Copom reduz taxa básica de juros para 6% ao ano, primeiro corte em 16 meses

BC havia colocado como condição para o novo ciclo de cortes o avanço da reforma da Previdência

Eduardo Cucolo Júlia Moura
São Paulo

Com a aprovação da reforma da Previdência em primeiro turno na Câmara, o Banco Central anunciou nesta quarta-feira (31) o primeiro corte na taxa básica de juros no governo Jair Bolsonaro.

De acordo com a instituição, essa deverá ser a primeira de uma série de reduções que dependerão do andamento dessa e de outras reformas na área econômica.

Em decisão unânime do Copom (Comitê de Política Monetária), a Selic caiu de 6,5% para 6% ao ano. Esse é o menor patamar desde que a taxa passou a ser utilizada como instrumento de política monetária, em 1999.

Para esta reunião do comitê, as projeções do mercado estavam praticamente divididas entre um corte de 0,25 ou 0,50 ponto percentual. Agora, a expectativa dos analistas é de juros próximos de 5,5% ao ano no final de 2019.

"O Copom reitera que a conjuntura econômica prescreve política monetária estimulativa, ou seja, com taxas de juros abaixo da taxa estrutural", afirma o BC em seu comunicado.

A instituição também sinalizou que haverá novos cortes. "O Comitê avalia que a consolidação do cenário benigno para a inflação prospectiva deverá permitir ajuste adicional no grau de estímulo."

Também nesta quarta-feira, o Federal Reserve (Fed), banco central americano, cortou a taxa de juros, para uma faixa de 2 a 2,25%. Foi a primeira redução desde a crise financeira que atingiu o país no final de 2008.

Apesar da economia fraca, da inflação abaixo da meta e da expectativa de queda de juros americanos e europeus, , o BC havia condicionado um corte na taxa à continuidade da agenda de reformas.

Segundo a instituição, uma eventual frustração das expectativas de aprovação da Previdência pode afetar prêmios de risco e elevar a trajetória da inflação, hoje sob controle.

"O Copom reconhece que o processo de reformas e ajustes necessários na economia brasileira tem avançado, mas enfatiza que a continuidade desse processo é essencial para a queda da taxa de juros estrutural e para a recuperação sustentável da economia."

O Comitê disse ainda que avanços concretos nessa agenda são fundamentais para consolidação do cenário benigno para a inflação.

O BC enfatizou ainda o risco de uma eventual frustração das expectativas sobre a continuidade das reformas, o que pode afetar prêmios de risco e elevar a trajetória da inflação.

De acordo com o BC, as expectativas de inflação para 2019 e 2020 estão abaixo das metas para esses dois anos. O IPCA nos últimos 12 meses está em 3,37%, para uma meta de 4,25%.

"Com essa projeção da inflação de 3,6% em 2019, tem espaço para cortar mais. Cada corte de um ponto percentual na Selic tem um impacto de 0,3% na inflação", diz Jankiel dos Santos, economista do Santander.

A instituição financeira projeta mais dois cortes neste ano, que levariam a taxa a 5,25% ao final de 2019, patamar que deve ser mantido em 2020.

Segundo o economista, o cenário de redução de juros muda apenas se a reforma da Previdência não passar no Senado ou se as demais economias globais encerrarem o ciclo de cortes.

A XP Investimentos está entre as instituições que esperavam um corte de 0,25 ponto percentual.

"Achávamos mais adequada uma redução gradual, pois não prevíamos um avanço tão rápido da reforma da Previdência quanto aconteceu", afirma Marcos Ross, economista da corretora.

O texto-base do projeto foi aprovado em primeiro turno no plenário da Câmara em 10 de julho, antes do recesso parlamentar, e ainda será votado novamente pelos deputados antes de ir ao Senado.

Além disso, para a XP, o BC poderia testar taxas de juros mais baixas por mais tempo com cortes graduais.

"Cortando mais e mais rápido, a Selic tem menos espaço de ficar em 5% por mais tempo", diz Ross.

Com decisão desta quarta, a corretora vê espaço, inclusive, para a taxa chegar a 4,5% em dezembro, caso os dados de inflação e atividade econômica não decepcionem e a reforma da Previdência seja aprovada. O cenário base, no entanto, é que a taxa termine o ano a 5%.

"Não é porque você corta o juro que tudo vai andar bem na economia. O corte é um dos elementos favoráveis, pois ele deixa o crédito mais barato e empresas mais confiantes. Para além da política monetária, que não traz crescimento estrutural, dependemos das pautas reformistas", afirma o economista.

André Perfeito, economista-chefe da Necton, também afirma que o BC adotou uma postura bastante ousada ao iniciar um novo ciclo de cortes com uma redução de 0,50 ponto percentual e falar em ajuste adicional no grau de estímulo. Principalmente diante dos riscos que ainda existem para a tramitação de reforma da Previdência.

Para ele, seria mais prudente "colocar o pé na água primeiro", antes de dar um mergulho dessa magnitude.
Em relação aos efeitos da política monetária sobre o crescimento do país, Jankiel, do Santander, afirma que há uma defasagem até que a medida possa impactar no crédito e outros indicadores.

"São três trimestres até vermos um impacto prático desta redução. Se eu corto juros hoje, até o consumidor perceber que está mais barato, demora", afirma Jankiel.

Em seu comunicado, o BC afirmou que indicadores recentes sugerem possibilidade de retomada do processo de recuperação da economia em ritmo gradual.

Antecipando-se ao BC brasileiro, a Caixa anunciou mais cedo um novo corte nos juros em linhas para pessoas físicas e empresas.

Após o resultado do Copom, o Itaú Unibanco também anunciou redução nas taxas de juros de suas linhas de crédito e disse que está repassando integralmente a seus clientes o corte na taxa básica. Para pessoa física, a redução será no empréstimo pessoal. Para pessoas jurídicas, no capital de giro.

Também nesta quarta, antes do anúncio do BC, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que estava torcendo por um corte de juros, mas disse que não iria influenciar na decisão. "Não sou o 'Dilmo' de calça comprida", disse.

A próxima reunião do Copom está marcada para os dias 17 e 18 de setembro. O comitê ainda tem outras duas reuniões neste ano, em outubro e dezembro.

Erramos: o texto foi alterado

A projeção do Santander para a Selic ao fim do ano é de 5,25% e não 5% como constava em versão anterior deste texto.

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