Itália considera liberar da quarentena quem já adquiriu anticorpos contra o vírus

Ainda sem validação científica, ideia é vista por políticos como forma de recuperar a economia

Jason Horowitz
Roma | The New York Times

Há uma crescente sensação na Itália de que talvez o pior tenha passado. As semanas de quarentena no país, o centro do mais mortal surto de coronavírus do mundo, podem começar a valer a pena, já que as autoridades anunciaram na semana passada que o número de novas infecções atingiu o nível mais alto e se estabilizou.

Esse lampejo de esperança levou a discussão para o assustador desafio de quando e como reiniciar as atividades sociais sem desencadear outra onda de contágio cataclísmica.

Para tanto, as autoridades italianas de saúde e alguns políticos se concentraram em uma ideia que poderia ter sido relegada ao reino dos romances distópicos e filmes de ficção científica.

Ter os anticorpos certos contra o vírus no sangue —um potencial marcador de imunidade— poderá determinar em breve quem pode trabalhar e quem não pode, quem continua isolado e quem pode sair de casa.

Esse debate está, de certa forma, à frente da ciência. Os pesquisadores estão indecisos, embora esperançosos, de que os anticorpos de fato indiquem imunidade.

Mas isso não impediu os políticos de abraçar a ideia, pois sofrem crescente pressão para abrir a economia e evitar uma depressão econômica generalizada.

O presidente conservador da região do Vêneto (chefe do governo local), no nordeste do país, propôs uma "licença" especial para os italianos portadores de anticorpos que mostram que eles tiveram e venceram o vírus. O ex-primeiro-ministro Matteo Renzi, liberal, falou sobre um "Covid Pass" para os não infectados.

O primeiro-ministro Giuseppe Conte disse que o bloqueio continua em vigor, mas o governo começou a trabalhar com cientistas para determinar como conduzir as pessoas recuperadas de volta ao trabalho.

Com ecos do livro "Admirável Mundo Novo", o debate sobre como reativar a economia chegou para valer na semana passada à Itália. Assim como o número esmagador de mortos pelo vírus —cerca de 14.681 na noite de sexta-feira (3)—, a mudança está à frente de países como Espanha, Grã-Bretanha e Estados Unidos, onde o contágio ainda é crescente.

A Itália foi o primeiro país europeu a anunciar um bloqueio nacional, que começou em 9 de março. Mas a taxa de novas infecções diminuiu na semana passada —na sexta houve cerca de 4.500 novos casos, menos que nas últimas semanas—, levando autoridades e socorristas igualmente a falar com certo otimismo.

"Estamos começando a ver a luz no fim do túnel", disse Fabio Arrighini, supervisor de um serviço de ambulâncias na cidade de Brescia, na Lombardia, que tem uma das maiores taxas de mortalidade na Itália. "As ligações diminuíram."

Mas o debate sobre uma força de trabalho baseada em anticorpos voltou a colocar a Itália na infeliz vanguarda das democracias ocidentais que lutam contra o vírus, suas escolhas éticas desconfortáveis e consequências inevitáveis.

Tais questões já foram levantadas pelas difíceis decisões dos médicos de tratar os jovens, com maior chance de vida, antes dos idosos doentes.

Em algum momento, porém, quase todos os governos terão que encontrar um equilíbrio entre garantir a segurança pública e colocar seus países em funcionamento novamente.

Eles também poderão ter de avaliar o que é melhor para a sociedade diante dos direitos individuais, usando critérios biológicos de maneiras que quase certamente seriam recusadas se não fosse a emergência atual.

"Parece que isso divide a humanidade em dois, os fortes e os fracos", disse Michela Marzano, professora de filosofia moral na Universidade de Paris-Descartes. "Mas este é realmente o caso."

De uma perspectiva ética, argumenta ela, a questão de usar os anticorpos como base para o livre movimento reconcilia uma visão utilitária do que é melhor para a sociedade com o respeito à humanidade individual, ao proteger "os mais frágeis, e não os marginalizando". "Não é discriminatório", disse ela. "É protetor."

Cientistas da Itália, assim como seus colegas na Alemanha, nos Estados Unidos, na China e em outros países, já estudam se os anticorpos são uma fonte potencial de proteção ou imunidade contra o vírus.

A China reabriu lentamente sua economia, esforçando-se para impedir que outra onda de infecção chegasse do exterior. Em Nova York, o governador Andrew Cuomo planejou uma estratégia na qual pessoas mais jovens e pessoas com anticorpos que demonstram estar curadas do vírus possam voltar ao trabalho.

O governo britânico adotou a ideia de "passaportes de imunidade", embora ainda esteja lutando para concluir testes com bastonetes para obter um instantâneo preciso dos atuais níveis de infecção, e o vírus não está presente na população britânica há tempo suficiente para fornecer dados de anticorpos.

A Itália, devido à exposição inicial e generalizada ao vírus, tem a oportunidade de obter informações sobre como ele funciona e as propriedades biológicas contra o coronavírus.

A região do Vêneto pretende começar a coletar 100 mil amostras de sangue de pessoas de toda a região —primeiro de milhares de profissionais de saúde e depois de funcionários públicos— para estudar em laboratório os anticorpos das pessoas que têm o vírus e os das que se recuperaram.

Em nenhum lugar da Itália a busca da estratégia de anticorpos é mais intensa que no Vêneto. Com sua riqueza de recursos, consultores de alto nível e a presença da biotecnologia, agora ele pode estar posicionado de maneira única para influenciar a discussão global e fornecer informações ao resto do mundo.

A região é adjacente à região atingida da Lombardia, e uma de suas cidades, Vo', teve a primeira morte pelo vírus na Itália e foi uma das primeiras a entrar em quarentena.

Vo' também possui um pool genético relativamente homogêneo, o que pode facilitar a pesquisa, e foi amplamente testada. Após o surto, as autoridades locais deram o passo extraordinário de testar toda a população de 3.000 pessoas, incluindo as sem sintomas.

Isso ajudou a eliminar um surto, e agora as autoridades planejam realizar testes de anticorpos e sequenciamento de genoma em toda a população para detectar padrões de quem era e não era suscetível ao vírus.

Esses resultados, esperados para daqui a três ou quatro meses, talvez possam esclarecer por que alguns permaneceram assintomáticos enquanto outros adoeceram, se aqueles que não foram infectados já tinham anticorpos e se as crianças tinham algo que as ajudou a evitar a doença.

"A Itália tem atualmente, é claro, um dos maiores grupos de pessoas infectadas que se recuperaram da infecção", disse Andrea Crisanti, principal consultor científico sobre o vírus no Vêneto e professor de microbiologia na Universidade de Pádua. Ele acrescentou que é "um conjunto único e valioso de informações e dados".

Crisanti enfatizou a necessidade de uma estratégia cuidadosamente planejada para desbloquear a Itália, que usaria rastreamento de contatos, equipamento de proteção e testes agressivos de anticorpos pós-vírus.

"O planejamento antecipado é uma das coisas mais importantes", disse Crisanti. "Porque bloquear é fácil." Sem uma estratégia adequada para o caminho a seguir, "o resultado mais provável é que a epidemia recomece".

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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