Descrição de chapéu The New York Times

Campanha multimilionária de Bloomberg mobiliza até funcionários de seu império

Bilionário que tenta conquistar a Presidência dos EUA paga salários acima da média

Miami | The New York Times

Em um armazém coberto de murais no Distrito do Design em Miami, garçons serviam em bandejas vinho e sanduíches cubanos, rolinhos primavera e salsichas kosher empanadas. Eles vestiam preto, a não ser pelas camisetas vermelhas, brancas e azuis com os dizeres "Eu gosto de Mike Bloomberg".

Antes que o candidato subisse ao palco —diante de uma pintura gigante que dizia "Mike 2020", produzida por uma artista local em 36 horas por milhares de dólares—, um ex-prefeito de Miami Beach, Philip Levine, o apresentou.

Broches de Michael Bloomberg, no QG da campanha, em Nova York - Johannes Eisele/AFP

"Nós dois começamos do nada, e ganhamos uma boa grana", disse Levine, comparando-se com orgulho a Michael Bloomberg, o ex-prefeito de Nova York que anunciou sua candidatura a presidente na eleição de novembro. "Mas ele tem mais zeros que eu no fim do nome."

Bloomberg, o multibilionário por trás da Bloomberg L.P., despejou centenas de milhões de dólares na disputa, pagando para tornar sua voz onipresente na televisão e no rádio.

Ele mobilizou sua corporação a serviço da campanha, remanejando funcionários de vários ramos de seu império e recrutando novos com poderosos incentivos financeiros, incluindo benefícios completos e salários muito acima dos padrões nacionais de campanhas eleitorais.

O pagamento inicial para cabo eleitoral de Bloomberg, por exemplo, é de US$ 72 mil anuais (R$ 313 mil) —quase o dobro do que outras campanhas oferecem.

Em menos de 12 semanas, a operação de Bloomberg cresceu para uma equipe de milhares de pessoas, com mais de 125 escritórios em todo o país e uma série de eventos elegantes, com decorações, bebidas e canapês.

Esses gastos ajudaram a tornar Bloomberg um candidato cada vez mais forte na primária presidencial democrata.

Enquanto o senador Bernie Sanders, o líder progressista, surgiu como primeiro colocado em uma corrida muito apertada, o ex- vice-presidente Joe Biden vacilou e vários outros candidatos dividiram o voto moderado que Bloomberg espera capturar nas disputas da Super Terça, em 3 de março.

Só no primeiro trimestre da campanha, Bloomberg, que não está aceitando doações políticas, gastou US$ 188 milhões —mais que muitos candidatos combinados na disputa. Desses, 70% foram para publicidade.

Milhões foram gastos em aluguéis, incluindo para a sede da campanha em Times Square, além de apartamentos mobiliados no East Side de Manhattan, onde alguns funcionários estão morando.

O candidato Michael Bloomberg, durante comício em Nashville, Tennessee - Brett Carlsen - 12.fev.2020/Getty Images/AFP

Outros milhões foram pagos por uma robusta rede de consultores, advogados e pessoal de campanha —alguns dos quais são novos no trabalho de cabo eleitoral e o acham estranhamente lucrativo.

Para David Enriquez, 23, recém-formado na Universidade da Flórida e que atua como cabo eleitoral de Bloomberg em Tampa, o pagamento foi uma surpresa.

"Eu esperava US$ 30 mil (R$ 130 mil) por ano, basicamente até março, seja o que isso for", disse ele, referindo-se a um salário que seria de US$ 2.500 (R$ 10.800) por mês.

Está ganhando mais que o dobro —US$ 6.000 mensais (R$ 26,1 mil)— e espera que o emprego continue até novembro, já que Bloomberg prometeu apoiar a iniciativa democrata de derrubar o presidente Donald Trump independentemente de seu nome estar na cédula de votação.

"Eu ia fazer o pagamento mínimo no meu cartão de crédito por um longo período, mas quando descobri qual era meu salário fiquei espantado", disse Enriquez.

O pagamento da campanha aos cabos eleitorais, equivalente a US$ 72 mil anuais, está bem acima dos US$ 42 mil oferecidos por outras campanhas.

Os membros da equipe de Bloomberg também ganharam artigos eletrônicos da campanha, como laptops Apple e iPhones de última geração, que segundo uma porta-voz foram distribuídos tendo em vista a segurança cibernética.

"Eu ganhei US$ 15 por dia trabalhando para Ted Kennedy em 1980", disse Joe Trippi, um antigo estrategista democrata, referindo-se a um salário que, ajustado pela inflação, representaria apenas US$ 1.500 (R$ 6.500) por mês hoje.

Trippi considerou plausível o pagamento substancial que Bloomberg está fazendo a membros de campanha em Estados chaves que votam antecipadamente, como Iowa ou New Hampshire, mas altamente incomum como padrão para funcionários em todas as regiões —e ainda mais com a perspectiva de segurança no emprego até o outono. "Isso nunca aconteceu", disse ele.

Refletindo prêmios semelhantes, os diretores de comunicação estaduais e diretores de política estadual de Bloomberg recebem todos US$ 12 mil (R$ 52 mil) por mês, segundo a campanha, enquanto os secretários de imprensa ganham US$ 10 mil (R$ 43 mil) mensais, e o diretor de política nacional recebe US$ 30 mil (R$ 130 mil) por mês, ou US$ 360 mil anuais.

"Todo mundo sabe que a campanha eleitoral é um trabalho duro, durante muitas horas e com pagamento ruim", disse Stu Loeser, porta-voz da campanha de Bloomberg.

"Não podemos mudar os dois primeiros, mas podemos fazer algo sobre o terceiro."

Quartel-general da campanha de Bloomberg, em Nova York - Spencer Platt/Getty Images/AFP

Para os empregados que trabalham no quartel-general em Nova York, a campanha também oferece três refeições diárias e lanches ilimitados em um café central que funciona como polo do escritório.

Só no final de dezembro, segundo o primeiro registro de documentos na Comissão Eleitoral Federal, ele pagou mais de US$ 16 mil (R$ 70 mil) a um restaurante japonês em Manhattan, assim como cerca de US$ 200 mil (R$ 870 mil) à empresa de catering FLIK Hospitality.

James Thurber, professor de governança que fundou o Instituto de Administração de Campanhas na Universidade Americana, disse que o dinheiro não é uma motivação importante no trabalho de campanha, mas considerou alguns dos gastos de Bloomberg necessários.

"Como ele entrou muito tarde, teve de pagar salários acima do mercado para conseguir gente boa em todos os níveis", disse Thurber.

"Você não pode vencer uma campanha numa guerra aérea", disse ele, referindo-se a uma blitz de publicidade. "É preciso ter uma guerra em solo. Ele sabe disso, portanto está comprando a guerra em solo."

Em campo, uma aura de abundância se estendeu aos eventos da campanha de Bloomberg, onde uma profusão de camisetas e broches estão expostos para quem quiser pegar.

Ofertas em comícios recentes: "I Like Mike"; "Women for Mike"; "Ganamos con Mike"; "United for Mike", com uma estrela judaica; "Mishpucha for Mike"; assim como outros sob medida conforme os Estados —"Florida for Mike", simples ou decorada com palmeiras.

Para um comício em Nova York em janeiro, Bloomberg alugou o mesmo salão de baile num hotel em Times Square onde ele comemorou uma de suas vitórias para prefeito, com um DJ tocando, vinho, cerveja e bolinhos de queijo à vontade para todos.

A balada também atraiu alguns que não pretendem votar no bilionário. "Não me entendam mal, eu gosto de Mike Bloomberg", disse Ramon Vivas, que participou do comício de Bloomberg em Miami em janeiro e usava uma das camisetas grátis com aquela mensagem, juntamente com dois broches do candidato.

"Mas não acho que ele vá conseguir a nomeação, e apoio Bernie."

Mas Vivas disse achar que o Partido Democrata tinha "se movido demais à esquerda" e chamou Bloomberg de uma boa influência na corrida, acrescentando que em outros comícios a que foi "geralmente você tem de pagar pelas camisetas".

A pintura em grande escala produzida por Cindy Franco, artista de Miami —uma paisagem urbana colorida decorada com o nome do candidato e "Miami vai resolver isso", uma variação do slogan da campanha—, foi o cenário central durante mais de uma hora.

"Eu só tive um dia e meio para fazê-la", disse Franco, que trabalhou sem parar no armazém em Miami com seguranças pagos pela campanha.

"Eles sempre perguntavam se eu precisava de alguma coisa", disse ela, sem querer revelar exatamente quanto ganhou. Mas acrescentou: "Foi muito. Eles foram muito bons comigo".

(A campanha não citou o valor, que deverá informar em seu próximo relatório à comissão eleitoral.)

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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