Recorrer ao FMI agora é tratar doença com remédio errado, diz ex-presidente do BC da Argentina

Para Martín Redrado, não há crise de financiamento, mas uma corrida ao dólar mal gerenciada por Macri

O economista Martín Redrado - Divulgação
Mariana Carneiro
Brasília

Na semana passada, a Argentina repetiu uma cena que era frequente no passado latino-americano: pediu ajuda ao FMI (Fundo Monetário Internacional) para lidar com uma rápida desvalorização da moeda.

Na última vez em que a instituição de três letras foi chamada a Buenos Aires, no início dos anos 2000, a Argentina viveria sua pior crise econômica.

Martín Redrado, 57, que chefiou o banco central da Argentina de 2004 a 2010, sob Néstor Kirchner, diz que o governo Mauricio Macri se apressou em pedir ajuda. "É uma alternativa inadequada para o tipo de enfermidade. É como ter um problema de coração e te tratarem com antibióticos."

A sorte de Macri, para Redrado, é que o peronismo, a principal corrente política argentina, não está sabendo captar a insatisfação popular provocada pela crise cambial.

 

O sr. tem feito críticas ao pedido de socorro feito ao FMI. Por quê?

Porque não era necessário. O governo argentino está confundindo um fenômeno transitório com algo permanente. É certo que as condições financeiras se endureceram para os emergentes. Mas endureceram transitoriamente, não acabou o financiamento para eles. No dia de hoje [sexta, 11], já temos condições mais favoráveis de financiamento externo.

Um recurso ao FMI se faz quando não se tem alternativa ou há um vencimento de dívida peremptório, para o qual não se pode fazer frente.

Não é o caso da Argentina, que tem 80% de suas necessidades financeiras cobertas. O problema que o país enfrenta hoje é uma corrida cambial, não uma crise de financiamento. Então, é uma alternativa inadequada para o tipo de enfermidade. É como ter um problema de coração e te tratarem com antibióticos. O que ocorreu foi uma má gestão da política cambial.

Havia outro caminho possível?

Era possível usar as ferramentas que um banco central tem à mão para dominar uma corrida cambial. E, uma vez estabilizada a crise, trabalhar em problemas de fundo num plano econômico de médio prazo, que permita um ordenamento das principais variáveis macroeconômicas.

Quais elementos da política econômica estão desordenados?

A política fiscal, ou seja, o gasto público, está crescendo a um ritmo de 18% ao ano, a emissão de moeda, 28% ao ano, e a política salarial do setor público está crescendo 22% em termos anuais. Os três pilares estão indo na mesma direção. E, com isso, se tem uma política econômica bastante desbalanceada.

A equipe econômica tem boas intenções, vontade de resolver os problemas, mas não vê a integralidade que demanda um plano econômico.

Foi uma decisão tomada de maneira improvisada. Além disso, a comunicação do presidente Mauricio Macri [na quarta-feira (9)] mostra uma atitude apressada, que obviamente provoca um nervosismo no mercado, pois fica claro que as autoridades não têm claro qual caminho seguir.

Agora iniciamos um caminho de seis semanas até saber qual será o programa [de ajuste] do FMI. Enquanto isso, tudo fica em pausa.

O que provocou a corrida ao dólar?

Facilitou-se a entrada de capitais de curtíssimo prazo, atraídos pela alta taxa de juros interna. Além disso, uma política que fez com o que a cotação do dólar ficasse atrasada em relação à evolução da inflação. No ano passado, o dólar se valorizou 14% e a inflação foi de 24%. Com isso, houve um desalinhamento importante. Quando o banco central tentou corrigir, adotou um esquema de metas de inflação que não deu certo.

Por quê?

A Argentina é diferente, tem um mercado de crédito pequeno, que representa só 14% do PIB, o que responde por menos de um terço do dos demais países da América Latina. Com isso, o canal de transmissão da taxa de juros para a atividade é frágil, não mexe tanto com as expectativas de inflação. Supervalorizou-se a importância da taxa de juros e não se conseguiu, por meio dela, controlar os preços.

O atraso cambial gerou déficits externos, tanto na importação quanto na balança do turismo, que produziu um efeito de falta de dólares, agudizado pelo cenário externo de maiores taxas de juros nos Estados Unidos.

Como os argentinos reagiram?

O FMI é um estigma para todos os países latino-americanos, que o associam à crise. Também não ficou claro por que foi necessário ir ao FMI, o que está gerando incerteza. E, quando isso acontece, os argentinos compram dólares.

Pode arranhar a imagem de Macri com vistas à eleição de 2019?

Sem dúvida é um tema negativo. Mas até agora a sua queda de popularidade não foi capitalizada por nenhum outro político de oposição. Ele tem menos de 40% de popularidade. Embora seja suficiente, a depender do programa de ajuste a ser implementado pelo FMI, isso vai lhe custar mais capital político.

Poderia impulsionar a volta do peronismo ao poder?

Que peronismo? Cristina Kirchner tem um teto muito baixo, de 20% a 25%, e uma rejeição elevada, de 60%. Alguns governadores estão tentando criar o que chamamos de peronismo nacional [não vinculado ao kirchnerismo, de lideranças locais], mas ainda não conquistaram força suficiente para captar os eleitores descontentes com o governo.

A Argentina poderia mergulhar numa crise como a de 2001?

Nenhuma variável indica isso. Primeiro, o nível da dívida é hoje um terço do que era em 2001. Segundo, o sistema financeiro, os bancos, estão com nível de liquidez e de solvência que supera as exigências da regulação internacional. Terceiro, as famílias não têm créditos e dívidas em dólares, o que era um dos problemas originais da crise de 2001. Além disso, os preços dos produtos que a Argentina vende ao mundo estão muito melhores, como o da soja.


Martín Redrado, 57

É presidente da consultoria Fundación Capital e consultor sênior do Banco Mundial; presidiu o banco central da Argentina sob Néstor Kirchner; em 2010, rompe com Cristina Kirchner, então presidente, e é exonerado; economista pela Universidade de Buenos Aires, é mestre em administração pública, especializado em finanças e economia internacional, por Harvard

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