Colaboração da BRF leva PF a investigar 60 auditores em nova fase da Carne Fraca

Foram expedidos 68 mandados de busca e apreensão para apurar o pagamento de R$ 19 mi em propinas

Katna Baran
Curitiba

A Polícia Federal do Paraná deflagrou na manhã desta terça-feira (1º) a 4ª fase da Operação Carne Fraca, denominada Romanos. Os mandados de busca e apreensão miram principalmente fiscais do Mapa (Ministério da Agricultura) que teriam recebido propina para atuar em favor de empresas.

A investigação tem como base a colaboração da BRF, que indicou ao menos 60 auditores agropecuários que teriam recebido cerca de R$ 19 milhões.

Os pagamentos ocorreram mesmo antes da fusão de Perdigão e Sadia, que originou o grupo, até 2017, segundo a PF.  A BRF teria interrompido a prática em 2017. 

Os valores eram transferidos em espécie e até custeavam planos de saúde para alguns dos fiscais, de acordo com a investigação.

Em um caso citado pelo delegado da PF Maurício Boscardi Grillo uma auditora teria chantageado a empresa para contratar o marido dela em troca da atuação em benefício do grupo.

Dos 60 fiscais alvos da operação, 39 ainda estavam na ativa, mas foram afastados das funções por ordem judicial expedida juntamente com os mandados desta fase. Segundo o delegado, o Mapa também vai apurar a conduta dos funcionários administrativamente.

Empresas conveniadas à BRF seriam utilizadas para pagar e esconder a propina de forma que não prejudicasse a imagem do grupo. “Ela [BRF] não se expunha para os ficais, quem apareceria era outra empresa, mas [o grupo] fazia o acerto de contas depois com a empresa que fazia os pagamentos”, explicou Boscardi.

As evidências foram entregues à PF pela própria BRF, que resolveu colaborar espontaneamente a partir da 3ª fase da Carne Fraca, em março do ano passado, quando o ex-presidente da empresa, Pedro de Andrade Faria, foi um dos alvos de prisão. O grupo teria interrompido os pagamentos já em 2017, quando passou por uma reestruturação interna.

Uma das investigadas é a União Avícola, ligada ao ex-senador Cidinho Santos (PR-MT). “A gente precisava confrontar as provas, procurar saber se essa empresa toma ainda esse tipo de postura. É possível que isso venha a acontecer”, afirmou o delegado.

Em troca da propina, os fiscais teriam facilitado ou “deixado de atrapalhar” a atividade das empresas. “[A intenção era] conseguir operar com agilidade no sistema em razão do lucro, sem ser atrapalhado pelo grupo de fiscais que atuavam na empresa”, disse Boscardi.

Além de confirmar as provas apresentadas pela BRF, a intenção dos policiais é investigar se os auditores continuam recebendo propina de outras empresas.

Ao todo, são 68 mandados de busca e apreensão em nove estados: Paraná, São Paulo, Santa Catarina, Goiás, Mato Grosso, Pará, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Os mandados foram expedidos pela 1ª Vara Federal de Ponta Grossa, no interior do Paraná.

O nome da operação, Romanos, faz referência a passagens bíblicas que tratam de confissão e justiça.

O Ministério da Agricultura diz, em nota, que "a Operação Romanos diz respeito a desdobramentos de investigações relativas a fatos ocorridos até 2017" e que "as informações sobre os servidores alvos dessa etapa da operação foram enviadas hoje ao Mapa, que já tomou e continuará tomando todas as providências e sanções legais cabíveis".

A pasta afirma ter confiança "em sua área de fiscalização agropecuária, já reestruturada, e entende que essa situação é uma exceção à regra e não compromete a efetiva atuação de seus 2.500 fiscais".

“O Ministério reafirma a plena confiança em sua área de fiscalização agropecuária, já reestruturada, e entende que essa situação é uma exceção à regra”, completa a nota.

Em nota, a União Avícola afirmou que o fiscal citado na investigação nunca trabalhou ou foi responsável pela inspeção na empresa. Diz também que tomará as medidas cabíveis quando os fatos forem esclarecidos.

Procurada pela reportagem, a BRF confirmou que tem colaborado com as autoridades para esclarecer os fatos apurados e afirmou que está atuando em conformidade com as regras vigentes. A empresa não foi alvo de buscas nesta fase da operação.

Ações de algumas empresas do setor iniciaram o dia em queda na B3, a Bolsa brasileira. Por volta das 10h30, a BRF registrava queda de cerca de 1,3%. Os papeis da JBS caíam por volta de 0,5%. 

A última fase da Carne Fraca foi deflagrada em março do ano passado, mirando a BRF. Na ocasião, o ex-presidente da empresa, Pedro de Andrade Faria, foi um dos dez alvos de prisão.

As primeiras fases da operação Carne Fraca, iniciada em 2017 e retomada nesta terça, mais de um ano depois da última etapa, tiveram como alvo suspeitas de corrupção de agentes do MAPA, mas também de fraudes na fiscalização que teriam levado à comercialização de carne contaminada e vencida. 

Ainda foram divulgados na ocasião indícios de fraude no fornecimento de carne para merenda escolar com a troca de ingredientes mais baratos do que a carne bovina.

A última fase da operação ocorreu em março do ano passado e teve como alvo principal executivos da BRF. O ex-presidente da empresa, Pedro de Andrade Faria, chegou a ser preso.

Outros grandes frigoríficos, como da JBS, também foram atingidos. Na época, a divulgação de que havia suspeitas de venda de carne podre e misturada com outras substâncias, como ácidos cancerígenos e papelão, levantou dúvidas sobre a atuação da PF.

Para especialistas, houve exagero e confusão nas informações fornecidas. 

Ainda na ocasião, a polícia chegou a emitir nota em conjunto com o MAPA, afirmando que as irregularidades apuradas pela operação eram "pontuais" e não representavam um mau funcionamento generalizado do sistema de integridade sanitária brasileiro.

Nesta terça, questionado sobre as apurações, o delegado Maurício Boscardi Grillo afirmou que a Carne Fraca sempre teve como alvo principal as suspeitas de corrupção e não de saúde pública, mas que um problema está ligado ao outro.

“O reforço dessas fases [da investigação] demonstra que uma situação alimenta a outra, ou seja, quando têm fiscais corruptos, uma situação aparente, obviamente, é uma fragilidade. Essa fragilidade vem sendo fechada, hoje até pelos próprios grupos”, declarou.

Segundo o delegado, os problemas revelados na época foram repassados ao MAPA e “sanados naquele momento”.

O superintendente da PF no Paraná, Luciano Flores, afirmou ainda que, além de resolvidos, os danos detectados anteriormente pela operação “permitiram que o Brasil se consolidasse em primeiro lugar em exportação de proteína bovina”.

“As autoridades de outros países também obtiveram informações e constataram que erros que eventualmente aconteciam no passado hoje estão superados”, declarou.

 
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