Imagem externa não sustenta presidência de Putin, diz analista

Para chefe de instituto de pesquisa, queda de apoio com reforma da Previdência é 1º sinal de deterioração

Putin segura uma camiseta azul de futebol com seu nome e o número 11. Ao lado esquerdo dele está Infantino.
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, posa ao lado do presidente da FIFA, Gianni Infantino, e de ex-jogadores que o visitaram no Kremlin nesta sexta-feira (6) - Alexei Druzhinin/Sputnik/Associated Press
Igor Gielow
Moscou

A recuperação da imagem externa da Rússia não é mais suficiente para manter a popularidade do presidente Vladimir Putin, que precisará investir na política doméstica se quiser seguir bem avaliado.

A opinião é do chefe do departamento de pesquisa do Centro Levada, o sociólogo Denis Volkov. O instituto é o principal centro de estudo de opinião pública independente da Rússia.

"A política de 'Rússia grande' é popular, mas as pessoas agora não querem mais saber o que está acontecendo na Ucrânia, na Geórgia, na Síria", afirmou.

Ele se refere às aventuras militares patrocinadas pelo Kremlin desde 2008, que sempre se refletiram em aumento da popularidade de Putin.

Sinal da avaliação de Volkov é a queda generalizada do apoio a Putin em pesquisas de diversos institutos após a elaboração, pelo governo, de um polêmico projeto que prevê o aumento da idade mínima da aposentadoria.

De maio para cá, o apoio a Putin caiu, segundo o Levada, de 79% para 65%. O grau de confiança da população no presidente recuou para 48%, abaixo de 50% pela primeira vez em cinco anos.

"Isso é momentâneo e pode ser revertido, mas na realidade indica uma tendência que havíamos registrado. É um sinal", disse Volkov.

Segundo ele, após a recuperação econômica posterior à recessão que durou de 2014 a 2016, a percepção da população é de estagnação.

Segundo a consultoria Macro-Advisory, com a projeção de um crescimento do PIB entre 1,5% e 2% ao ano de 2018 a 2020, a renda média dos russos deverá se estabilizar —hoje equivale a R$ 2.700 mensais.

Com a inflação sob controle (2,4% ao ano) e o desemprego baixo (4,7%), o desafio de Putin é aumentar o investimento no país, algo difícil dadas as restrições de crédito impostas pelas sanções ocidentais devido à anexação da Crimeia, em 2014.

O pacote inclui a parte fiscal, a começar pela reforma previdenciária impopular. O plano prevê aumentar de 60 para 65 a idade mínima de aposentadoria para homens e de 55 para 63 anos no caso das mulheres.

"Putin ainda pode se recuperar. Uma versão mais amena [da reforma] deve estar a caminho", afirma o sociólogo. O Levada aponta 90% de rejeição à proposta.

Apesar de o tema ser espinhoso em qualquer lugar do mundo, como mostram Brasil e França, a particularidade da herança do comunismo turbina o repúdio ao projeto.

"Há uma tendência de se achar que o Estado precisa cuidar das pessoas aqui. E temos de levar em consideração que o povo russo é pobre, em especial os aposentados", pondera Volkov.

Durante sete décadas, até 1991, os russos viveram na União Soviética, experimento falido em que o Estado era o provedor de quase tudo.

As aposentadorias variam de região para região, mas a média nacional é de R$ 870 mensais. O Fundo de Previdência Russo paga benefícios a 42 milhões dos 144 milhões de habitantes do país.

Segundo as contas do Kremlin, hoje o governo gasta 2% do PIB com aposentados. Sem a reforma, o valor quase dobrará em 2050.

"É o grande desafio para Putin", resume Volkov. O presidente foi reeleito com 77% dos votos em março e permanece com uma invejável popularidade, mesmo com o tombo.

Ele atravessou os últimos quatro anos com aprovação intocável, perto dos 80%. O período coincidiu com a reação ao golpe que derrubou o governo pró-Kremlin na Ucrânia, baseada na anexação da região historicamente russa da Crimeia.

Desde 2008, Putin elevou o gasto militar e o mantém na elevada casa dos 4% do PIB. O resultado foi uma modernização acelerada em alguns setores das Forças Armadas, altamente propagandeada.

A fórmula, contudo, parece ter chegado à exaustão. Mesmo a Copa do Mundo na Rússia não deverá dar refresco a Putin.

"Vimos em pesquisa espontânea que 50% dos russos têm interesse no Mundial, enquanto 30% falavam na reforma como assunto prioritário. Só que a Copa acaba, e a questão da aposentadoria seguirá em frente", disse Volkov.

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