Postura de Trump diante da pandemia afasta líderes republicanos e expõe divergências internas

Governadores aliados, antes hesitantes, agora contrariam exigências do presidente

The New York Times

O fracasso do presidente Donald Trump em conter a epidemia de coronavírus e sua recusa em promover diretrizes claras de saúde pública levaram muitos republicanos a perder a esperança de que ele vá em algum momento exercer um papel construtivo no combate à crise.

Alguns estão concluindo que precisam contornar Trump e ignorar ou mesmo contradizer seus pronunciamentos.

Nos últimos dias, algumas das figuras mais destacadas do Partido Republicano fora da Casa Branca romperam com Trump em relação à importância do uso de máscara em público e a seguir as recomendações de especialistas em saúde como o dr. Anthony Fauci, a quem o presidente e outras figuras de extrema direita dentro da administração vêm fazendo críticas pessoais amargas.

Esses republicanos parecem estar sendo movidos por várias forças que se somam, incluindo a deterioração das condições em seus próprios estados, à aparente indiferença de Trump ao problema e a aproximação de uma eleição presidencial em que Trump está perdendo seriamente nas pesquisas de opinião para seu adversário democrata, Joe Biden.

O presidente dos EUA, Donald Trump, ao lado do vice-presidente, Mike Pence, durante reunião na Casa Branca - Kevin Lamarque - 7.jul.20/Reuters

Governadores republicanos antes hesitantes agora estão emitindo ordens impondo o uso de máscaras e medidas restritivas a empresas, contrariando as exigências de Trump.

Alguns desses governadores vêm se falando ao telefone para trocar ideias e queixas. Eles têm procurado outros interlocutores na Presidência que não sejam o presidente, entre eles o vice-presidente, Mike Pence, que, apesar de ecoar as posições de Trump publicamente, é visto pelos governadores como muito mais atento para o desastre contínuo.

“O presidente se entediou” com a pandemia, disse David Carney, assessor do governador do Texas, o republicano Greg Abbott. Carney destacou que Abbott direciona seus pedidos a Pence, com quem conversa duas ou três vezes por semana.

Alguns parlamentares republicanos no Senado vêm pressionando reservadamente a administração para reinstaurar as entrevistas coletivas diárias lideradas por figuras como Fauci e a dra. Deborah Birx, que durante a primavera americana mantiveram o público regularmente atualizado com as informações mais recentes sobre a pandemia, até Trump roubar o pódio deles com seus próprios monólogos na sala de imprensa.

Falando na semana passada em seu estado, o Kentucky, Mitch McConnell, líder da maioria republicana no Senado, rompeu com Trump em relação a quase todos os pontos importantes ligados ao vírus.

McConnell enfatizou a importância do uso da máscara, expressou confiança “total” em Fauci e exortou os americanos a seguir as diretrizes do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), que Trump vem ignorando ou descartando.

“A verdade nua e crua que todos precisam entender é: isto não vai desaparecer até termos uma vacina”, disse McConnell na quarta-feira (15), contradizendo as previsões otimistas de Trump.

O resultado é uma ruptura pouco comentada, mas crescente entre Trump e lideranças de seu partido, enquanto o vírus devasta importantes campos de batalha políticos no Sul e Oeste do país, como os estados do Arizona, Texas e Geórgia.

Em meio ao alarme crescente em uma parte enorme do país, Trump em alguns momentos tem parecido habitar um universo diferente, tendo previsto incorretamente que a epidemia se dissiparia em pouco tempo e afirmado falsamente que a propagação do vírus é simples função do aumento dos testes.

Com seus decretos e exigências impacientes, Trump vem prejudicando os esforços para mitigar a crise e, ao mesmo tempo, distanciando-se da participação nesses esforços.

As rupturas emergentes no partido de Trump demoraram a se desenvolver, mas vêm se aprofundando rapidamente desde que uma nova onda de casos de coronavírus começou a varrer o país no mês passado.

Nos últimos dias de junho, o governador do Utah, o republicano Gary Herbert, somou-se a outros governadores numa teleconferência com Mike Pence e exortou a administração a fazer mais do que apenas combater um senso de “complacência” em relação ao vírus.

Conforme revelou uma gravação da conferência, Herbert disse que ajudaria estados como o dele se Trump e Pence incentivassem nacionalmente o uso de máscaras.

Pence disse a Herbert que tomara nota da sugestão e que o uso de máscara seria “uma mensagem muito consistente” da administração.

Mas nenhum apelo nesse sentido foi feito por Trump em momento nenhum. Dias mais tarde, o presidente afirmou que o vírus “vai simplesmente desaparecer”.

Trump fez apenas recomendações condicionais sobre o uso de máscara e raramente foi visto usando máscara em público.

Na entrevista que deu à Fox, transmitida no domingo, o presidente disse que não emitiria uma ordem nacional impondo o uso de máscara porque os americanos merecem “certa liberdade” em relação a isso.

Alguns dos estados onde a epidemia vem se agravando mais nas últimas semanas são governados por republicanos que passaram meses evitando impor "lockdowns" rígidos, em alguns casos porque os líderes estaduais hesitavam em se distanciar de um presidente de seu próprio partido que rejeitava essas medidas.

Essa dinâmica foi especialmente pronunciada em estados do sul do país como Mississippi, Alabama e Flórida, onde os governadores continuam a resistir à adoção de medidas de saúde pública fortemente restritivas ou as adotaram apenas recentemente e de modo parcial.

Mas muitos parlamentares republicanos estão exasperados com as mensagens conflitantes da administração, a guerra aberta entre a equipe do presidente, e as exigências do presidente de que os estados reabram suas economias mais rapidamente, sob pena de sofrer punições do governo federal.

O senador republicano Ben Sasse, do Nebraska, quer que a administração ofereça informações mais extensas e atualizadas de saúde pública à população.

Ele condenou a hostilidade aberta em relação a Fauci da parte de alguns funcionários da administração, incluindo o assessor comercial Peter Navarro, que escreveu uma coluna de opinião atacando Fauci, o maior especialista nacional em doenças infecciosas.

“Quero mais entrevistas coletivas diárias, mas, ainda mais importante, quero que a Casa Branca inteira comece a agir como um time que tem a missão de combater um problema real”, disse Sasse.

“O ataque de Navarro nesta semana, que pareceu coisa dos Três Patetas, feita para agradar a adolescentes, é mais uma maneira de solapar a confiança do público de que esses caras entendem que dezenas milhares de americanos já morreram e dezenas de milhões estão desempregados.”

O senador republicano Roy Blunt, de Montana, foi mais sucinto: “Quanto mais eles deixarem os briefings a cargo dos profissionais, melhor”.

Um grupo de governadores republicanos vem há meses fazendo teleconferências regulares, geralmente à noite e sem a presença de funcionários. A informação é de dois estrategistas do partido familiarizados com as conversas.

Diferentemente das teleconferências lideradas por Pence e que enfocam o vírus, não há funcionários democratas ou da Casa Branca participando, de modo que as conversas viraram uma espécie de espaço seguro em que os governadores podem pedir conselhos a seus colegas, discutir as melhores práticas e, se tiverem vontade, desabafar sobre a administração e a liderança errática do presidente.

O próprio Trump parece estar menos interessado nos desafios específicos do vírus e estar frustrado principalmente porque o vírus não desapareceu conforme ele previu. A desconexão é crescente entre ele e outros líderes republicanos –sem falar nos eleitores.

Uma pesquisa de opinião da ABC News e do Washington Post divulgada na sexta-feira indicou que a maioria da população desaprova fortemente o modo como Trump vem lidando com a crise do coronavírus, enquanto dois terços dos americanos disseram que não acreditam ou acreditam muito pouco nas declarações do presidente sobre a doença.

Alguns dos assessores mais próximos de Trump estão firmes na posição de que o melhor caminho a seguir é minimizar os perigos da doença.

Mark Meadows, o chefe de gabinete de Trump, vem expressando com força especial sua opinião de que a Casa Branca deve evitar chamar a atenção ao vírus, segundo pessoas familiarizadas com as discussões.

Meadows se opõe a qualquer briefing sobre o vírus. Outros assessores de Trump, incluindo Hope Hicks e Jared Kushner, estão abertos à realização de entrevistas diárias, desde que não aconteçam na Casa Branca, onde Trump pode comparecer e tomar conta deles.

A equipe de Pence gostaria de realizar mais briefings com os especialistas em saúde, mas alguns dos assessores de comunicações de Trump não querem que o vice esteja presente.

Muitos legisladores da base republicana compartilham a aversão de Trump às práticas de controle da doença.

O governador Brian Kemp, da Geórgia, republicano estreitamente alinhado com Trump, emitiu uma ordem na quarta-feira (15) proibindo os governos locais de impor o uso da máscara e abriu uma ação judicial contra a prefeita de Atlanta, Keisha Lance Bottoms, por impor essa exigência.

Kemp emitiu a ordem horas depois de Trump visitar seu Estado e se recusar a usar máscara no aeroporto de Atlanta.

Mas alguns republicanos não estão enxergando nenhuma alternativa possível senão romper com Trump em relação às suas políticas públicas, mesmo que não à sua visão política maior.

Glenn Hamer, presidente da Câmara de Comércio e Indústria do Arizona, entidade empresarial poderosa no estado crucial, acha que o governador republicano Doug Ducey está trilhando um caminho prudente —divergindo das exigências de Trump em relação a medidas públicas, mas não criticando o presidente por emiti-las.

“Todo o mundo sabe que o presidente não reage bem a críticas, construtivas ou não”, disse ele.

Hamer, que fez parte de um grupo de líderes empresariais que mandou uma carta à Casa Branca pedindo a criação de diretrizes nacionais mais claras sobre máscaras, disse que Trump representa um desafio para líderes republicanos que querem fomentar comportamentos responsáveis.

“No que diz respeito a máscaras, é difícil quando o líder do partido dá um péssimo exemplo, ele próprio”, comentou.

Tradução de Clara Allain

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