Depois de dois trimestres de queda, investimentos voltam a subir

Segundo o IBGE, alta foi de 3,2% em relação ao primeiro trimestre

Nicola Pamplona Eduardo Cucolo
Rio de Janeiro e São Paulo

Com forte impulso do setor de construção civil, os investimentos na economia brasileira voltaram a crescer após dois trimestres de queda, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). 

No segundo trimestre de 2019, o investimento teve alta de 3,2%, na comparação com o mesmo período do ano anterior, ajudando o PIB (Produto Interno Bruto) a avançar 0,4% no período.

A recuperação do investimento é vista como principal caminho para a retomada do crescimento da economia brasileira. Para analistas, porém, a alta contou com base de comparação baixa e ainda não é possível dizer se é sustentável.

"Uma alta do investimento desse nível era esperada, está dentro do padrão de volatilidade do indicador. Não representa ainda uma mudança de patamar, que ainda permanece muito baixo", diz Luka Barbosa, economista do Itaú Unibanco.

Na comparação com o segundo trimestre de 2018, o investimento cresceu 5,2%. Em quatro trimestres, acumula alta de 4,3%.

Embora tenha atingido seu maior nível desde o fim de 2015, o investimento permanece 5,1% abaixo do registrado no terceiro trimestre daquele ano, quando a economia já estava em recessão.

Mesmo com a evolução, o resultado do segundo trimestre de 2019 ainda está 26,2% abaixo do pico histórico das últimas duas décadas, alcançado no segundo trimestre de 2013, anterior à recessão iniciada em 2014.

 

Em relação a outros países emergentes, a fraqueza do investimento brasileiro também se destaca. A taxa de investimento teve leve aumento passando para 15,9% do PIB, resultado um pouco melhor do que os 15,4% de 2018, que colocavam o país na 166ª posição entre as 172 nações para as quais o FMI (Fundo Monetário Internacional) possui dados.

O investimento é normalmente o principal motor do crescimento de economias que ainda precisam atingir nível mais elevado de desenvolvimento. Chama a atenção, portanto, que a taxa do país seja tão inferior à de outros emergentes como China (44,2%), Índia (31,6%), Chile (22,7%) e México (23%).

Até na comparação com países desenvolvidos – que, por possuírem economias mais sofisticadas e alta renda per capita, dependem menos de investimentos –, o Brasil tem perdido nos últimos anos.

Em 2018, a taxa de investimentos nos Estados Unidos, no Japão e na Coreia era de, respectivamente, 21,1%, 24,4% e 30,2%.

O IBGE destacou que a retomada no segundo trimestre teve forte impacto da construção civil, que responde por cerca de metade da FBCF (formação bruta de capital fixo), que calcula o investimento na economia.

Mas também contou com melhora nos indicadores de produção de máquinas e equipamentos, que sinalizam maiores investimentos na indústria.

 

O setor de construção teve crescimento de 1,9% em relação ao trimestre anterior, interrompendo uma série de 20 trimestres consecutivos de queda. Na comparação com o mesmo período de 2018, a alta é de 2%.

O desempenho reflete principalmente a melhora no mercado imobiliário. "É puxado não pela infraestrutura, mas pela parte de construção de imóveis", disse a coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis.

"É o crédito, a renda melhorando um pouco e o déficit habitacional que a gente sempre tem", analisou. Ela frisou, porém, que a alta se dá sobre uma base de comparação achatada, diante do mau desempenho do setor nos últimos anos.

Segundo a CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção), o resultado reflete o aumento de vendas de imóveis nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, principalmente aqueles considerados "de mercado", conceito que exclui programas habitacionais como o Minha Casa Minha Vida.

"Tem uma demanda reprimida muito grande", diz o presidente da entidade, José Carlos Martins. "São pessoas que demoraram a decidir [pela aquisição] e agora começam a ver o mundo um pouco melhor e passam a comprar."

A melhora no setor imobiliário, destaca ele, contribuiu com o PIB também ao puxar os serviços imobiliários e a produção de insumos, tendo impactos positivos nos setores de Serviços e Indústria.

Martins diz que o segmento imobiliário deve continuar aquecido, mas pede agilidade do governo para tocar grandes obras para gerar novos empregos e impulsionar a economia. "Se apenas com vendas em duas regiões, já movimentamos o PIB do segundo trimestre, imagine se estivéssemos com infraestrutura andando", argumenta.

Já o setor de bens de capital diz ainda não ver, na vida real, o avanço mostrado pelas estatísticas. "Nosso setor ainda não se recuperou", diz o presidente da Abimaq (Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos, José Velloso. 

"Tivemos crescimento de 2,4% no trimestre, mas entre 2014 e 2018 a queda foi de 40%. Portanto, a base de comparação é fraca", afirma. "Nosso setor tem que ser medido em períodos longos, pois se comporta diferente de bens de consumo."

"A queda do investimento foi brutal [nos últimos anos]", concorda o coordenador do Centro e Macroeconomia Aplicada da FGV, Emerson Marçal. "E nesses casos, quando tem subida é de repente."

Para o pesquisador Leonardo Mello Carvalho, do Ipea, porém, a evolução do investimento já vinha aparecendo em estatísticas anteriores e aponta para melhora na composição do PIB, sinalizando recuperação mais consistente.

Também impulsionada pela construção, o resultado geral da indústria fechou o trimestre em alta de 0,7%.

Também neste caso, houve impacto da produção de bens de capital e, ainda, da reposição de estoques, informou o IBGE. 

O desempenho poderia ter sido melhor não fosse o recuo da indústria extrativa mineral, que ainda sofre os efeitos da tragédia da mina de Brumadinho (MG), da Vale, que matou 248 pessoas e deixou 22 desaparecidos.

Esse segmento registrou queda de 3,8%, na comparação com o trimestre anterior, provocado pela suspensão da produção em unidades da mineradora após o desastre. Na comparação anual, o recuo e de 9,4%, o maior da história.

"Se não fosse o desempenho da extrativa, a gente estaria com uma indústria bem melhor", comentou a gerente de Contas Trimestrais do IBGE, Cláudia Dionísio. O segmento teve contribuição negativa de 0,3 ponto percentual no PIB do segundo trimestre.

Já a indústria de transformação teve alta de 2% no trimestre, em comparação com os primeiros três meses do ano. Na comparação anual, a alta foi de 1,6%. Os destaques positivos foram produtos de metal, máquinas e equipamentos, produtos químicos, bebidas, metalurgia, entre outros.

"A indústria da transformação como um todo foi bem positivo. Os níveis de confiança dos empresários estão levemente melhores, apesar de estarem em patamares bem abaixo do histórico", disse Dionísio.

"Teve também um processo de 'desestoque' no fim do ano passado, que pode estar sendo recomposto"
Já a agropecuária manteve o ritmo de retração e registrou queda de 0,4% em relação ao trimestre anterior. Na comparação com o mesmo período do ano passado, o setor cresceu 0,4%.

 
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