Tenente disse que o mandaram ficar quieto sobre ligação de Trump com líder da Ucrânia

Alexander Vindman afirmou que foi instruído a não discutir o assunto fora da Casa Branca

Washington | The New York Times

Vários dias após o telefonema do presidente Donald Trump ao líder da Ucrânia, um importante advogado da Casa Branca instruiu um membro graduado da segurança nacional a não discutir suas graves preocupações sobre a conversa dos líderes com alguém fora da Casa Branca, segundo três pessoas inteiradas do depoimento do assessor.

O tenente-coronel Alexander Vindman testemunhou ter recebido essas instruções de John Eisenberg, o principal consultor jurídico do Conselho de Segurança Nacional, depois que os advogados da Casa Branca descobriram, em 29 de julho, que um funcionário da CIA havia levantado anonimamente preocupações sobre o telefonema de Trump, disseram as fontes.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante um comício no Mississippi
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante um comício no Mississippi - 1º.nov.19/Reuters

A diretriz de Eisenberg aumenta uma lista crescente de ações de altos funcionários da Casa Branca para conter, ou mesmo esconder, possíveis evidências da tentativa de Trump de pressionar o presidente ucraniano Volodimir Zelenski a fornecer informações que pudessem prejudicar o ex-vice-presidente Joe Biden.

A instrução para ficar quieto veio depois que autoridades da Casa Branca já haviam discutido a transferência de uma transcrição bruta do telefonema para um servidor de computador altamente secreto, e a instrução foi dada por Eisenberg, que mais tarde se envolveria na batalha do governo para impedir que uma denúncia explosiva sobre a ligação fosse compartilhada com o Congresso.

A interação entre Eisenberg e Vindman sugere que havia um sentimento entre alguns na Casa Branca de que a ligação de Trump com Zelenski não foi "perfeita", como o presidente afirmou repetidamente.

E ameaça minar o argumento de Trump de que a abrangente investigação de impeachment tem orientação política.

"Se esta é uma ligação tão perfeita, por que todo mundo está se empenhando tanto?", indagou nesta semana uma autoridade dos EUA familiarizada com o depoimento de Vindman.

"Por que as pessoas estão correndo imediatamente para o advogado da Casa Branca? Por que o advogado da Casa Branca está dizendo às pessoas para não falarem a respeito?"

A revelação, relatada pela primeira vez na tarde de sexta-feira (1º) pelo site Politico, ocorre quando o inquérito de impeachment entra em uma nova fase pública depois que a Câmara votou seguindo linhas partidárias nesta semana para prosseguir com audiências abertas pela primeira vez, enquanto os comitês de investigação começam a mapear os artigos que deverão acusar Trump de abuso de poder e potencial obstrução de Justiça.

O diretor de Segurança Nacional, Alexander Vindman, chega para prestar depoimento no Capitólio. Ele usa sua farda miliar de alta-patente, azul marinho, com muitas medalhas.
O tenente-coronel, Alexander Vindman, chega para prestar depoimento no Capitólio, em Washington, no dia 29 de outubro de 2019. - AFP

O testemunho de Vindman na terça-feira (29) apontou várias ações de funcionários da Casa Branca que poderiam ser interpretadas como tentativas de encobrir a conduta de Trump.

O principal especialista ucraniano na Casa Branca, Vindman, foi uma das várias autoridades que ouviram o telefonema entre Trump e Zelenski na sala de situação da Casa Branca.

Ele disse aos legisladores que estava profundamente preocupado com o que interpretou como uma tentativa do presidente de subverter a política externa dos EUA e uma tentativa imprópria de coagir um governo estrangeiro a investigar um cidadão americano.

Vindman disse que transmitiu essas preocupações a Eisenberg poucas horas após o telefonema, de acordo com as pessoas familiarizadas com o testemunho do tenente-coronel, que falaram sob a condição de anonimato por serem depoimentos a portas fechadas.

Enquanto se encontrava com Eisenberg, Vindman disse que ouviu o consultor jurídico procurar outro advogado na sala e propor medidas para restringir o acesso à transcrição bruta —uma medida descrita no relatório do denunciante como uma tentativa de "travar" o que os legisladores consideram agora a evidência mais prejudicial sobre a intenção e a conduta de Trump.

Vindman também testemunhou que a transcrição deixou de captar várias palavras ou frases potencialmente importantes, incluindo uma referência de Zelenski à empresa de energia ucraniana Burisma, que havia empregado o filho de Biden e que Trump queria que fosse investigada.

Vindman disse que procurou corrigir a transcrição, mas que suas sugestões não foram incluídas.

Novos detalhes do depoimento de Vindman também esclareceram outros aspectos das tensas consequências da ligação dentro da Casa Branca.

O assessor da segurança nacional disse que Eisenberg o procurou vários dias após a ligação e disse que um funcionário da CIA havia levantado preocupações internas sobre a ligação, e que o principal advogado da agência havia transmitido essas preocupações à Casa Branca, disseram pessoas familiarizadas com o depoimento.

Eisenberg perguntou a Vindman se ele havia conversado com outras autoridades sobre seus temores, e depois o instruiu a não falar mais sobre o assunto, disseram as pessoas.

Mas a essa altura Vindman já o havia feito, de acordo com seu testemunho, no qual revelou que tinha conversado com pelo menos dois "colegas interinstitucionais", ou seja, autoridades em outros cargos fora da Casa Branca que também acompanharam de perto as questões da Ucrânia.

Vindman não revelou em seu testemunho quem eram esses outros funcionários.

O funcionário da CIA que entrou com uma queixa de denunciante também forneceu um memorando que ele fez para seus próprios registros comemorando uma conversa em 26 de julho com uma autoridade da Casa Branca sobre a ligação de Trump-Zelenski.

O funcionário da Casa Branca tinha "escutado todo o telefonema" e ficou "visivelmente abalado pelo que havia transpirado", escreveu o funcionário da CIA.

A autoridade descreveu a ligação como "louca", "assustadora" e "completamente desprovida de substância relacionada a segurança nacional".

Em sua declaração aos legisladores nesta semana, Vindman disse: "Não sei quem é o denunciante e não me sentiria à vontade para especular".

Vindman também afirmou em depoimento nesta semana que o registro oficial e a transcrição bruta da ligação incluíam uma alteração inexplicável.

Uma vaga frase de oito palavras adicionada e atribuída a Zelenski, que o líder estrangeiro não disse. A palavra específica que o presidente ucraniano disse foi omitida do registro oficial: "Burisma" —a empresa ucraniana que empregou o filho de Biden, Hunter. Em seu lugar, a transcrição oficial usou isto: "a empresa que você mencionou nesta questão".

O motivo da inserção de uma frase potencialmente fabricada, que não foi relatada anteriormente, é desconhecido.

Alguns argumentam que os transcritores simplesmente entenderam mal ou erraram a palavra, mas usaram uma descrição genérica. Mas poderia ser útil para a afirmação do presidente de que ele não se envolveu em uma troca de favores.

Zelenski mencionar a Burisma pelo nome é importante, disse Vindman aos legisladores. Isso sugeria que o líder ucraniano sabia antes da ligação que o presidente americano estava desejando uma investigação de seu rival democrata antes que Trump concordasse em se encontrar com Zelenski.

Vindman testemunhou que ele tentou corrigir a transcrição bruta para adicionar a palavra "Burisma" e combinar com suas anotações da ligação, mas soube depois que não teve êxito.

Ele disse aos legisladores que não sabe o motivo nem supõe que houve motivos nefastos. Mover o registro da chamada para um servidor seguro separado interrompeu o processo normal de revisão da transcrição das chamadas de um presidente com um chefe de Estado.

As interações de Vindman com Eisenberg tinham grande interesse para os investigadores da Câmara.

Na quarta-feira (30), um dia após o depoimento de Vindman, os comitês de impeachment da Câmara anunciaram que pediram a Eisenberg, o consultor jurídico do Conselho de Segurança Nacional, e seu colega advogado da Casa Branca, Mike Ellis, para testemunharem.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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