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Reeleição na Bolívia põe fim a lua de mel de Bolsonaro e Evo

Relação, porém, pode se sustentar na base do pragmatismo em favor das relações comerciais

Daigo Oliva
São Paulo

Em dez meses, a relação entre Evo Morales e Jair Bolsonaro foi da lua de mel a um ensaio de separação.

Se no começo do ano o presidente boliviano compareceu à posse do brasileiro, a última sexta-feira (25) terminou com o anúncio, via Twitter, de que o Brasil não reconhece a reeleição de Evo, ao menos "neste momento".

Marcada por muitas idas e vindas, a contagem de votos do pleito presidencial boliviano foi questionada por diversos países e organizações, como a OEA (Organização de Estados Americanos).

Além de Brasil, Estados Unidos, Colômbia e Argentina, a União Europeia pediu a realização de um segundo turno entre o atual presidente e o opositor Carlos Mesa e a auditoria dos resultados, que deram a Evo o quarto mandato consecutivo.

O presidente da Bolívia, Evo Morales, durante cerimônia de posse do presidente Jair Bolsonaro, no Congresso Nacional, em Brasília
O presidente da Bolívia, Evo Morales, durante cerimônia de posse do presidente Jair Bolsonaro, no Congresso Nacional, em Brasília - Walterson Rosa - 1º.jan.19/Folhapress

Bolsonaro, em viagem à Ásia, quando questionado sobre a controversa apuração, colocou o processo eleitoral boliviano em dúvida, mas foi comedido nas declarações. Já seu filho Eduardo Bolsonaro, ex-candidato a embaixador em Washington, adotou outro tom.

Na tribuna da Câmara, o deputado federal disse que, na Bolívia, a "democracia —se é que há democracia lá— está com as pernas muito bambas" e que "está na cara que as eleições foram fraudadas".

Também afirmou que "o Brasil estaria em um bom caminho se juntasse esforços com outros países para pedir, via OEA, a anulação dessa eleição".

Tido por muitos como o chanceler de fato, Eduardo terminou dizendo que "nós não podemos permitir que nasça uma outra Venezuela debaixo do nosso bigode", em referência à ditadura do país caribenho em crise.

Muito antes das críticas, porém, o presidente Bolsonaro e Evo viveram um "bromance" —expressão em inglês que une as palavras "brother" e "romance" e indica um relacionamento íntimo entre dois amigos, sem que haja envolvimento sexual.

Além da presença em Brasília para a cerimônia de posse, o líder boliviano se tornou um aliado de fato após a prisão em Santa Cruz de la Sierra do italiano Cesare Battisti, cuja extradição era pedida pela Itália devido ao envolvimento dele na luta armada de extrema esquerda. 

Preso no Brasil em 2007 e com status de refugiado desde então, Battisti tinha sua permanência no país defendida pelos governos petistas. Em 2017, portanto após o impeachment de Dilma Rousseff, no entanto, o italiano viu Michel Temer autorizar sua extradição, o que o fez fugir para a Bolívia.

Para Bolsonaro, devolver à Itália um personagem altamente associado à esquerda para cumprir prisão perpétua era simbólico. E ver Evo, um presidente da chamada "onda rosa", não impor barreiras para transferir Battisti de volta ao Brasil era mais simbólico ainda.

Em julho, na Cúpula do Mercosul, em Santa Fé, disse em um discurso que "estava com saudades" do boliviano. No mesmo mês, ficou contente ao saber que Evo não iria ao encontro do Foro de São Paulo, em Caracas.

O caldo começou a entornar em uma entrevista de Evo à Folha, na qual criticou a política de armas de Bolsonaro. Numa declaração cheia de cuidados, antecedida do aviso de que diferenças ideológicas não o impedem de se relacionar politicamente com seus pares, afirmou que não compartilha "a ideia de permitir mais armas para que brancos matem a população pobre do país”.

Dias depois, em meio à crise das queimadas na Amazônia, Bolsonaro disse que era na Bolívia, e não no Brasil, onde ocorriam os maiores incêndios florestais. A fala era uma reação a declarações de Evo durante a conferência de Leticia, cidade na Colômbia que sediou uma cúpula sobre preservação da Amazônia.

Lá, o boliviano disse que o capitalismo era responsável pela destruição do meio ambiente, num contexto de crítica ao consumismo, e se queixou da ausência do ditador venezuelano Nicolás Maduro no evento —sim, Evo, prático até a medula, teve a proeza de ir às posses tanto de Bolsonaro quanto de Maduro.

O status atual da relação pode ser resolvido por meio desse mesmo pragmatismo. O comedimento do presidente brasileiro para condenar o processo eleitoral na Bolívia pode ter resposta na relação comercial entre os países.

Na mesma entrevista em que recomendou um segundo turno, Bolsonaro chegou a dizer que Evo "está de bem comigo" e que não pretende ter nenhum problema com ele, já que o colega lhe disse querer comprar um avião militar do Brasil. Ele também teria pedido para facilitar a entrada e saída de mercadorias em Rondônia. 

Em 2018, as exportações brasileiras para a Bolívia aumentaram em 3,2%, de US$ 1,5 bilhão para US$ 1,6 bilhão, enquanto as importações cresceram 18%, de US$ 1,4 bilhão para US$ 1,7 bilhão em relação a 2017. É aí que Evo quer mais: na venda de gás ao Brasil. 

Banhado no pragmatismo à moda da China após a visita a Pequim nesses dias, Bolsonaro pode ter entendido que nem tudo se baseia em classificações cambaleantes de direita ou esquerda.

Se a relação entre os líderes já não é aquela lua de mel, também não chegou a se romper, e por isso o Itamaraty fez questão de frisar que o governo brasileiro, "neste momento", não reconhece a reeleição de Evo.

A ver amanhã. 

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