Descrição de chapéu Venezuela

Crise na Venezuela faz russos adotarem discrição em feira militar no Rio

De estande chamativo a uma pequena sala de reuniões, estatal de venda de armas faz negócios em silêncio no Brasil

Rio de Janeiro

O estande da estatal russa de exportação de armas, a Rosoboronexport, sempre chamava a atenção em edições anteriores da maior feira de defesa da América Latina, a LAAD.

Maquetes de seus formidáveis aviões de combate Sukhoi e propaganda ostensiva de armamentos que vão do famoso fuzil de assalto Kalachnikov a submarinos de ataque da classe Kilo faziam a festa de interessados em assuntos militares e potenciais compradores.

A crise na ditadura de Nicolás Maduro na Venezuela mudou tudo, já que o presidente Vladimir Putin é um dos únicos fiadores do regime em Caracas, amplamente rejeitado pelos governos da região —a começar pelo Brasil.

Estande da estatal russa Rosoboronexport na feira de defesa LAAD, no Rio
Estande da estatal russa Rosoboronexport na feira de defesa LAAD, no Rio - Igor Gielow/Folhapress

Na edição deste ano da LAAD, no Riocentro, a Rosoborenxport ocupa um estande diminuto. Em vez de maquetes de armas, um contêiner abrigando duas salas de reunião e uma pequena antessala aberta, em que atendentes se revezam para receber visitantes ao lado de um pequeno modelo de drone a hélice.

Na porta do complexo, um segurança que faz jus ao estereótipo ocidental do “russo da KGB” olha desconfiado para quem se aproxima demais.

Um empresário russo que sempre vem à LAAD diz que a guinada à direita nos principais governos da América do Sul —Brasil, Chile, Colômbia e Argentina à frente— dificultou a vida para a Rosoboronexport.

Aliado da Venezuela e fornecedor central de material bélico do país desde o governo de Hugo Chávez (1999-2013), o Kremlin contava com a simpatia de governos como o de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, do PT.

Agora, os russos são denunciados por Washington como intrusos na região, desconfiança compartilhada pelo governo Jair Bolsonaro.

Assim, a empresa optou por uma presença politicamente menos ostensiva na feira, para que negócios possam ser discutidos sem chamar a atenção mesmo com enviados de governos hostis a Maduro —antes, conversas eram precedidas por visitas de delegações aos destaques dos estandes, com fotos e publicidade.

A chegada à Venezuela de dois aviões militares de Moscou com pessoal e equipamento supostamente para municiar um centro de formação de pilotos de helicópteros contratado nos anos 2000 por Caracas gerou a insinuação de que Putin preparava uma intervenção em favor do aliado.

Um militar russo na LAAD, que a exemplo do empresário pediu para não ser identificado, brincou sobre o episódio, dizendo que seria preciso um pouco mais do que cem soldados para conter um ataque americano, mas sorriu ao ser confrontado com a avaliação de que a assistência passava um recado político a Washington.  

Como negócios são negócios, esses empecilhos não evitaram que reuniões seguissem acontecendo discretamente.

Delegações de países como Uruguai, Colômbia e Chile estiveram reunidas com representantes russos para prospectar acordos —essas feiras só registram grandes anúncios de contratos quando estes já estão acertados previamente, como no caso da compra bilionária de corvetas pela Marinha do Brasil.

Também passaram pelo estande discreto o famoso brigadeiro da reserva Wilson Romão, velho conhecido negociador de contratos militares para as Forças Armadas brasileiras.

No passado, ele trabalhou num dos raros negócios militares entre Brasil e Rússia, a compra de 12 helicópteros de ataque Mi-35 para a Força Aérea operar na Amazônia.

A venda foi triangulada com outro notório mercador do ramo, o paquistanês Shehzad Shaik, que mora em Moscou e ajudou Romão a fechar no mesmo pacote o fornecimento de um lote de cem mísseis anti-radiação da brasileira Mectron para seu país de origem, em 2008.

O interesse maior das delegações sul-americanas é nos poderosos sistemas de defesa antiaérea de longa distância, os S-300 e os S-400.

Em todo o continente, apenas a Venezuela de Maduro dispõe desse tipo de arma, que no caso de Caracas “fecha” espaços aéreos em raios de até 250 km.

Como os modelos mais avançados são capazes de deter mísseis de cruzeiro e até mísseis balísticos em algumas circunstâncias, são sistemas de defesa ideais para países com grandes territórios e distantes do resto do mundo, como os da América do Sul.

Nesta quinta (4), o ministro da Defesa do Brasil, general Fernando Azevedo, fez uma visita de cortesia ao estande russo, mas sem participar de negociações. Antes, representantes das três Forças passaram lá para conversar com os russos, mas, segundo a Folha apurou, não houve nenhum avanço em negócios.

O motivo talvez esteja mais no bolso do que na ideologia: cada batalhão de S-400 não sai por menos de US$ 200 milhões (R$ 800 milhões). A defesa aérea brasileira é um dos pontos mais deficientes da estrutura militar do país.

Nos últimos anos, houve um vaivém para a compra de sistemas de médio alcance Pantsir, mas o negócio acabou retrocedendo. Além dos helicópteros, o Brasil também usa da Rússia os lançadores de mísseis portáteis Igla-S, que fazem defesa aérea pontual e de baixa altitude.

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