Doria aumenta a pressão para Caoa comprar fábrica da Ford no ABC

Situação gera saia justa com a montadora americana, pois contrato ainda não está fechado; conversa entre empresas já dura 4 meses

Raquel Landim Ivan Martínez-Vargas
São Paulo

O governador de São Paulo, João Doria, intensificou a pressão para que o grupo Caoa feche a compra da fábrica de caminhões da Ford em São Bernardo do Campo (SP).
 
A situação gerou uma saia justa com a montadora americana, que alega que o contrato ainda está em discussão e reclama dos seguidos vaivéns da negociação.
 
O clima azedou na segunda-feira à tarde (2), quando Doria marcou uma coletiva de imprensa para o dia seguinte no Palácio dos Bandeirantes para anunciar o futuro da fábrica no ABC paulista.
 
Pessoas próximas ao assunto dizem que a convocação foi feita sem avisar a Ford. O presidente da montadora para a América do Sul, Lyle Watters, acabou aceitando comparecer, mas não deu declarações. Ele e sua equipe saíram sem responder perguntas dos repórteres.
 
Depois de atrasar uma hora, o evento desta terça-feira (3) durou apenas 30 minutos. Doria limitou as perguntas da coletiva. Dos veículos presentes, somente quatro puderam fazer questionamentos, que foram direcionados pelo governador ao presidente do conselho de administração da Caoa, Carlos Alberto Oliveira Andrade.

Conforme apurou a reportagem, a ideia inicial de Doria era divulgar o fechamento do negócio mesmo com alguns pontos pendentes, mas a Ford se opôs. O governador passou então a trabalhar com o cenário de um anúncio em duas etapas.
 
Na coletiva, a Caoa disse que pretende fazer uma “due dilligence” (diligência prévia) da fábrica, que é uma investigação detalhada dos números. Informalmente, todavia, isso já vem sendo feito desde abril.
 
O anúncio formal da “due dilligence”, contudo, eleva a pressão, porque esses processos tem prazo para acabar. Doria chegou a afirmar que o assunto pode ser concluído até outubro.
 
“Agora temos um bom entendimento entre as partes [Caoa e Ford]. Será feito em duas etapas. Temos nos próximos 35 a 45 dias o processo de due dilligence. A opção de compra será confirmada ao final desse prazo", disse.
 
Em fevereiro, a Ford anunciou que vai sair globalmente do mercado de caminhões e que havia decidido fechar a unidade de São Bernardo do Campo (SP).
 
Na ocasião, Doria disse que trabalharia para vender a unidade e preservar os 850 empregos diretos e 8 mil indiretos. Amigo do governador, Oliveira Andrade, da Caoa, foi um dos primeiros a manifestar interesse na fábrica.
 
Se concluir a transação, Doria pode ser visto como um político que protege empregos –área em que o presidente Jair Bolsonaro (PSL) é percebido como insensível pela população. O governador paulista é um dos possíveis adversários de Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2022.
 
As conversas entre a Caoa e a Ford, contudo, já duram mais de quatro meses. Embora publicamente Oliveira Andrade diga que a aquisição seria feita com recursos próprios, pessoas próximas sustentam que ele tentou um financiamento do BNDES, mas o pleito não foi bem recebido.
 
Durante a coletiva, Doria disse que a intenção da Caoa é manter a fabricação de caminhões e iniciar também a montagem de um modelo de carro de passeio em São Bernardo do Campo (SP). 
 
Só que, para isso, o grupo precisa de um parceiro internacional. A Caoa já fabrica carros da coreana Hyndai em Anapólis (GO) e da chinesa Chery em Jacareí (SP).
 
"Nossa intenção é lançar três carros em Anápolis e ter outra marca em São Bernardo", disse Oliveira Andrade. Doria afirmou ainda que, se a marca gerar 400 empregos e investir R$ 1 bilhão no estado, poderá aderir ao programa de incentivos fiscais IncentivAuto, que dá desconto de até 25% do ICMS (Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) aos fabricantes.
 
Pelas contas do sindicato dos metalúrgicos do ABC, caso a aquisição seja realmente concluída, haverá a dispensa de ao menos 1,2 mil dos atuais funcionários da planta. Os remanescentes deverão ganhar salários que variam entre 70% e 80% do que atualmente é pago pela Ford.
 
Procurada pela reportagem, a Ford não se manifestou.

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