Festa popular após cerimônia de posse é símbolo da volta do peronismo na Argentina

Posse de Alberto Fernández e Cristina Kirchner terá shows de vários artistas

Buenos Aires

Com uma temperatura de 35 ºC por volta do meio-dia desta segunda-feira (9), trabalhadores terminavam de montar o imenso palco, diante da Casa Rosada, onde, depois da posse do presidente eleito da ArgentinaAlberto Fernández, terá início uma "festa popular".

Ali, o presidente falará brevemente, e Cristina Kirchner, que se manteve discreta durante a transição, reaparecerá em público.

A partir das 14h e sem hora para terminar, haverá apresentações de artistas locais, como Ivan Noble, trios de tango, como o do ator Rodrigo de la Serna, e bandas das quais Fernández (que adora música) é fã, como os Super Ratones.

A estrela será a cantora de tango Adriana Varela.

A Praça de Maio, onde fica a sede do governo, tem vivido momentos de transformação.

No domingo (8), Fernández pediu ao chefe de governo de Buenos Aires, Horácio Rodríguez Larreta, que derrubasse as placas de metal que impedem a aproximação das pessoas do monumento histórico —e elas caíram com o reforço de ativistas que cantavam a marcha peronista enquanto derrubavam a barreira.

Pôster de campanha de Alberto Fernández e Cristina Kirchner
Pôster de campanha de Alberto Fernández e Cristina Kirchner do lado de fora da Casa Rosada, em Buenos Aires - Ricardo Moraes - 9.dez.19/Reuters

Esses são apenas alguns símbolos que mostram que a Argentina volta a ser dirigida por um peronista.

O pêndulo ideológico do país deixa de estar na centro-direita para ir para a centro-esquerda. À sua frente, um presidente peronista moderado, Alberto Fernández, que se classifica como um "liberal de esquerda", acompanhado de uma vice mais vinculada ao peronismo populista, a ex-presidente Cristina Kirchner.

A cerimônia terá duas partes. Na primeira, haverá a entrega de bastão e faixa presidencial por parte de Mauricio Macri a Fernández, no Congresso Nacional.

Depois, a cerimônia continuará na Casa Rosada, com os cumprimentos das delegações estrangeiras.

Estarão presentes o atual presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, junto ao líder eleito do país, Luis Lacalle Pou, Miguel Díaz-Canel (Cuba), Mario Abdo (Paraguai) e, confirmado de última hora, o vice-presidente do Brasil, Hamilton Mourão

Depois, ocorre o juramento dos ministros, e logo começa a festa na praça. Fernández e Cristina devem desfilar em carro aberto, como é tradicional, após a posse.

Não são esperados anúncios detalhados das primeiras medidas do governo. Mas algumas já foram veiculadas por pessoas que integram o gabinete, anunciado na última sexta-feira (6).

Sabe-se que não haverá um congelamento de preços como medida para conter a inflação nem será interrompido o "cerco" cambiário imposto por Macri há poucas semanas —que impede a compra de mais de US$ 200 por mês por pessoa.

Fernández deve decretar "emergência econômica", um instrumento que lhe garante não criar impostos novos, mas mexer nos já existentes.

A nova equipe econômica, liderada pelo jovem Martín Guzmán, estuda como implementar novamente os controversos impostos à exportação de produtos agropecuários.

Quando Cristina fez isso, em 2008, ocasionou a chamada "guerra ao campo", que marcou uma divisão importante em seu governo.

Fernández também pretende declarar o Plano contra a Fome, para gerar fundos para atender os mais pobres e os aposentados que recebem o mínimo.

Mais adiante, já adiantou Fernández, será criado um bônus fixo para aposentados, corrigido apenas pela inflação, para garantir uma entrada regular aos mais necessitados.

Todas as atenções estão postas, também, na renegociação do Estado argentino com o FMI (Fundo Monetário Internacional), com quem a Argentina contraiu uma dívida de US$ 57 bilhões durante a gestão Macri.

O responsável por essa renegociação, esticando prazos e condições de pagamento, será Guzmán. 

Há áreas que mudarão completamente de prioridade. Uma delas é a de Segurança, antes dirigida por Patricia Bullrich, que se propôs a agir com mão dura contra o narcotráfico e a liberar policiais de atirarem em caso de necessidade sem terem que enfrentar julgamento por isso. 

Fernández colocou o posto a cargo de uma antropóloga, Sabina Fréderic, cuja prioridade será trabalhar em políticas de prevenção.

O presidente eleito foi bem claro: "Vai acabar essa política de que tudo bem atirar nas costas de quem quer que seja".

Haverá um superministério, o de Desenvolvimento Produtivo, a cargo de Matías Kulfas, até poucas semanas o preferido de Fernández para a Economia. Kulfas estará responsável por comandar a secretária do Comércio, a de Indústria, de Energia e Mineração.

Kulfas e Guzmán se reunirão com empresários e sindicatos ainda nesta semana para tentar estabelecer um "pacto social" para conter os aumentos de preços enquanto as novas políticas do governo não são apresentadas e colocadas em prática.

As relações internacionais ficarão com Felipe Solá, que não é diplomata de carreira nem conhece outros idiomas.

A ideia de Fernández para essa pasta é que se concentre nos negócios e em aumentar as oportunidades de comércio exterior da Argentina, um ponto central na economia para que, de alguma forma, entrem dólares no país.

Com um gabinete tão grande, de 20 ministros, Fernández confiará grandes poderes a quem considera ser seu “alter ego", o jovem Santiago Cafiero, 40. Seu avô foi ministro de Juan Domingo Perón e seu pai foi ministro de Desenvolvimento Social de Fernando de la Rúa. 

Alberto Fernández, 60, é advogado e professor de direito penal. Dá aulas na Universidade de Buenos Aires, onde nasceu, e vivia até hoje no bairro de Puerto Madero.

A partir da posse, ele se mudará para a Residência de Olivos com a namorada, Fabiola Yañez, 38, jornalista e atriz com quem mantém uma relação desde 2014.

Tem um filho, Estanislao, de um relacionamento anterior, mas que vive com a namorada e não se mudará para Olivos. Fernández toca violão e guitarra e é fã de rock. Costuma realizar saraus em sua casa com amigos e é torcedor do time Argentinos Juniors.

Começou na política ainda durante o governo de Raúl Alfonsín, mal tendo terminado a ditadura militar (1976-1983). Esteve nos governos de Carlos Menem e de Néstor e Cristina Kirchner.

Identificou-se mais com Néstor, a quem evoca com frequência. Dele, foi chefe de gabinete. Com Cristina, trabalhou apenas um ano, antes que ambos se afastassem por conta de críticas à sua gestão. 

Retomaram a amizade no começo de 2018, quando Cristina estava para lançar seu ensaio autobiográfico, "Sinceramente".

Foi então que ela o convidou a concorrer como presidente em sua chapa, uma vez que a rejeição a seu nome era alta e temia-se que ela como cabeça da coalizão pudesse perder a eleição para Macri.

A estratégia mostrou-se acertada. Já nas eleições primárias, Alberto e Cristina conquistaram uma diferença praticamente irrecuperável para o presidente que nesta terça-feira (10) deixa o posto.

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