Descrição de chapéu Venezuela

Sob pressão, Guaidó tenta reeleger-se na Assembleia Nacional

Mesmo sem atingir principais objetivos, líder opositor da Venezuela diz que ano foi produtivo

Buenos Aires

O desafio a que se propôs o setor da oposição venezuelana liderado por Juan Guaidó há um ano terá de passar por uma difícil prova neste domingo (5). 

A Assembleia Nacional, órgão de maioria opositora e considerado “em desacato” pela ditadura de Nicolás Maduro, votará, seguindo seu estatuto, para eleger o novo presidente do órgão.

Juan Guaidó, um dos líderes da oposição venezuelana, participa de eleição para presidente da Assembleia Nacional
Juan Guaidó, um dos líderes da oposição venezuelana, participa de eleição para presidente da Assembleia Nacional do país - Manaure Quintero/Reuters


“Temos um acordo com quatro partidos de oposição e, por enquanto, temos o quórum e os votos para que eu seja reeleito. Mas também estou consciente de que a ditadura vai fazer de tudo para impedir isso, e já há operações em andamento para desestimular minha reeleição. Estamos atentos, vigilantes e confiantes”, diz  Guaidó à Folha, em entrevista por telefone.

Os partidos que firmaram o compromisso de reeleger o líder opositor são o Voluntad Popular, o Primero Justicia, o Acción Democrática e Un Nuevo Tiempo.

Ele afirma que quer seguir no cargo apesar de não ter atingido seus principais objetivos: interromper o que chama de “usurpação” (o fato de Maduro ter tomado posse depois de uma eleição considerada ilegítima) e chamar eleições livres para presidente. 

“Tivemos um ano muito produtivo, com a volta das pessoas às ruas, o reconhecimento de mais de 50 países de que eu, como líder da Assembleia, devo ser reconhecido como presidente interino da Venezuela, e uma projeção internacional de nossa crise humanitária”, diz ele. 

Mas, nas últimas semanas, a reeleição de Guaidó, que parecia certa, passou a ficar em dúvida . Como ele mesmo temia, a ditadura lançou artimanhas para desestruturar a oposição.  

Primeiro, com a Operação Alacrán, que oferece de US$ 30 mil a US$ 1 milhão a deputados para que retirem seu apoio a Guaidó, segundo relatos dos próprios parlamentares. Num cenário em que estes estão há mais de dois anos sem receber salário —desde que foram classificados como em desacato pelo regime—, isso pode ser um desafio à sua reeleição.

Já há casos de deputados que avisaram ter aceito o dinheiro e que não darão seu voto ao líder opositor, como Goyo Noriega e Kelly Perfecto. 

“Há vários parlamentares que vieram nos contar sobre essas ofertas. Muitos não aceitaram, outros sim, justificando que precisam do dinheiro ou porque estão desapontados com Guaidó. Estamos lutando para convencê-los a não nos abandonar”, diz a deputada Delsa Solorzano, responsável por articular a votação pró-Guaidó na Assembleia.

Além da compra de votos, há uma campanha intensa, por parte da ditadura, de difamação de Guaidó. Há um desgaste de sua imagem por conta de uma acusação de corrupção de parlamentares vinculados a ele, ainda não esclarecida totalmente.

Esse desgaste chegou também à opinião pública. Segundo o instituto de pesquisas Datanálisis, o mais confiável do país, 44% dos venezuelanos ainda o apoiam —no começo de 2018, essa marca era de mais de 60%.

A mesma sondagem afirma que só 35% consideram positivo o desempenho da Assembleia Nacional. Os entrevistados criticam o fato da Casa não ter conseguido colocar um fim ao regime, não ter resolvido a crise humanitária e ter encontrado dificuldade para funcionar.  

As leis votadas pelo órgão são, em sua maioria, barradas pelo Tribunal Superior de Justiça, órgão controlado pelo regime. Apenas duas passaram no último ano.

Adicione-se a isso a perseguição aberta do regime de Maduro a parlamentares, sem respeitar a imunidade a que têm direito.

Hoje, a Assembleia Nacional tem 27 deputados opositores no exílio, 29 respondendo a processos e dois presos, Juan Requesens e Gilber Caro. Na falta dos titulares, os suplentes também passaram a ser perseguidos.

A Assembleia Nacional tem 167 deputados, dos quais 112 são de oposição e 55 pertencentes ao chavismo. O quórum para que haja votação é de 84 legisladores presentes (titulares ou suplentes), Guaidó precisa do voto de mais da metade do total para ser reeleito.

Para tentar evitar uma possível falta de quórum, os legisladores aprovaram uma lei que permitiria que os deputados exilados votassem por Skype, mas isso acabou não passando pelo Tribunal Supremo de
Justiça, que vetou a mudança no estatuto. “Ainda assim, pela nossa contagem, temos os votos. Temos de nos proteger até domingo, para evitar sustos”, diz Guaidó.

Um desses sustos aconteceu antes do Natal, em 20 de dezembro, quando o recém-libertado Caro foi novamente sequestrado pela FAES (Fuerza de Acciones Especiales). Seu paradeiro ainda é desconhecido.

“Estamos nos cuidando uns aos outros e seguimos acreditando, não temos outra alternativa”, diz Delsa Solorzano.

Este é o último ano de gestão desta Assembleia —em dezembro, estão previstas novas eleições legislativas. A oposição teme novas fraudes no pleito, o que poderia fazer a Casa ser totalmente dominada pelo chavismo.

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