Belarus oscila entre euforia e depressão em movimento para derrubar ditadura

Maior protesto da história do país foi seguido de 'ressaca sentimental' e medo de reação de Lukachenko

Minsk (Belarus)

No começo foi raiva. Depois muito medo, superado por correntes de solidariedade e motivação crescente.

No auge, centenas de milhares foram às ruas de várias cidades bielorrussas no domingo passado (16). Pediam novas eleições livres, na maior manifestação da história do país.

Do patamar elevado da catedral ortodoxa do Espírito Santo, no centro de Minsk, via-se toda a avenida dos Vitoriosos ocupada, ao longo de mais de 1 km até o obelisco ao Herói Nacional.

Manifestantes protestam contra a ditadura de Aleksandr Lukachenko durante ato em Minsk, capital da Belarus
Manifestantes protestam contra a ditadura de Aleksandr Lukachenko durante ato em Minsk, capital da Belarus - Serguei Gapon - 16.ago.20/AFP

Dos quatro pontos do cruzamento com a avenida Mašerava, chegaram mais de 100 mil bielorrussos de várias idades, animados, levando flores e bandeiras históricas (faixas branca, vermelha e branca, do tempo da primeira república independente), muitos de branco ou vermelho.

Não houve discursos nem comícios, os cartazes de protestos eram poucos e as palavras de ordem pediam novas eleições, a renúncia do ditador Alexandr Lukachenko, o fim da violência e a libertação dos presos políticos.

Nos taludes das avenidas eram estendidas enormes bandeiras, bondes passavam tão lotados quanto as calçadas e, até a madrugada, era possível ouvir gritos de “viva Belarus!” e “fora!” e buzinas de motoristas em sinal de apoio.

E então amanheceu a segunda-feira e começaram a pipocar mensagens de bielorrussos sentindo-se deprimidos, apáticos, angustiados e assustados. “Estava tão feliz e animado no domingo e agora nem tenho vontade de sair da cama”, dizia uma delas, dirigida à psicóloga Nelly Semenchuk.

A “ressaca sentimental”, que ela considera normal em indivíduos que experimentam emoções extremas, era também uma imagem do humor coletivo do país, que vive picos sucessivos de mobilização, violência, resistência e apreensão desde a eleição presidencial.

Governados desde 1994 por Lukachenko, bielorrussos ouvidos pela Folha em Minsk e Lida (a 100 km da capital) do dia 15 ao dia 20 viam na eleição deste ano uma chance inédita de tirá-lo do poder pelo voto.

A mobilização durante a campanha indicava forte apoio a Svetlana Tikhanovskaia, que se lançou candidata quando seu marido foi preso e formou uma frente com outras duas candidaturas independentes golpeadas por Lukachenko.

Era impossível saber se ela teria chances de vitória, já que não há pesquisas independentes no país, mas não há dúvidas de que seus eleitores passavam dos 10% contabilizados pela Comissão Eleitoral.

Em seu apego ao poder, Lukachenko, 65, um ex-gerente de uma fazenda coletiva soviética que venceu a eleição presidencial livre de 1994 e controlou as quatro seguintes, acabou unindo parte do país contra ele.

“Não sei no que vai dar, mas acho que o que vemos agora é o nascimento da nossa nação”, diz a educadora Kate, 41, ainda no sábado (15), véspera da manifestação recorde.

Segundo a educadora, as pessoas começaram a se olhar nas ruas e sorrir uma para as outras.

“Antes havia um receio, você não tinha ideia do que pensavam os outros. Agora conseguimos identificar esperanças comuns”, afirma, enquanto uma procissão de motos passa buzinando pela avenida da Liberdade.

Apesar da animação evidente, há silêncio e tensão quando passa a fila de caminhões do Exército pelas avenidas do centro. Na manhã do domingo (16), a apreensão cresceu quando agentes da Omon, as tropas de choque da Belarus (pronuncia-se Belarús), vestidos de preto, de máscaras e sem insígnia, fecharam as ruas que levavam ao primeiro ato pró-Lukachenko.

Só ônibus fretados e convidados podiam passar. Nas ruas, nenhuma das pessoas abordadas se dispôs a falar sobre o ditador nem declarar apoio a ele.

A perspectiva de provocações e a presença da Omon faziam “tremer de medo” a ativista ambiental Iryna, 25, que ainda assim achou indispensável ir à praça do obelisco.

Outra Irina, 58, foi para as ruas nas correntes de solidariedade dos dias 12 e 13. “Quando começaram a prender e bater, tivemos um medo como nunca senti na minha vida. Mas estamos cansados de viver sem esperanças”, diz a economista, moradora de Lida.

Em frente a uma igreja ortodoxa, uma senhora observa de boca aberta o fluxo em direção ao protesto e pergunta: “Aonde estão indo todos? Não entendo. Querem continuar apanhando até que a polícia mate todos? Nunca vi isso acontecer na Belarus”.

Tatsiana, 55, que dirige a organização de direitos humanos Zvyano.by, afirma temer por uma piora mais grave. “As últimas declarações de Lukachenko mostram isso. Ele não aceita deixar o poder e fará tudo para resistir.”

Segundo ela, quase todos os artigos do estatuto dos direitos humanos são desrespeitados em seu país.

“Não há direito à associação sindical, direito de expressão, de opinião, liberdade de imprensa, eleições livres, cortes independentes. Há abuso de poder constante por parte da polícia, tortura generalizada e impunidade.”

Segundo a ativista, nos processos judiciais, as únicas testemunhas aceitas são os próprios policiais, e direitos econômicos também não são respeitados. “As barreiras para que cada um construa seu próprio sucesso são enormes.”

Essa concentração de poder por parte de Lukachenko, que na semana do dia 17 conseguiu coagir movimentos grevistas, aprofundou a ressaca emocional dos que esperavam mudanças.

Apesar de cautelosa, Tatsiana espera que a população siga lutando. “Esse regime tem que cair. Ele não corresponde mais à nossa sociedade.”

“Temos medo de retaliação, temos medo de que tudo volte ao passado, mas no momento temos motivo para acreditar”, afirma o diretor financeiro Vladimir, 44. “Ironicamente, em um dia Lukachenko obteve o que não havia feito em 26 anos: uniu a nação contra ele, e sentimos um novo amor por ela.”


Veja as outras reportagens da série sobre Belarus:


Afinal, o que está ocorrendo na Belarus?

Quando e por que começaram os conflitos?
No dia 9, pesquisa que deu mais de 80% dos votos para o ditador Alexandr Lukachenko iniciou ato contra fraude eleitoral, reprimido com brutalidade nas três primeiras noites. Há relatos de surras, estupros e torturas, inclusive de menores de idade e pessoas que não protestavam, com centenas de feridos e ao menos 3 mortos (a ONU fala em 4 mortes). ​

Quem se manifesta contra o governo? 
Eleitores da oposição, mulheres de todas as idades, entidades de direitos civis, artistas, trabalhadores de algumas grandes estatais, alguns ex-militares, policiais e membros da máquina estatal que renunciaram. Cerca de 300 empresários de tecnologia ameaçaram deixar o país.

Ainda há detidos? 
Segundo a ONU, neste sábado (22) 100 dos 7.000 detidos seguiam presos, dos quais 60 acusados de crimes graves. Ao menos 8 estão desaparecidos.

O que querem os manifestantes?
O protesto não é unificado, mas há 5 reivindicações comuns: 1) a saída de Lukachenko, 2) novas eleições livres, 3) o fim da violência policial, 4) a punição dos responsáveis por tortura, 5) a libertação dos presos políticos.

Os protestos estão aumentando ou refluindo?
Houve alta até o domingo (16) e redução na última semana, mas continuam ocorrendo todos os dias em dezenas de cidades. Greves crescentes até terça (18) foram reprimidas pela polícia e por ameaças de demissão. Renúncias de militares e membros do governo continuam ocorrendo.

As manifestações são apenas contra Lukachenko?
Atos a favor do ditador começaram no dia 16, em Minsk, e em outras cidades. Parte dos participantes são trazidos de ônibus e há relatos de coerção.

A eleição pode ser anulada?
A oposição contestou o resultado na Comissão Eleitoral, mas o recurso foi negado. Nesta sexta (21), a oposição entrou com pedido de anulação no Supremo Tribunal. A resposta deve sair em até cinco dias.

Quem lidera a oposição? 
Não há liderança clara. Svetlana Tikhanovskaia, que assumiu a campanha de seu marido quando ele foi preso, representou uma frente de três candidaturas, mas se exilou na Lituânia após o pleito. Um conselho de transição foi criado, mas o governo não aceitou receber interlocutores e abriu processo criminal contra o grupo.

Qual o interesse russo na Belarus?
O país separa a Rússia das tropas da Otan situadas na União Europeia e passam por ele um quinto do gás e um quarto do petróleo exportados pelos russos para a Europa.

A Rússia pode intervir contra os manifestantes? 
É improvável, pois o apoio explícito de Putin a um líder considerado ilegítimo poderia mudar o atual quadro de simpatia dos bielorrussos por Moscou.

Lukachenko pode cumprir o 6º mandato?
Depende da força e da duração dos protestos e greves, da pressão de empresários externos, da defecção de membros do alto escalão do governo e da existência de alternativas consideradas confiáveis pela Rússia.


Isto é Belarus

  • Em março de 1918 foi criada a República Popular Bielorrussa, no território considerado etnicamente bielorrusso. O país tinha Constituição própria e foi reconhecido por nações vizinhas, mas sua independência foi breve: em 1919, foi ocupado pelos soviéticos
  • Foi considerada um país independente em 1991, após a dissolução da antiga União Soviética. Antes disso, esteve sob domínio de Rússia, Polônia e Lituânia
  • A atual Constituição foi adotada em 1994, quando também ocorreram as primeiras eleições presidenciais
  • Aleksandr Lukachenko foi o eleito e permanece na liderança do país há 26 anos, após emendas constitucionais baseadas em referendos amplamente contestados
  • Considerado um dos mais repressivos regimes da Europa, a Belarus realizou eleições não democráticas, suprimiu a oposição política e silenciou a imprensa
  • No ranking da Freedom House, que monitora as democracias pelo mundo, a Belarus tem a sétima pior pontuação e é classificada como um regime autoritário

ECONOMIA

Formação do PIB

  • serviços: 51,1%
  • indústria: 40,8%
  • agricultura: 8,1%
  • O segmento de serviços emprega a maior parte da força de trabalho, com destaque para os setores bancário, imobiliário e de comunicações
  • Belarus é hoje o principal hub de tecnologia da informação na Europa. Exportou US$ 15 bilhões em 2019, ou 35,6% das receitas de exportação
  • Atividades industriais se concentram na fabricação de veículos pesados, principalmente caminhões, tratores e escavadeiras.
  • No segmento agrícola, a maior parte da produção é voltada para batatas, beterrabas, cevada, trigo, centeio e milho
  • O turismo da Belarus é menos desenvolvido que nos países vizinhos. Os destinos mais visitados são o Parque Nacional Belovejskaia, Patrimônio Mundial pela Unesco, e a Fortaleza do Herói em Brest, palco da resistência soviética à invasão nazista em 1941

GRUPOS ÉTNICOS*

  • bielorrussos: 83,7%
  • russos: 8,3%
  • ucranianos: 1,7%
  • outros**: 3,2%

* Dados do censo de 2009
** Judeus, letões, lituanos e tártaros. Antes da Segunda Guerra (1939–1945), os judeus constituíam o 2º maior grupo étnico da Belarus e mais da metade da população urbana. O genocídio e a emigração do pós-guerra quase eliminaram os judeus do país

GRUPOS RELIGIOSOS

  • cristãos ortodoxos: 48,3%
  • católicos: 7,1%
  • não religiosos ou ateus: 41,1%
  • outros*: 3,5%

TCHERNÓBIL

  • O acidente na usina nuclear em Tchernóbil, na Ucrânia, ocorreu a 447 km da capital bielorrussa, Minsk. A Belarus foi um dos países mais afetados
  • A maior parte das chuvas radioativas após a explosão caiu em território bielorrusso. No início dos anos 2000, um quinto das terras da Belarus seguia contaminado
  • Houve aumento nos registros de crianças nascidas com malformações e na incidência de câncer, além de queda na taxa de natalidade

PERSONALIDADES

  • Marc Chagall (1887-1985): Talvez o mais famoso dos bielorrussos, o pintor, ceramista e gravurista é conhecido como um mestre da arte clássica de vanguarda
  • Svetlana Aleksiévitch (1948-): Escritora vencedora do Prêmio Nobel de Literatura, em 2015. Atualmente, é integrante do conselho que busca a transição de poder na Belarus
  • Victoria Azarenka (1989-): Tenista com duas medalhas olímpicas, foi considerada a melhor do mundo em 2012. Atualmente, ocupa a 59ª posição no ranking
  • Louis Burt Mayer (1884-1957): Produtor de cinema que ajudou a fundar o estúdio hollywoodiano Metro-Goldwyn-Mayer e a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, criadora do Oscar. Foi dele a ideia de tornar anual a maior premiação do cinema
  • Zhores Alferov (1930-2019): Vencedor do Prêmio Nobel de Física, em 2000, pelo desenvolvimento de semicondutores que possibilitaram o aprimoramento dos telefones celulares
  • Oleg Novitski (1971-): Primeiro cosmonauta bielorrusso a liderar uma expedição à Estação Espacial Internacional (ISS), em 2012

ESPORTES

  • As modalidades mais populares são futebol, basquete, hóquei no gelo, atletismo, ginástica e luta livre
  • Antes da independência, os bielorrussos competiam nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos pela delegação soviética
  • Desde a 1ª participação independente, em 1994, a Belarus ganhou 97 medalhas olímpicas e 133 paraolímpicas

Fontes: Banco Mundial, Enciclopédia Britannica, PNUD, Regime da Belarus e World Factbook

Colaborou Lucas Alonso

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