Descrição de chapéu Eleições EUA 2020

Após 75 milhões de votos antecipados, entidades pedem que americanos parem de votar por correio

A seis dias da eleição, não há garantia de que cédulas por carta cheguem a tempo

São Paulo

Seis dias antes das eleições nos Estados Unidos, marcadas para 3 de novembro, 75 milhões de americanos já votaram de forma antecipada —tanto depositando as cédulas em pontos de coleta quanto as enviando por correio.

O número recorde se deve, principalmente, à pandemia de Covid-19. Ele equivale a 54,4% dos votos totais na eleição de 2016, e a 31,3% de todas as pessoas aptas a votarem no país. Para efeito de comparação, menos de um quarto do eleitorado (23%) votou de forma antecipada no pleito anterior, segundo dados do U.S. Elections Project.

O aumento de interesse dos americanos em votar num país em que isso não é obrigatório agradou às entidades que incentivam a população a se envolver com o processo eleitoral —e agora, na reta final, as preocupa na mesma medida.

Intervenção em poste na Filadélfia incentiva eleitores a votar construindo a frase 'Pare de desistir e vote' a partir de uma placa de 'pare', adesivos e um cartaz escrito 'vote'
Intervenção em poste na Filadélfia incentiva eleitores a votar - Mark Makela/AFP

Isso porque os correios —a forma preferida de voto antecipado, com 49 milhões de adeptos até o momento— estão sobrecarregados e não têm como garantir, a esta altura, que serão capazes de entregar tudo a tempo da contagem.

“Se você ainda não enviou sua cédula pelo correio, não envie”, dizia um post da ONG Head Count publicado no domingo (25) em sua página no Instagram. “Deposite-o pessoalmente para fazê-lo valer.”

Já o sindicato de maquinistas e trabalhadores aeroespaciais foi mais direto em seu site, na segunda-feira (26): “Não dependa dos correios. Deposite sua célula num ponto de coleta ou vote pessoalmente”.

A nota, que explicava por que já seria tarde demais para votar por correio, acrescentou que “políticas partidárias podem ameaçar a contagem das cédulas enviadas por correio, causando tumulto durante o dia da eleição e depois”, sem citar um partido específico.

Resta a ambas as entidades torcerem para que os 16,8 milhões de eleitores que pediram para votar de forma antecipada, mas ainda não enviaram suas cédulas, ouçam o pedido.

A preocupação tem um motivo: 28 estados —entre eles, muitos considerados cruciais, como Wisconsin, Ohio, Flórida e Iowa— não contarão os votos que chegarem após o dia 3 de novembro.

A Pensilvânia, importante campo de batalha na disputa deste ano, conseguiu prorrogar a entrega das cédulas até 6 de novembro, graças a uma votação empatada da Suprema Corte (que na ocasião estava com um juiz a menos por causa da morte de Ruth Bader Ginsburg, em setembro).

Os republicanos do estado voltaram ao tribunal na terça-feira (27) para pedir que a votação fosse refeita, contando com o apoio presumido da juíza ultraconservadora Amy Coney Barrett, indicada pelo presidente Donald Trump e recém-empossada. Mas a corte manteve a decisão anterior e vai permitir a contagem das cédulas que chegarem até três dias depois da eleição.
Segundo uma porta-voz do tribunal, Barrett não participou da decisão "devido à necessidade de uma resolução imediata e porque ela não teve tempo de revisar completamente os arquivos das partes".
Na Carolina do Norte, a Suprema Corte atendeu um pedido das autoridades eleitorais do estado e estendeu o prazo de recebimento dos votos até 12 de novembro, desde que as cédulas tenham sido postadas no correio até o dia da eleição.
Os atrasos dos votos por correio têm sido a regra. Na semana que chegou ao fim em 16 de outubro, 85,6% dos votos enviados foram entregues no prazo ideal, de até três dias. É a 14ª semana consecutiva em que essa taxa esteve abaixo de 90%.

O próprio serviço postal americano recomenda que, “como medida de senso comum”, os votos não sejam enviados por carta a menos de uma semana da eleição, prazo que já estourou.

Para além da sobrecarga, parte do atraso se deve a uma disputa legal em setembro entre os correios —que tentaram implementar uma política de corte de custos— e cinco estados que entraram na Justiça para impedir que isso ocorresse e venceram. Os cortes teriam piorado ainda mais os atrasos, mas o imbróglio também ajudou a exacerbá-los.

Os eleitores de Joe Biden, candidato do Partido Democrata à Presidência, seriam os mais prejudicados por eventuais falhas, já que foram os mais adeptos do voto a distância como medida preventiva durante a pandemia. Segundo o U.S. Elections Project, os democratas representam 47,4% dos votos depositados até agora —de longe o maior grupo, seguidos pelos que apoiam o Partido Republicano (29,4%) e os sem filiação partidária (22,5%).

Biden não chegou a fazer um pedido explícito para os eleitores desistirem de votar por correio, mas fez mudanças sutis na linguagem das peças publicitárias de modo a incentivar os eleitores a depositarem as cédulas pessoalmente, segundo membros de sua campanha ouvidos pelo jornal The Washington Post.

Já o candidato à reeleição pelo Partido Republicano, Donald Trump, tem como trunfo o fato de ter desestimulado sua base a votar por correio desde o início da corrida eleitoral, alegando que a prática seria fraudulenta.

“As cédulas [enviadas] por correio são trapaceiras”, disse ele a eleitores de Wisconsin em setembro, reforçando um boato falso que circula há anos entre os republicanos.
Nos cinco estados que votam inteiramente por correio —Havaí, Colorado, Washington, Oregon e Utah—, os índices de fraude são muito raros; em Utah, houve apenas um caso de fraude registrado desde 2013, dentre 970 mil cédulas enviadas por correspondência.

Para além disso, a campanha de Trump chegou a entrar na Justiça na semana passada para pedir que a contagem dos votos por correio na região de Las Vegas já fosse encerrada. O argumento foi que seria impossível confirmar as assinaturas de todos os eleitores a tempo. (O condado onde fica Las Vegas é a região mais democrata do estado de Nevada.) O juiz estadual James Wilson se recusou a atender o pedido.

O presidente também pressiona os tribunais estaduais de forma implícita para que impeçam a contagem das cédulas após o dia da eleição. "Com sorte, os poucos estados que querem demorar para contar as cédulas depois de 3 de novembro vão ser impedidos pelos diversos tribunais", disse em um pronunciamento recente.

Vinte e dois estados planejam estender a apuração para muito além disso. O mais demorado é Washington, que tem até o dia 23 de novembro para terminar a contagem.

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