Descrição de chapéu Armênia

Conflito no Cáucaso opõe Rússia, França e EUA ao governo da Turquia

Armênia diz que derrubou quatro drones do Azerbaijão próximos de sua capital, Ierevan

São Paulo

A pressão diplomática por um cessar-fogo no conflito em curso no Cáucaso opôs nesta quinta (1º) Rússia, França e Estados Unidos à Turquia, patrocinadora política do Azerbaijão no seu embate com a Armênia.

Russos e franceses foram além, acusando os turcos de interferência direta na nova rodada de combates no encrave armênio em território azeri de Nagorno-Karabakh, iniciada no domingo (27).

Pedaço de foguete caído perto de cemitério em Ivanyan, em Nagorno Karabakh
Pedaço de foguete caído perto de cemitério em Ivanyan, em Nagorno-Karabakh - Vahram Baghdasaryan/Photolure via Reuters

As três potências comandam o chamado Grupo de Minsk, que em 1992 foi instituído sob os auspícios das Nações Unidas para mediar a guerra entre Ierevan e Baku que durou até 1994, na esteira da dissolução da União Soviética.

Em um raro pronunciamento conjunto, a trinca pediu o fim imediato das hostilidades, sem precondições, e criticou a interferência externa.

"Dado que EUA, Rússia e França negligenciaram o problema por quase 30 anos, é inaceitável que eles estejam envolvidos na busca de um cessar-fogo", respondeu o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan.

Enquanto isso, o quinto dia da campanha militar seguiu com combates pesados nas fronteiras da região e também em pontos da Armênia e do Azerbaijão.

Num desenvolvimento grave, se confirmado, a Armênia disse que quatro drones azeris foram derrubados perto da capital, Ierevan.

Especialistas são unânimes em dizer que os drones azeris são de origem turca. Erdogan reafirmou que a operação militar de seus aliados em Baku só irá acabar quando a Armênia deixar o território azeri.

Aqui há um jogo de palavras. Nagorno-Karabakh, ou República de Artsakh para Ierevan, é um território armênio étnico que acabou dentro do Azerbaijão na divisão do butim do Cáucaso promovido pelos soviéticos nos anos 1920.

Com o fim do império comunista, o movimento de independência ganhou força e tudo acabou numa guerra que foi congelada em 1994. Só que Karabakh permaneceu sob um governo local associado ao da Armênia, que manteve suas forças em conjunto com militares de Ierevan ocupando sete distritos à sua volta.

Em 1993, a ONU publicou quatro resoluções que pediam a retirada das forças desses distritos e a retomada da negociação sobre o status de Karabakh. Nada aconteceu, como é usual com resoluções do Conselho de Segurança ante situações reais de conflito.

Os armênios consideram o controle militar das cercanias vital para proteger o território autônomo. Num impasse, o Azerbaijão exige a retirada e também a posse de Karabakh.

Enquanto isso, o quinto dia da campanha militar seguiu com combates pesados nas fronteiras da região e também em pontos da Armênia e do Azerbaijão.

Os dados que vêm da região são conflitantes. Até aqui, o governo de Karabakh afirma ter perdido 104 militares e 23 civis desde domingo. Baku fala em 17 civis, mas não descreve suas baixas militares. ONGs armênias falam que os mortos podem estar na casa de centenas.

O presidente francês, Emmanuel Macron, disse em Bruxelas que tinha provas de que soldados envolvidos na guerra civil da Síria foram enviados pela Turquia como mercenários para ajudar Baku.

A mesma acusação já havia sido feita pelo Ministério das Relações Exteriores russo. Sua porta-voz, Maria Zakharova, afirmou nesta quinta que a presença estrangeira, sem citar nominalmente a Turquia, "é irresponsável e traz consequências imprevisíveis" ao conflito.

Aqui há uma nuance. A Síria de fato tem uma grande quantidade de rebeldes sob comando informal da Turquia, e já houve embates entre eles e os russos que apoiam a ditadura de Bashar al-Assad no conflito.

Mas a respeitada ONG Observatório Sírio dos Direitos Humanos relatou que os 900 combatentes que contou deixando o país nos últimos dias foram tanto para o Azerbaijão quanto, via Irã —aliado de Ierevan—, para ajudar os armênios.

O recado das três potências valeu para Ierevan também. Aliada nominal da Rússia, apesar das relações estremecidas desde que o governo pró-Kremlin foi derrubado em 2018, ela resistiu à pressão de Vladimir Putin para aceitar conversas em Moscou.

Mas o deslocamento do eixo da disputa diplomática com a Turquia nesta quinta demonstra que o caráter regional do conflito é inevitável. Não foi casual que Zakharova insistiu, em sua entrevista, que a Rússia continuará pedindo contenção a todos.

A alternativa, e isso ela não precisou dizer, é fazer uso de seu poderio militar contra forças apoiadas por um país da Otan (aliança militar ocidental), caso da Turquia.

Moscou tem uma base e equipamentos pesados na Armênia, apesar da má relação entre Putin e o premiê Nikol Pashinyan, e dificilmente permitirá uma subjugação pura e simples de Karabakh pelos azeris. A estabilidade nos seus termos é central para o Kremlin no sul de suas fronteiras.

Do ponto de vista europeu, as palavras duras de Macron no começo da cúpula da União Europeia (UE) refletem o quanto a Turquia será um tema espinhoso nas discussões. Não só pelo Cáucaso, mas principalmente pela crescente disputa entre Ancara e Grécia sobre o controle do Mediterrâneo oriental.

Em torno do Chipre, país dividido por forças apoiadas pelos dois rivais, turcos e gregos vivem se esbarrando militarmente. O motivo, além de rotas marítimas, é o potencial de exploração de gás e petróleo na região. A Turquia está na Otan, mas não na UE, e isso adiciona elementos de tensão quando combinados com a crise em curso no Cáucaso.

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