Flórida se tornou laboratório da postura errática de Trump diante da pandemia

Ao seguir roteiro de reabertura proposto por presidente, estado registrou maior marca de infecções diárias desde início da crise

Washington

Cinquenta dias antes da eleição americana, a Folha começou a publicar a série de reportagens “50 estados, 50 problemas”, que se debruça sobre questões estruturais dos EUA e presentes na campanha eleitoral que decidirá se Donald Trump continua na Casa Branca ou se entrega a Presidência a Joe Biden.

Até 3 de novembro, dia da votação, os 50 estados do país serão o ponto de partida para analisar que problemas o próximo —ou o mesmo— líder americano terá de lidar.

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A Flórida é um dos estados determinantes para Donald Trump ser reconduzido ou não à Casa Branca e se tornou uma espécie de laboratório da postura errática do presidente diante da pandemia que já matou ao menos 200 mil pessoas nos EUA.

Trump viu no governador republicano Ron DeSantis o aliado perfeito para navegar entre o discurso a seus eleitores e as necessárias medidas contra o coronavírus, combinação que transformou a crise sanitária no elemento central da disputa de 3 de novembro.

Trabalhador do setor de construção civil caminha em frente a mural que mostra o prefeito de Miami, Francis Suárez, à dir., no bairro de Wynwood
Trabalhador do setor de construção civil caminha em frente a mural que mostra o prefeito de Miami, Francis Suárez, à dir., no bairro de Wynwood - Chandan Khanna - 29.jun.20/AFP

Ao seguir o roteiro do presidente, que defendeu a reabertura econômica precoce, DeSantis viu a Flórida registrar mais de 687 mil casos e 13.415 mil mortes por Covid-19 até agora, além de bater, em julho, o recorde de 15 mil diagnósticos em 24 horas, maior marca de infecções diárias desde o início da pandemia.

Pressionado pelos números, o governador precisou rever a retomada no estado, ao mesmo tempo em que Trump mudava mais uma vez de comportamento conforme via sua popularidade cair.

A aprovação do presidente tem acompanhado a gravidade da pandemia, e seu adversário, o democrata Joe Biden, passou a liderar as pesquisas nacionais e na maioria dos estados-chave —inclusive na Flórida, ainda que por margem apertada— conforme a situação piorava no país.

Os EUA são líderes mundiais em casos e mortes por Covid-19. Além dos 200 mil óbitos, mais de 6,9 milhões de pessoas foram contaminadas, escancarando desigualdades e deixando milhões de desempregados em uma crise cuja resolução será o maior desafio do próximo (ou do mesmo) presidente.

A Flórida foi uma das regiões mais atingidas pelos novos surtos que assolaram ao menos 43 dos 50 estados americanos no meio do ano, em um alerta de que a crise não estava sob controle e que a rota de reabertura traçada por Trump havia fracassado.

O primeiro caso confirmado de Covid-19 nos EUA foi em 21 de janeiro. Somente em 13 de março, com 2.000 diagnósticos e mais de 40 mortes, o presidente declarou emergência nacional e adotou medidas de distanciamento social que foram estendidas até o fim de abril.

Apesar da cautela de sua equipe técnica, liderada por Anthony Fauci, o presidente passou a defender a reabertura econômica, com medo de que o impacto da crise e do alto índice de desemprego —que saltou de 3,5% em janeiro para 14,7% em abril— prejudicassem sua campanha à reeleição.

Nessa seara, Trump estava certo. Segundo o Instituto Gallup, ele tinha 49% de aprovação em março, índice que despencou para 38% em julho, quando os EUA foram atingidos pelos novos e graves surtos do vírus.

O presidente recuperou um pouco o fôlego e chegou a 42% em setembro, época em que as transmissões pareciam ter dado uma trégua —especialistas, no entanto, afirmam que deve haver novos repiques nos próximos meses, com o fim do verão americano e o retorno das aulas em escolas e universidades do país.

Até lá, Trump tenta controlar a narrativa com a ideia de que uma vacina contra a Covid-19 será aprovada e distribuída em breve. Seu desejo é que isso aconteça antes da eleição, o que é pouco provável.

Biden, por sua vez, tem um comportamento diferente do de Trump, marcando a oposição com uso de máscara e participação reduzida em eventos públicos. O democrata defende que a vacina, quando aprovada, siga critérios de distribuição, priorizando trabalhadores essenciais e grupos de risco.

Mas, antes disso, ainda é preciso saber como estará a percepção da pandemia sobre estados-pêndulo como a Flórida em novembro. Essas regiões vão determinar a escolha de quem, à frente da Casa Branca, precisará refazer um país colapsado pela tragédia de saúde pública somada à recessão econômica.​

50 ESTADOS, 50 PROBLEMAS

  1. Minnesota

    Morte de George Floyd em Minnesota escancarou outra vez racismo sistêmico americano

  2. Texas

    Divisa do Texas se tornou ícone da cruzada de Trump contra imigrantes

  3. Indiana

    Rusga com China põe estados rurais como Indiana na linha de tiro da guerra comercial

  4. Missouri

    Caso no Missouri ajudou a pavimentar decisão da Suprema Corte que protege comunidade LGBT

  5. Califórnia

    Califórnia, de moradores de rua e aluguéis caríssimos, espelha problema da habitação nos EUA

  6. Idaho

    Superlotação em prisões de Idaho expõe encarceramento em massa nos EUA

  7. Arizona

    Arizona põe à prova discurso de Trump de destruição dos subúrbios americanos

  8. Colorado

    Legalização federal é pedra no sapato de empresários da maconha no Colorado

  9. Arkansas

    Solidamente republicana, Arkansas facilita venda de armas

  10. Alasca

    Chance de explorar petróleo em reserva ambiental no Alasca opõe modelos de desenvolvimento

  11. Nova York

    Nova York procura saída para déficit bilionário agravado pela pandemia de coronavírus

  12. Flórida

    Flórida se tornou laboratório da postura errática de Trump diante da pandemia

  13. Carolina do Sul

    Briga na Carolina do Sul por estátua de Pantera Negra evidencia onda contra símbolos confederados

  14. Nevada

    Com dados alarmantes, Nevada retrata epidemia da violência doméstica nos EUA

  15. Alabama

    No top 5 de tiroteios em escolas, Alabama alimenta estatística que assombra EUA

  16. Dakota do Norte

    Na Dakota do Norte, indígenas enfrentam pobreza e oleoduto apoiado por Trump

  17. Maryland

    Disputa entre público e privado em Maryland é retrato da educação nos EUA

  18. Havaí

    Relação conturbada dos EUA com Coreia do Norte espalha medo no Havaí

  19. Wisconsin

    Sombra da judicialização paira sobre disputas acirradas em estados como Wisconsin

  20. Virgínia

    Passeata na Virgínia em 2017 deu visibilidade para extremistas da alt-right

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