Casa Branca lança ofensiva para desacreditar especialista em doenças infecciosas do governo

Declarações de Anthony Fauci desagradaram Trump por contariar vontade do presidente em meio à pandemia

Maggie Haberman
The New York Times

Conforme o doutor Anthony Fauci, maior especialista em doenças infecciosas dos EUA, passou a manifestar com mais veemência suas preocupações sobre o aumento nacional de casos de coronavírus, assessores de Donald Trump começaram a criticar seus discursos, fornecendo anonimamente detalhes a vários canais de mídia sobre declarações dadas no início do surto de coronavírus que, segundo eles, foram imprecisas.

O tratamento oferecido a Fauci, que chefia o Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas há décadas, como se fosse um adversário político beligerante, foi acompanhado por críticas públicas mais comedidas de autoridades do governo, incluindo o presidente, e ocorreu dias após a Casa Branca considerar extremamente restritivas as diretrizes para a reabertura das escolas emitidas pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças.

Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas, durante depoimento a comitê do Senado, em Washington
Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas, durante depoimento a comitê do Senado, em Washington - Kevin Dietsch - 30.jun.20/Xinhua

Isso faz parte de um padrão do governo de tentar rejeitar recomendações que possam desacelerar a reabertura econômica, que Trump considera vital em seu esforço claudicante para se reeleger.

Assessores do líder americano começaram entregando ao Washington Post o que o jornal chamou de "lista extensa" de comentários que Fauci fez sobre o vírus quando ele estava nas fases iniciais.

A lista inclui comentários de Fauci dos quais assessores da Casa Branca se queixaram em particular durante meses, incluindo um, em fevereiro, no qual ele minimizou a probabilidade de disseminação assintomática, e outro, segundo o qual as pessoas não precisavam adotar grandes mudanças na vida.

Uma autoridade disse ao Post que várias outras autoridades estavam preocupadas com a frequência dos erros de Fauci. A declaração do especialista, em uma entrevista em 29 de fevereiro, na qual diz que "neste momento não há necessidade de mudar nada que vocês fazem diariamente", porém, não foi acompanhada de uma advertência feita por ele logo depois.

"Neste momento o risco ainda é baixo, mas isso pode mudar", disse na entrevista à NBC News. "Quando vocês começarem a ver transmissão comunitária, isso pode mudar e obrigá-los a tomar muito mais cuidado ao fazer coisas para se protegerem da contaminação."

Na mesma entrevista, Fauci também advertiu que o coronavírus poderia se tornar "um surto importante".

A lista de declarações foi mais tarde divulgada a vários veículos de mídia.

Foi uma medida extraordinária dar às organizações de notícias tal documento sobre uma autoridade de saúde que trabalha para o governo e mantém um nível elevado de confiança do público.

Fauci não quis comentar. Um funcionário da Casa Branca, sob condição do anonimato, insistiu que o governo não tenta desacreditar o chefe do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas, que reconhece como um especialista, mas tenta, sim, lembrar ao público seu histórico e que deve-se ouvir diversos médicos.

Uma pesquisa realizada para o New York Times pelo Siena College, no mês passado, mostrou que 67% dos americanos confiavam em Fauci no que diz respeito ao vírus; só 26% confiavam no presidente.

Com os EUA liderando com grande folga no mundo tanto em casos da doença quanto em mortes, Fauci tornou-se mais aberto em suas declarações recentes sobre as preocupações com o vírus, enquanto Trump tentou pressionar os estados a reabrirem mais depressa e ameaçou reter verbas federais para distritos escolares se eles não retomarem suas atividades no outono no hemisfério norte.

Em entrevista num podcast do site FiveThirtyEight na semana passada, Fauci disse que alguns estados têm o vírus sob controle, mas, "como país, quando se compara com outros países, não acho que se possa dizer que estamos indo muito bem". "Quero dizer, não estamos mesmo."

Em comparação, Trump tentou minimizar a ameaça quase sem interrupção, enquanto fazia falsas afirmativas sobre a rapidez e a eficiência de seu governo na reação à pandemia.

Autoridades da Casa Branca só se manifestaram sobre o caso sem se identificar. Uma delas disse que o documento fornecido ao Post se destinava a repelir qualquer ideia de que o governo foi negligente por nem sempre apoiar as palavras de Fauci.

A autoridade também afirmou que pessoas que não gostam de Trump fora do governo deram valor desproporcional às declarações de Fauci.

E, numa Casa Branca onde quase tudo é tratado em termos de como se relaciona ao presidente, a equipe está altamente decepcionada com Fauci há meses.

Na semana passada, Trump disse à Fox News que o especialista errou sobre muitos aspectos da pandemia. Fauci "é um homem bom, mas cometeu muitos erros", disse o republicano.

Apesar de afirmações iniciais no combate à pandemia de que eles apreciavam a companhia um do outro, Trump há muito tempo não recebe Fauci em particular, segundo autoridades da Casa Branca, tomando nota do tempo que ele passou na televisão e de quando o médico contradisse o presidente durante entrevistas coletivas.

Trump começou a se decepcionar com Fauci quando este manifestou dúvidas sobre a eficácia do uso da hidroxicloroquina, um remédio para malária, para tratar doentes de coronavírus.

O líder americano continuou a pregar seu apoio à droga, mesmo depois que a Agência de Alimentos e Drogas retirou uma autorização de emergência permitindo que ela fosse usada em casos de coronavírus.
Os assessores do presidente ecoaram, e às vezes amplificaram, as frustrações do chefe.

"O doutor Fauci não está 100% certo, e ele não leva em conta necessariamente —o que ele admite— todo o interesse nacional", disse o almirante Brett Giroir, secretário-assistente de saúde e serviços humanos, em entrevista veiculada no domingo no programa Meet the Press.

"Ele vê a coisa de um ponto de vista de saúde pública muito estreito."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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