Descrição de chapéu racismo

Mês da História Negra extrapola EUA após protestos antirracistas

Canadá e Reino Unido replicam tradição americana que celebra em fevereiro o Black History Month

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São Paulo

Uma história em quadrinhos, para colorir e recortar, conta a trajetória de Rosa Parks para crianças que mal sabem ler numa escola no sul de Chicago (EUA).

Nela, Rosa pega um ônibus cheio, mas se senta. Um homem branco entra e pede seu lugar. A lei racista do Alabama de 1955 determina que negros se levantem para que brancos possam se sentar. Rosa Parks, cansada depois de um dia de trabalho, diz: “Não”.

E isso detona uma onda de protestos por direitos civis que inflamariam a vida política americana nas décadas seguintes.

O ensino de fatos históricos como este pode começar bem cedo nos EUA graças a uma tradição iniciada em 1926 que concentra em fevereiro, dentro e fora das escolas, a celebração do Mês da História Negra, ou Black History Month.

O abolicionista Frederick Douglass, que fugiu da escravidão e conseguiu comprar liberdade, tem trajetória relatada no livro 'Autobiografia de Um Escravo' (Ed. Vestígio)
O abolicionista Frederick Douglass, que fugiu da escravidão e conseguiu comprar liberdade, tem trajetória relatada no livro 'Autobiografia de Um Escravo' (Ed. Vestígio) - Wikimedia

O marco, já quase centenário, tem inspirado países como Canadá e o Reino Unido na descolonização do ensino da história de suas formações sociais e culturais depois que protestos antirracistas reverberaram o mundo todo impulsionados pelo assassinato de George Floyd, nos EUA, em maio de 2020.

"O Black History Month trata da realidade local dos EUA e o seu enfoque é pedagógico, voltado a discutir temas da realidade dos negros norte-americanos nas escolas, universidades e na mídia", afirma Cristiano Rodrigues, professor do departamento de Ciência Política da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

O Black History Month busca não só celebrar a contribuição negra para a formação do país mas também trazer reflexões sobre a luta por justiça racial, tão debatida depois dos protestos de 2020 nos EUA que se espalharam por diversos países, chegando ao Brasil.

"Esse é o período do ano [Black History Month] no qual as contribuições e feitos históricos das pessoas negras ganham centralidade no debate escolar e no debate intelectual, quando são discutidas novas pesquisas sobre a história das pessoas negras na diáspora”, explica Luciana Brito, historiadora e professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. "Esse debate, obviamente, ocupa um lugar na política e na sociedade."

Especialista em história da escravidão e liberdade no Brasil e Estados Unidos, Luciana conta que fevereiro concentra também o lançamento de livros, filmes e projetos que tenham como tema a história das pessoas negras.

"Um dos maiores ganhos é a celebração tanto dos feitos de pessoas pela liberdade quanto do protagonismo da comunidade negra dos Estados Unidos na luta pelos direitos civis naquele país", diz.

A origem do Black History Month é a Semana de História Negra, criada em 1926 pelo historiador Carter G. Woodson —o segundo homem negro a se tornar doutor em história pela Universidade Harvard (o primeiro foi o sociólogo W.E.B. Du Bois, um dos fundadores do movimento negro).

Woodson queria garantir que crianças pequenas já fossem expostas a perspectivas positivas sobre trajetórias negras de luta por liberdade e por direitos, e não às redutoras representações de pessoas negras escravizadas ou em situações de subalternidade.

Ele​ escolheu a segunda semana do mês de fevereiro porque ela concentra os aniversários de duas figuras-chave da luta pela abolição da escravidão nos EUA, ocorrida em 1865: o presidente Abraham Lincoln e o abolicionista negro Frederick Douglass, cujo livro de memórias, “Autobiografia de um Escravo“, é agora lançado no Brasil.

"Mesmo quando era somente uma semana, já mobilizava ativistas negros de todo o país, sobretudo na região sul, onde as escolas eram segregadas”, conta Luciana. “Era naqueles dias que essas escolas segregadas negras transgrediam currículos escolares e discursos oficiais que desumanizavam pessoas afro-americanas”, aponta ela, lembrando que as primeiras décadas do século 20 marcaram o período mais violento de atuação da Ku Klux Klan nos EUA.

Na década de 1960, sob a influencia do movimento por direitos civis, militantes e intelectuais negros pressionaram universidades para que elas incorporassem disciplinas sobre história afro-americana a seus currículos.

E, em 1976, durante a celebração dos 200 anos de Independência dos Estados Unidos, a Associação para o Estudo da Vida e História Afro-Americana (Asalh, na sigla em inglês) pressionou o governo para que, ao invés de apenas uma semana, o mês todo fosse dedicado ao tema. Depois disso, o Black History Month foi incorporado pelo presidente Gerald Ford ao calendário oficial.

Distorções e apagamentos persistentes prejudicam até hoje a disseminação da história negra americana. “Esses processos de apagamento seguem ocorrendo, e estamos constantemente atentos para que essas informações sejam corrigidas”, conta a diplomata americana Justine King.

Ela cita um escândalo envolvendo livros didáticos do Texas que apresentavam um mapa de fluxos migratórios para os EUA no qual o tráfico escravista desde a África era descrito como um deslocamento de “trabalhadores”.

“Se não conhecermos o nosso passado, como podemos programar nosso futuro?”, questiona ela, que cresceu em Nova York, ajudou a criar uma residência para estudantes negros na universidade e hoje atua no consulado dos EUA, em São Paulo.

“Movimentos como o Black Lives Matter mostraram que nós, afro-americanos, enfrentamos ainda hoje algumas das violências que acometeram as lideranças negras que estudamos desde pequenos durante o Black History Month”. Ela cita Frederick Douglass, Harriet Tubman, Rosa Parks, Martin Luther King e Malcolm X.

Cristiano Rodrigues, da UFMG, avalia que o movimento negro dos EUA influencia outros países. "O ideal é pensar que há uma rede transnacional de luta contra o racismo, na qual os movimentos por direitos civis e agora o Black Lives Matter ocupam um lugar importante. Eles se transformam a partir das trocas com outras experiências ao redor do mundo."

Nos últimos anos, o Black History Month tem movimentado também empresas que buscam aproveitar o momento de maior visibilidade da pauta antirracista. Neste ano, a Netflix destacou filmes e séries que tratam de temáticas relacionadas à história de negros americanos. A Apple lançou uma série de produtos comemorativos para a data nos EUA e replicou as vendas aqui no Brasil.

A Nike também criou uma linha de roupas e anúncios específicos para a data. A Disney preparou uma série de atividades para um mês temático em seus parques. Coca Cola, Google e outras empresas fizeram manifestações ao longo do mês de fevereiro em menor ou maior escala.​

“Existe um grande movimento nos EUA de apoio a negócios de pessoas negras e ele cresceu muito neste mês. E as mídias sociais tornaram tudo mais simples, ao alcance de alguns cliques”, afirma Justine.

Empresas como Walmart e Gap criaram seções em seus ecommerces dedicadas a marcas criadas por empresários negros. Houve quem avaliasse que essas iniciativas apontam para caminhos mais práticos, que extrapolem o universo das hashtags.

No Brasil, o Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, tem cada vez mais se ampliado para o mês todo. Assim como acontece o Black History Month, trata-se de uma iniciativa da sociedade civil, criada nos anos 1970 e oficializada pela primeira vez no Rio Grande do Sul em 1987.

As duas celebrações "partem de iniciativas de organizações negras que tinham, e ainda têm como objetivo, pautar a questão racial todos os anos no Brasil e nos Estados Unidos", afirma Luciana.

A professora da UFRB afirma que a mobilização do movimento negro brasileiro gerou informação de qualidade sobre escravidão e figuras importantes do abolicionismo e da resistência.

Rodrigues diz que ativistas dos EUA "reclamam que a maior parte do debate racial se dá apenas no mês de fevereiro ou quando ocorre alguma situação de racismo que gere grande comoção popular".

Justine avalia que “a história negra americana é a história dos EUA em si e que, portanto, não deveria ficar confinada nos 28 dias deste mês”.

Ainda assim, é em fevereiro que crianças ainda muito pequenas são apresentadas para jogos, canções e brincadeiras capazes de estimular, mesmo entre pequeninos, questionamentos profundos, do tipo: “Mas por que é que pessoas negras tinham de se levantar para brancos nos ônibus?”.

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