Descrição de chapéu The New York Times

Doações estrangeiras para posse de Trump serão investigadas

Lei federal proíbe esse tipo de contribuição; procurador especial busca indícios de compra de influência política

Washington | New York Times News Service

Promotores federais dos EUA estão examinando se estrangeiros canalizaram ilegalmente doações para o comitê da posse do presidente Donald Trump e para um super PAC (comitê de ação política) pró-Trump, na esperança de comprar influência na política americana, segundo pessoas inteiradas do inquérito.

A investigação se concentra na possibilidade de pessoas de países do Oriente Médio —incluindo Qatar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos— terem usado "laranjas" para disfarçar suas doações aos dois fundos. A lei federal dos EUA proíbe contribuições estrangeiras a campanhas federais, PACs e fundos de posse.

A linha de questionamento salienta o alcance cada vez maior de inquéritos criminais que representam ameaças ao governo Trump.

O procurador especial Robert Mueller está concentrado em se alguém na campanha de Trump conspirou com a Rússia para inclinar a eleição presidencial de 2016 em favor de Trump, enquanto promotores de Nova York buscam provas de que ele secretamente autorizou pagamentos ilegais para calar acusações de casos extraconjugais que ameaçavam sua campanha.

O inquérito sobre potenciais doações estrangeiras ao fundo de posse e ao super PAC é mais uma frente seguida por diversas equipes de promotores. Thomas Barrack, financista bilionário e um dos amigos mais próximos de Trump, angariou dinheiro para os dois fundos.

"Tom nunca falou com qualquer indivíduo ou entidade estrangeira com o objetivo de levantar dinheiro ou obter doações relacionadas a qualquer campanha, à posse ou alguma atividade política", disse Owen Blicksilver, porta-voz de Barrack. O enfoque no comitê de posse foi relatado no início da quinta-feira (13) pelo The Wall Street Journal.

O super PAC, chamado Reconstruir a América Agora, foi formado no verão de 2016, quando a campanha presidencial de Trump estava sem dinheiro e sem o apoio de doadores republicanos. Trump insistiu que podia financiar sua própria campanha, mas se recusou a ir fundo no próprio bolso.

Segundo várias pessoas informadas sobre a investigação, Paul Manafort, que liderava a campanha, sugeriu que Barrack pisasse no vazio criando e levantando fundos para o PAC, que poderia coletar quantidades ilimitadas desde que evitasse se coordenar estreitamente com o candidato.

Em uma entrevista a investigadores um ano atrás, Barrack disse que Manafort parecia considerar o comitê político um braço da campanha, apesar das leis destinadas a evitar essa coordenação, segundo uma pessoa inteirada da entrevista.

A lei eleitoral federal exige um período de esfriamento de pelo menos 120 dias antes que membros da campanha entrem para um comitê político de apoio ao mesmo candidato, mas Manafort despachou dois amigos da campanha, Laurance Gay e Ken McKay, para dirigirem a operação.

Uma autoridade de imprensa disse na época que o comitê não violou as regras porque a campanha nunca pagou aos dois. Nenhum deles retornou vários telefonemas pedindo comentários.

Segundo documentos da Comissão Eleitoral Federal, o comitê levantou US$ 23 milhões (cerca de R$ 90 milhões), tornando-se uma das principais fontes de fundos para publicidade, pesquisas e outros gastos políticos em prol de Trump.

A maior parte do dinheiro veio de vários grandes doadores, como Linda McMahon, uma executiva de luta profissional que doou US$ 6 milhões (R$ 23 milhões) e depois foi nomeada por Trump chefe da Administração de Pequenas Empresas.

Promotores de Nova York e da equipe de Mueller perguntaram a testemunhas se alguém do Qatar ou de outros países do Oriente Médio contribuiu com dinheiro, talvez usando intermediários americanos.

Entre outras questões, eles perguntaram sobre um cruzeiro no Mediterrâneo que Barrack e Manafort fizeram depois que o segundo foi demitido da campanha de Trump, em agosto de 2016, por causa de um escândalo sobre seu trabalho anterior para políticos pró-russos na Ucrânia.

Manafort teve sérios problemas financeiros na época, e Barrack, que tem uma extensa rede de negócios no golfo Pérsico, pode ter tentado ajudá-lo a encontrar clientes.

No cruzeiro, a dupla encontrou um dos homens mais ricos do mundo, Hamad bin Jassem bin Jabr Al Thani, ex-primeiro-ministro do Qatar. Até 2013, Al Thani presidiu o fundo soberano do país, de US$ 230 bilhões (R$ 900 biilhões). Ele continua sendo um membro altamente influente da família real que governa o país.

Investigadores também buscaram informações de um empresário, Rashid Al Malik, sócio de Barrack que dirige uma firma de investimentos privados nos Emirados Árabes Unidos. Segundo uma pessoa inteirada do inquérito, Malik, cujo advogado não respondeu imediatamente a um pedido de comentários, foi descrito como próximo de uma figura chave no governo dos Emirados.

Depois da eleição de Trump, qualquer dificuldade que ele tivesse para encontrar doadores parece ter desaparecido. Seu fundo de posse levantou US$ 107 milhões (R$ 419 milhões) —quatro vezes mais que o PAC pró-Trump e o dobro da quantia levantada para a primeira posse do presidente Barack Obama.

Barrack foi seu presidente, e Rick Gates, um antigo sócio empresarial de Manafort que serviu como vice-presidente de campanha, o dirigiu.

O inquérito sobre o fundo de posse parece envolver promotores do gabinete do ministro da Justiça em Manhattan e no Brooklyn, segundo pessoas familiarizadas com a investigação.

O fundo é uma antiga fonte de disputas internas entre assessores da Casa Branca e amigos pessoais de Trump, que se acusam mutuamente por reportagens sobre gastos duvidosos.

Os promotores de Manhattan pareciam seguir pistas de seu caso contra Michael Cohen, o antigo e ex-advogado do presidente.

Cohen foi condenado na quarta-feira (12) a três anos de prisão, em parte por organizar pagamentos para encobrir escândalos sexuais que poderiam ter ameaçado as chances de Trump conquistar a Casa Branca.

Sharon Lafraniere, Maggie Haberman e Adam Goldman

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.