Diário de confinamento em Barcelona: 'Único tratamento agora é a disciplina'

Segundo diferentes parâmetros, poderíamos ter entre 150 mil e 900 mil pessoas com Covid-19 na Espanha

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #14 – Barcelona – Sexta, 27 de março. Cena: Trabalhando em uma musiquinha que começa com “Blue hills / Pale blues / Ghost hues –and a black lamb”.

Hoje fiquei babando em frente à página em branco. Sem saber o que escrever. Coronacansada.

Estamos chegando às duas semanas de confinamento domiciliar em toda a Espanha, e também, dizem, ao auge dos contágios (embora os cálculos sobre os Dias D sejam refeitos todos os dias).

Que a gente está brincando com números falsos, todo mundo já sabe. Os mortos não mentem; os índices de contágio, já não sabemos.

Espanhóis aplaudem profissionais da saúde em Madri
Espanhóis aplaudem profissionais da saúde em Madri - Sergio Perez/Reuters

Segundo diferentes parâmetros de cálculo, poderíamos em realidade ter qualquer coisa entre 150 mil e 900 mil pessoas atingidas pela Covid-19 apenas na Espanha. Nesta sexta (27), oficialmente se contabilizaram 64.059.

O que transforma nosso esforço em abranger com a mente Toda Essa Situação mais ou menos em uma fábula da formiguinha gritando PAAAREEEEEM a uma manada de elefantes.

Ou, atravessando um oceano de possibilidades em um zit-segundo, nos equipara ao velhinho alemão com Alzheimer em Vigo, na Galícia, que pensa que os aplausos diários já clássicos das 20h, em homenagem aos profissionais de saúde, são pra ele e sua gaita, que ele passa o dia ensaiando pro momento mágico do show. "Tá vendo? Você ficou nervoso, eu entendo. Muito público. Quantos aplausos, Hermann", diz a cuidadora, que grava os vídeos divulgados na internerd.

As mortes por coronavírus, dizem, não refletem ainda as medidas de confinamento (o ciclo do vírus pode ser de três a quatro semanas, e o confinamento começou há duas), mas os contágios, sim. De 40% de aumento diário na primeira quinzena de março, antes do decreto do estado de emergência, passaram a um incremento de cerca de 20% por dia na última semana.

A previsão é de que a saturação máxima dos serviços de saúde com doentes críticos se dê a princípios de abril. Os respiradores encomendados pelo governo espanhol estão previstos pra chegar entre abril e junho. Oh-oh.

Meditação matinal no terraço, meu observatório. Maritacas gordinhas entortam os galhos da árvore. Onde estarão comendo, se ninguém está pedindo patatas bravas e bocatas (sanduíches) em terraços de bares? Uma ambulância passa diante de casa com um cartaz improvisado colado na lateral onde se lê "tudo irá bem" em catalão, as letrinhas cursivas coloridas lembrando um pôster de jardim da infância com pintura a dedo, de ar cândido-phophinho.

O Ministério da Saúde encomendou um censo nacional para saber quantos respiradores estão dando sopa na iniciativa privada. Até centros de estética e veterinária foram convocados. A boa vontade está em toda parte, mas a logística é o que mais importa: levar o equipamento às regiões mais necessitadas.

Em Igualada, município da Catalunha e um dos primeiros grandes focos da doença, por exemplo, o prefeito reclama que o governo ainda não forneceu os tais testes rápidos que tanto têm aparecido em cores neon na mídia e em discursos oficiais.

Voltando aos números, a comunidade de Madri acaba de ir contra a recomendação da Organização Mundial da Saúde ao decidir que não vai fazer testes em pacientes com quadros leves.

Um dos motivos possíveis é que os laboratórios que processam os testes estão saturados. Outro é o atraso na entrega dos tais testes rápidos (o primeiro lote que chegou nesta semana era #fail total, não-certificado e com baixo índice de eficácia). Críticos apontam que, claro, essa mudança no método de cálculo de contágios pode criar uma falsa redução nas cifras. Dã.

"O único tratamento que temos agora é a disciplina do conjunto de cidadãos", contemporiza María Jesús Montero, porta-voz do governo e ministra da Fazenda, em entrevista coletiva nesta sexta. Fico imaginando essa frase na traseira de uma ambulância com pintura a dedo, crayon e borboletas.

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.


Leia a parte 1 do diário de confinamento em Barcelona: 'Não estamos de férias, mas em estado de alarme'

Leia a parte 2 do diário de confinamento em Barcelona: 'Teste, só para pacientes internados'

Leia a parte 3 do diário de confinamento em Barcelona: 'A vida vista de cima'

​Leia a parte 4 do diário de confinamento em Barcelona: 'Panelaço contra o rei'

​Leia a parte 5 do diário de confinamento em Barcelona: 'O perigo mora em casa'

Leia a parte 6 do diário de confinamento em Barcelona: 'Solidariedade em tempos de vírus'

Leia a parte 7 do diário de confinamento em Barcelona: 'O lado utópico da crise'

Leia a parte 8 do diário de confinamento em Barcelona: 'O canto dos pássaros urbanos'

Leia a parte 9 do diário de confinamento em Barcelona: 'Os de baixo ficam sem banquete'

Leia a parte 10 do diário de confinamento em Barcelona: 'Essa desproteção vai cobrar fatura'

Leia a parte 11 do diário de confinamento em Barcelona: 'Se não estamos no pico, estamos muito próximos'

Leia a parte 12 do diário de confinamento em Barcelona: 'Tensão cresce em diferentes setores'

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.