Lava Jato critica saída de procuradores que investigavam Odebrecht no Peru

Afastamento da dupla que comandava a investigação abre precedente perigoso, diz comunicado

São Paulo

O afastamento dos dois procuradores peruanos que comandavam a investigação de um esquema de corrupção envolvendo a construtora Odebrecht no país abre um precedente perigoso na América Latina, disse nesta quarta (2) a força-tarefa da Lava Jato no Paraná.

Em nota, os procuradores brasileiros afirmaram que o afastamento fere a independência e a estabilidade de seus colegas peruanos e que este tipo de ação é uma ameaça a investigações de corrupção em todo o mundo.

O procurador-geral do Peru, Pedro Chavarry, anunciou na noite do Ano-Novo a saída dos dois principais nomes da equipe especial responsável pela Lava Jato peruana.

Os procuradores Rafael Vela (esq) e José Domingo Pérez durante entrevista coletiva em Lima após o afastamento
Os procuradores Rafael Vela (esq) e José Domingo Pérez durante entrevista coletiva em Lima após o afastamento - Ernesto Benavides - 1º.jan.19/AFP

Foram afastados o coordenador do grupo, Rafael Vela, e José Domingo Pérez, que há uma semana tinha ameaçado denunciar o próprio Chavarry por encobrir e obstruir investigações contra Keiko Fujimori, a principal líder da oposição, uma das acusadas de receber propina da empresa brasileira.     

Segundo o procurador-geral, a ação caracterizou uma quebra de hierarquia dentro do Ministério Público e por isso os dois foram afastados. A medida causou uma crise no país que levou o presidente Martín Vizcarra a deixar Brasília de emergência, onde estava para a posse de Jair Bolsonaro, e retornar a Lima. 

Vizcarra é contrário a mudança na investigação, mas não tem poder para afastar Chavarry, que foi escolhido para o cargo pela cúpula do Ministério Público local. 

Segundo a força-tarefa da Lava Jato no Brasil, o afastamento da dupla de procuradores foi feito por "motivo frágil", que coloca em risco o trabalho já feito e mina a credibilidade da equipe. 

"Quando investigações envolvem políticos e autoridades públicas e têm um efeito dominó em potencial, podendo vir a atingir um grande número de poderosos como aconteceu no Brasil, elas precisam ter um grau de independência inquestionável", diz o comunicado. 

"Garantir tal independência é absolutamente imprescindível para evitar que interesses não republicanos prejudiquem a efetividade, a integridade, os resultados, a imparcialidade ou a credibilidade da investigação", completa a nota. 

Os procuradores brasileiros disseram ainda que a saída da dupla pode prejudicar a cooperação internacional entre Brasil e Peru na investigação do caso. 

Além de Keiko, também são investigados quatro ex-presidentes do país por suspeita de terem participado do esquema de corrupção:  Alejandro Toledo (2001-2006), que fugiu para os Estados Unidos e enfrenta um pedido de extradição; Ollanta Humala (2011-2016), que ficou preso por nove meses com sua esposa Nadine; Alan García (1985-1990, 2006-2011), que pediu asilo na embaixada do Uruguai e teve o pedido negado; e Pedro Pablo Kuczynski (2016-2018), que renunciou em março, alvo de denúncias de corrupção.

   

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