Descrição de chapéu Coronavírus

Sem quarentena, Suécia ainda aguarda julgamento da história

País transferiu a habitantes responsabilidade de evitar contágio; sem ordem legal, movimento caiu, e economia não escapará da crise

Bruxelas

"Vamos falar da Suécia? Pronto! A Suécia não fechou!", disse o presidente Jair Bolsonaro na última quarta (14) para justificar sua campanha contra as restrições impostas por governadores no combate ao coronavírus.

Vamos falar da Suécia, então.

A Suécia fechou museus, eventos esportivos, universidades e colégios (aulas prosseguiram online), visitas a casas de repouso e proibiu reuniões de mais de 50 pessoas.

Em Estocolmo, restaurantes e bares precisam garantir distanciamento físico e alguns já tiveram que baixar as portas porque descumpriram regras.

Impôs limites mais duros só em Estocolmo porque o coronavírus se transmite principalmente pelo encontro entre pessoas, e a capital tem a maior população do país: menos de 1 milhão de habitantes, o equivalente a São Bernardo do Campo, na grande São Paulo.

Em toda a nação escandinava, há menos moradores do que na capital paulista: são 10 milhões. Mas muito mais espalhados. Numa área equivalente a cem quarteirões, há 22 pessoas, segundo os dados de densidade populacional de 2018 (a cidade de São Paulo tem 336 vezes isso: 7.398/km², segundo o IBGE, com base no cense de 2010).

A estratégia federal não foi a de dizer “vida normal” nem a de subestimar mortes em excesso.

Adesivo em rua em Estocolmo alerta população para importância de manter distanciamento social
Adesivo em rua em Estocolmo alerta população para importância de manter distanciamento social - Henrik Montgomery - 12.mai.20/AFP

“Como em outros países, nosso objetivo é achatar a curva, diminuindo a propagação o máximo possível —caso contrário, o sistema de saúde e a sociedade correm o risco de entrar em colapso”, afirmou o coordenador do combate ao coronavírus no país, o epidemiologista Anders Tegnell.

As recomendações do Ministério da Saúde foram claras: mantenha distanciamento físico; fique em casa se tiver sintomas ou se for do grupo de risco. Caso contrário, vá trabalhar.

Fronteiras, bares, restaurantes, transporte público, parques, cabeleireiros, academias, escolas infantis e primárias e até alguns cinemas, além de lojas e empresas, continuaram abertas, mas isso não quer dizer que a atividade seguiu como sempre.

“As leis suecas afirmam claramente que o cidadão tem a responsabilidade de não espalhar uma doença. Este é o núcleo de onde partimos”, disse Anders Tegnell à revista Nature. E a população parece ter assumido sua parte.

O físico nuclear brasileiro Marcos Moro, 31, que mora na Suécia desde 2017 (e, nesta pandemia, ficou separado de sua mulher na reta final de gravidez), conta que mais da metade dos cerca de mil pesquisadores de seu departamento passaram a trabalhar em casa.

Moço de cabelo escuro preto, óculos e camisa azul abraça moça grávida de vestido rosa, com lago ao fundo
O físico nuclear brasileiro Marcos Moro, 31, e sua mulher, a arquiteta equatoriana Alejndra Sandoval, 35, no nono mês de gravidez, no lago Badesee Streitköpfle, perto de Graben-Neudorf (Alemanha), onde ela mora - Arquivo pessoal - 16.mai.2020

Na média do país, um terço dos suecos disse estar em trabalho remoto, e a demanda de restaurantes caiu 70% em abril. Estatísticas mostraram queda no uso de transporte público e de cartões de crédito, embora menor que em outros países sob bloqueio.

O PIB caiu 0,3% no primeiro trimestre deste ano, segundo dados divulgados pelo Banco Central da Suécia na semana passada. Como em todo lugar, houve contração, embora menor que a de outros países onde o confinamento foi severo.

A Alemanha divulgou queda de 2,2% no trimestre, e França, Itália e Espanha (em ordem decrescente de tamanho do PIB), contrações de 5,8%, 4,7% e 5,2%, respectivamente, sobre o último trimestre de 2019.

Na zona do euro (19 países que usam a moeda comum), a queda foi de 3,8%.

Mas Tegnell também já deixou claro que o caminho seguido pela Suécia tem como foco o longo prazo, e as previsões de mais longo prazo mostram que ela também não vai escapar da crise.

No começo do mês, a União Europeia estimou que a economia sueca deve encolher 6,1% neste ano, contra 5,9% na Dinamarca e 6,3% na Finlândia.

A previsão para o desemprego sueco é de 9,7% neste ano, contra 6,4% na Dinamarca e 8,3% na Finlândia.

O Banco Central da Suécia projeta queda de 7% a 10% do PIB neste ano, com o desemprego chegando a de 9% a 10,4%.

Tão ou mais sombrio que o de outros países do continente, o horizonte sueco se deve ao fato de que sua economia é relativamente pequena (cerca de US$ 556 bilhões de PIB em 2018, o 11º do continente) e muito aberta ao comércio exterior.

Em 2017, a soma de exportações e importações correspondia a 86% do PIB, o que dava ao país o 76º lugar entre 173 países em ranking global de abertura comercial.

A indústria, que representa 13% do PIB, depende da importação de peças e da exportação de produtos a países afetados pela pandemia. A montadora Volvo, por exemplo, parou sua produção por falta de componentes importados.

Marcos Moro dá outros exemplos cotidianos dessa interdependência internacional: "Um amigo dono de uma plantação de frutas vermelhas já disse que vai perder muita fruta. Este é o momento da colheita, mas os trabalhadores que vinham da Ásia ou da Europa oriental não estão podendo sair de seus países”, conta ele.

Outro amigo comprou um apartamento na planta, mas já foi avisado de que a entrega vai atrasar, “não porque não possam trabalhar, mas porque os caminhões com material de construção não estão passando na Dinamarca”.

De frente para uma crise global e inevitável, o governo sueco tentou evitar não a dificuldade de impor um confinamento, mas a de sair dele.

Em seminário online em abril, Sara Hagemann, professora de políticas públicas da London School of Economics, citou a experiência recente da Dinamarca como um exemplo dessa complexidade.

O país adotou um confinamento severo e reduziu a taxa de contágio de 1, no começo da pandemia, para 0,6 em meados de abril. Mas ela voltou a 0,9 após a abertura das escolas.

No mesmo período, a Suécia partiu de uma taxa de contágio bem mais alta, perto de 3, e passou a 1,4 em abril e 0,85 no começo de maio, segundo o Instituto de Saúde Pública.

Isso explica por que o diretor-executivo da OMS, Michael Ryan, defendeu no final do mês passado a estratégia sueca. Segundo ele o país adotara uma política de saúde pública “muito forte” e protegera os hospitais.

Com uma das menores taxas de leitos hospitalares e de UTIs por habitantes na Europa, em nenhum momento até agora a Suécia chegou a um nível preocupante de ocupação desses recursos.

Na semana passada, havia 350 pacientes em terapia intensiva e 250 leitos disponíveis, segundo o Ministério de Saúde e Assuntos Sociais.

Um sistema de governança digital que centraliza todos os dados —prontuários médicos, declaração de renda, contratos de trabalho, movimentações do correio, transferências bancárias passam todos pelo mesmo aplicativo—, a Suécia consegue acompanhar em tempo real suas estatísticas, o que permite reagir rapidamente com um foco bem localizado.

Em todo o país, o número de mortes de meados de março ao começo de maio é 27% maior que o normal nesta época, índice semelhante ao da Suíça, embora o quíntuplo do da Dinamarca.

Dos 6 itens apontados pela OMS como importantes para retomar a atividade, a Suécia se saiu bem em 5 (e é considerada exemplo na adesão da população e na comunicação com ela), mas falhou em um: a proteção de instituições vulneráveis, como os asilos.

Em Estocolmo, 75% das 101 casas de idosos foram atingidas, e eram maiores de 70 anos 90% dos dos 3.679 mortos até domingo (17). “Estamos investigando para entender quais recomendações não foram seguidas e por quê”, disse à Nature no final de abril o epidemiologista Anders Tegnell.

Neste domingo (17), a taxa de mortalidade da Suécia era de 36,5 por 100 mil habitantes. É menos da metade dos 78,1 da Bélgica, que tem população de tamanho equivalente, mas o quádruplo dos 9,7 da vizinha Dinamarca.

Homem sentado em mesa de lanchonete, com cadeiras colocadas sobre outros locais nos bancos para evitar que pessoas se sentem
Bancos garantem distanciamento físico em lanchonete de shopping center de Estocolmo - Henrik Montgomery - 12.mai.2020/ TT News Agency / via AFP

Mas, por mais que se procurem comparações um pouco mais equivalentes, uma política não serve para todos os países ou regiões, diz Sara Hagemann, da LSE. “Há diferenças de estrutura socioeconômica, qualidade e disponibilidade de atendimento de saúde, dados demográficos e evolução da pandemia.”

Para pegar apenas mais um item que mostra a distância entre países, a Suécia tem o oitavo maior índice de desenvolvimento humano do mundo: 0,937, numa escala de 0 a 1 (dados de 2018). O Brasil é o 79º, com 0,761.

Nos próximos meses, a maioria dos países no mundo deve caminhar para o tal “novo normal”, em que as atividades vão sendo retomadas sob monitoramento cuidadoso, com a mão no freio de segurança se houver qualquer sinal de perigo nos hospitais.

“O tempo dirá se a Suécia escolheu uma estratégia melhor do que outros países, porque os custos dos bloqueios —em termos não apenas de danos econômicos, mas também de danos à saúde mental— ainda estão para ser registrados”, disse Jussi Sane, do Instituto Finlandês de Saúde, nesta semana à revista The Economist.

Mas, como o mundo todo está sofrendo com mortes e insegurança econômica, faz mais sentido que cada sociedade procure a forma mais adequada de limitar seus danos e deixe de lado o flá-flu entre o modelo sueco (menos rígido) ou o dinamarquês (bloqueio rápido e rigoroso), afirmou em seminário online Ole Petter Ottersen, presidente do Karolinska (principal instituto médico da Suécia).

“Considerando a falta de dados, os políticos devem ser mais humildes e reconhecer a incerteza da escolha de cada política”, disse o especialista.

Erramos: o texto foi alterado

O nome do epidemiologista responsável pelo combate ao coronavírus na Suécia é Anders Tegnell, e não Aders Tegnell, como publicado. 

A densidade populacional da cidade de São Paulo é de 7.398,26 habitantes por km², segundo o IBGE (dados do censo de 2010). A densidade de 177/km², mencionada em versão anterior desta reportagem, refere-se ao estado de São Paulo. O texto foi corrigido.

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