imperativo se contrapunha uma possibilidade que então parecia realista: o impeachment poderia fortalecer o PT. Longe do poder, o partido atribuiria os anos de crise à oposição e voltaria com força total em 2018. Mesmo ciente desse risco, eu e tantos outros nos mantivemos firmes: haveria tempo para a briga de narrativas posteriormente; o importante era garantir o melhor para o Brasil naquele momento. Esse risco não ocorreu; deu-se o exato oposto. Isso em nada altera o raciocínio de quem vivia no Brasil de 2016.

Aprendizados

Assim, não considero que o impeachment tenha sido um erro, como pensa, hoje, Reinaldo Azevedo. Percebo, isso sim, alguns aprendizados que o desenrolar dessa história nos legou.

O primeiro é reconhecer os excessos irresponsáveis de ódio popular a que se deu vazão naqueles anos. O antipetismo —e, junto dele, a antipolítica— virou quase uma religião. Por trás do patriótico verde-amarelo, havia mais um sentimento destrutivo do que qualquer construção propositiva.

A onda do impeachment era negativa, representava a rejeição a algo: ao PT, à esquerda, à política e a todo o sistema que os sustentava. No entanto, como diz um velho provérbio político americano (“you can’t beat something with nothing”), não dá para derrotar algo sem propor uma alternativa em troca. Levado ao extremo, esse sentimento destrutivo gangrenou e encontrou em Bolsonaro e seu séquito de celerados seus representantes legítimos.

Era, e ainda é, tão fácil surfar na onda desse ódio. Texto atrás de texto, vídeo atrás de vídeo, dos mais diversos autores, só tinham a intenção de confirmar na cabeça e no coração dos espectadores como os adversários eram sórdidos. A esquerda não era interlocutora válida, mas inimigo a ser eliminado.

Muitos fizeram, e ainda fazem, carreira (na mídia, nas redes e na política) com essa bajulação do público, essa reafirmação dos lugares-comuns e preconceitos. Isso vicia e polariza a população. A esquerda radical tem imitado direitinho a receita.

A segunda lição é que, gostemos dela ou não, a política é necessária. Não há pregação moralista ou bravata autoritária que substitua a capacidade de negociar e formar consensos. Sendo assim, experiência e profissionalismo importam.

Ódio sem proposta deixa a pessoa suscetível ao apelo de amadores e demagogos que não têm a mínima capacidade técnica ou política, e nem mesmo o desejo, de resolver os problemas do Brasil. Gritar as palavras certas no YouTube, xingar os comunistas, esquerdopatas e corruptos e fazer arminha com a mão não são qualidades de um estadista eficaz.

O extremismo ideológico que mantém o povo fanatizado é também a cortina de fumaça que acoberta a corrupção e o oportunismo. Mais do que tudo, esses anos me ensinaram que pessoas inteligentes e bem-intencionadas de direita e de esquerda não devem se ver como inimigas, mas como aliadas na requalificação de nossa política.

O espírito antissistema que destituiu Dilma e elegeu Bolsonaro vai se decepcionando agora: aliança com o centrão, acobertamento dos filhos, abandono completo da agenda anticorrupção. Bolsonaro agora é o sistema. Os protestos verde-amarelos vão perdendo sua força, mas o sentimento não está morto. E ainda voltará, espero que de maneira mais responsável e propositiva.

O problema não mudou: muito da política brasileira consiste na pura e simples negociação de interesses privados e corporativistas, sem nem um segundo sequer de discussão de propostas visando o bem comum. E são esses interesses que sempre saem por cima.

Cunha foi algoz de Dilma. Renan talvez seja agora o de Bolsonaro. Estaremos fadados a oscilar entre a loucura e a corrupção? Para continuar apostando no Brasil, é preciso acreditar que não. O amadurecimento cívico é possível. Fui às ruas em 2013 e 2016. Não me arrependo. Quando a vacina chegar, irei de novo.

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