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Governo Trump

Sem palestinos, Trump faz palanque com plano de paz Israel-Palestina

Da forma como está sendo colocada, ideia só parece boa para presidente e Netanyahu

São Paulo

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, irá anunciar nesta terça (28) o que chamou de o “acordo do século” para uma paz entre israelenses e palestinos.

O presidente Donald Trump e o premiê Binyamin Netanyahu concedem entrevista na Casa Branca
O presidente Donald Trump e o premiê Binyamin Netanyahu concedem entrevista na Casa Branca - Saul Loeb/AFP

Em preparação, convidou dois líderes para conversar sobre detalhes da proposta à Casa Branca nesta segunda. “Ambos querem o acordo, eles querem ver a paz”, disse Trump a bordo do avião presidencial na quinta (23).

Detalhe: nenhum deles é palestino. Foram chamados o premiê direitista Binyamin Netanyahu e seu rival na eleição do dia 2 de março, o centrista Benny Gantz.

Essa distorção de saída ecoa tratados do século 20 acerca do Oriente Médio, quando potências ocidentais sentavam à mesa para redesenhar o mapa da região de forma arbitrária.

Foi o que ocorreu num dos principais deles, o acordo anglo-francês de Sykes-Picot de 1916, que retalhou o Império Otomano já antes de sua derrota, ao fim da Primeira Guerra Mundial.

Os americanos podem argumentar que os palestinos não quiseram nem ouvir sua proposta, o que é fato, já que desde 2017 os contatos diplomáticos entre Ramallah e Washington estão cortados.

Naquele ano, a gestão Trump anunciou a mudança da embaixada americana de Tel Aviv para Jerusalém, reconhecendo implicitamente que a cidade é a capital de Israel.

Como os palestinos a disputam, e há recomendação das Nações Unidas para que países aguardem o fim do conflito para definir tal mudança, houve o rompimento com os americanos.

Milhões de dólares de ajuda cessaram, tanto para ANP (Autoridade Nacional Palestina) quanto para a agência da ONU que coordena ajuda humanitária aos árabes.

“Eles [os líderes palestinos] provavelmente não vão querer [o acordo] inicialmente. Mas acho que no fim eles vão. É muito bom para eles”, disse Trump ao encontrar Bibi, como Netanyahu é conhecido.

O premiê teve recepção com direito a fotos e entrevista com o presidente, enquanto seu rival foi recebido a portas fechadas.

Os termos do acordo não são conhecidos integralmente, mas vazamentos ao longo dos três últimos anos trouxeram alguns deles, além de aspectos econômicos divulgados numa esvaziada conferência no Bahrein, em 2019.

O que se falou até aqui: os israelenses teriam soberania total sobre áreas de assentamentos na Cisjordânia, haveria algum tipo de Estado palestino na área e um fundo de US$ 50 bilhões seria criado para atrair investimentos para os árabes.

Aparentemente a Faixa de Gaza, outro território palestino que é governado pelo grupo Hamas, classificado de terrorista pelos americanos, não é contemplado no acerto.

Já o Estado na Cisjordânia, que teria um período de até quatro anos para ser estabelecido, ocuparia algo como 70% do território nominal atual.

Também seriam tratadas questões espinhosas, como o status de Jerusalém e a questão do direito de retorno de refugiados palestinos expulsos nos diversos embates da região.

Após o fim do mandato britânico sobre a Palestina, a recém-criada ONU determinou a partilha em dois Estados, um judeu e outro árabe.

Israel se formou em 1948, sendo atacado por vizinhos descontentes com os termos do acerto. Desde então, foram três grandes guerras e inúmeros conflitos regionais.

“Não é nada além de um plano para acabar com a causa palestina”, disse a agências de notícias o premiê da ANP, Mohammad Shtayyeh. Anteriormente, o presidente palestino, Mahmoud Abbas, havia dito que os EUA já não eram mais parceiros confiáveis.

Os EUA foram os patrocinadores de acordos relevantes entre Israel e seus vizinhos árabes, a partir do pioneiro Camp David, que tratou da paz entre o Estado judeu e o Egito em 1979.

Foram fiadores dos acordos que regem a relação entre os dois grupos, os de Oslo (1993 e 1995) são quase letra morta. Eles preconizavam uma negociação dessas questões levando em conta a ideia de dois Estados e duas capitais em Jerusalém.

Desde 2014 não há conversa direta entre palestinos e israelenses. Divisões se dão dentro dos dois lados: entre grupos pró-paz e pró-segurança em Israel, entre a Autoridade Nacional Palestina e o Hamas, que controla a Faixa de Gaza.

“Se você diz ‘dois Estados’, isso significa uma coisa para os israelenses e outra para os palestinos. Então não falamos assim”, disse em maio de 2019 o arquiteto do plano, o assessor presidencial Jared Kushner, genro de Trump.

Houve críticas vindas de outras áreas do Oriente Médio, particularmente do Irã, que quase viu uma crise evoluir para uma guerra contra os EUA neste ano.

"Em vez de um ilusório 'acordo do século', os 'campeões da democracia' fariam melhor em aceitar a proposta democrática do Irã. Um referendo para todos os palestinos", postou no Twitter o chanceler iraniano, Mohammad Zarif.

Da forma como está colocado, o plano de paz de Trump parece mais uma peça de propaganda eleitoral para dois atores: o presidente e Bibi.

Ambos enfrentam eleições neste ano e problema internos, com o israelense indiciado criminalmente sob acusação de corrupção, e o americano, com o impeachment em julgamento no Senado.

Já Gantz, que até o começo do ano dizia que qualquer acordo só poderia ser trabalhado depois das eleições de março, ficou em uma situação delicada.

Ele não poderia rejeitar um convite de Trump, o presidente americano mais pró-Israel em décadas, sob risco de ver sua eventual gestão sofrendo retaliações.

 Ao fim do encontro com o americano, disse que quando Israel tiver um “governo estável”, será possível tentar implementar o plano.

Em casa, seu eleitorado de centro-esquerda gostaria de vê-lo rejeitar um eventual acordo nos termos que interessam a Bibi, mas isso arriscaria afastar elementos de centro e mesmo de centro-direita moderados que poderiam o apoiar.

Já Bibi só tem a ganhar. A direita mais radical já disse que não aceitará qualquer provisão de Estado palestino ou mudança no status de Jerusalém, apesar de aprovar a anexação de mais terra.

O premiê pode então dizer que aprova as ideias rejeitadas pelos seus aliados, sabendo de saída que Ramallah não vai topar o que for anunciado de qualquer forma. Logo, nada de Estado palestino.

Analistas políticos israelenses e pesquisas indicam, por outro lado, que nenhum dos lados deverá ter maioria clara —pela terceira eleição seguida em um ano.

Com isso, alguns especulam que o acordo poderia ser a base para uma coalizão entre Bibi e Gantz, embora isso soe algo improvável.

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