Líder opositor russo Alexei Navalni encerra greve de fome de 24 dias

Sob risco de morrer, blogueiro preso desde janeiro viu grandes atos em seu favor na Rússia

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São Paulo

O líder opositor russo Alexei Navalni, preso desde janeiro, encerrou sua greve de fome de 24 dias nesta sexta (23). Ele afirmou que o protesto gerou "grande progresso", em referência aos atos em seu favor e à repercussão internacional do caso.

Alexei Navalni durante uma audiência em corte de Moscou
Alexei Navalni durante uma audiência em corte de Moscou - Vassili Maximov - 24.jun.19/AFP

Segundo o opositor, em post no Instagram, "os médicos nos quais eu confio emitiram um comunicado dizendo que nós alcançamos o suficiente para que eu encerre minha greve de fome". Na quinta (22), um grupo de médicos apoiadores de Navalni afirmou que ele poderia morrer a qualquer minuto.

É incerto se ele recebeu, nesse período, algum tipo de alimentação líquida ou por veia.

No dia anterior, dezenas de milhares de russos foram às ruas para protestar contra a prisão de Navalni, um blogueiro de 44 anos que começou a promover campanhas contra a corrupção estatal em 2017, chamando a atenção com enormes atos organizados via internet. Cerca de 1.600 pessoas foram detidas, mas houve menos violência policial do que nos atos do início deste ano, logo após a detenção do ativista.

Ele foi preso em um aeroporto de Moscou no dia 17 de janeiro, quando voltava de 150 dias de tratamento médico na Alemanha —ele fora envenenado na Sibéria, em agosto de 2020, pelo que cientistas disseram ser o agente neurotóxico de origem soviética Novitchok.

Navalni, seus apoiadores e até o governo de Joe Biden, que chamou o presidente Vladimir Putin de assassino, acusam o FSB (serviço secreto russo) pelo ataque. O Kremlin nega.

A prisão foi determinada por uma tecnicalidade, o fato de o ativista em coma em Berlim não ter batido ponto com seu oficial de condicional. Ele cumpria uma sentença suspensa, fruto de uma condenação por fraude considerada pela Corte Europeia de Direitos Humanos forjada.

Em fevereiro, foi julgado e mandado para cumprir o restante da pena, dois anos e meio, numa colônia penal a 100 km de Moscou. Sem acesso regular a advogados e médicos, começou a greve de fome.

Na semana passada, 15 kg mais magro e com sinais vitais falhando, Navalni foi internado em um hospital em Moscou. Segue sem ser atendido por médicos de sua confiança. “Não retiro minha demanda de ver um médico relevante. Estou perdendo a sensibilidade em partes dos meus braços e pernas, não entendo o que é isso e quero ser tratado", escreveu.

Ele comemorou, contudo, o fato de ter sido examinado duas vezes por um time de médicos civis, não do sistema prisional. "Dois meses atrás, estavam rindo dos meus pedidos de ajuda."

Navalni é uma crescente dor de cabeça para Putin e virou peça no jogo de pressões entre o Kremlin e o Ocidente patrocinado por Biden, que recrudesceu a retórica contra o líder russo após anos de complacência de Donald Trump —atribuída ora à incompetência, ora à suposta ajuda virtual que teve de hackers russos em sua eleição em 2016.

O fim da greve de fome de Navalni ocorre, curiosamente, no mesmo dia em que os russos disseram ter iniciado a saída de suas tropas de exercícios perto das fronteiras da Ucrânia, que geraram grande tensão com os EUA e a Otan (aliança militar ocidental). Como personagem político, a densidade eleitoral de Navalni é quase nula, nunca tendo saído do traço em pesquisas independentes.

Mas seus vídeos com denúncias, de qualidade jornalística duvidosa mas bastante efetivos na forma, são amplamente vistos e tocam na desconfiança básica da classe média russa ante seus governantes.

O ativista ampliou seu escopo de atividade mirando o partido de sustentação do Kremlin, o Rússia Unida. Promove campanhas em favor de quaisquer candidatos que se oponham à sigla e teve sucessos pontuais.

Foi na preparação de uma eleição local em Tomsk que ele foi envenenado. O grande desafio será a eleição parlamentar de setembro, na qual o Rússia Unida apresenta baixa aprovação em pesquisas. Isso é um dos fatores que ensejou a campanha judicial, num país em que este Poder é alinhado ao Executivo, contra Navalni. É notável de sua influência também que milhares tenham se disposto a ir às ruas em seu favor:

Quando atos não são autorizados, como era o caso na quarta, a polícia pode prender quem quiser.

Enquanto isso, cresce o cerco interno à mídia independente, que mingua e se esconde em cantos da internet na Rússia —há poucos grandes jornais, sempre lidando com a pressão do Kremlin, e praticamente toda a TV é estatal ou alinhada ao governo. Nesta sexta, o Roskomnadzor, órgão regular de mídia russo, classificou o site Meduza como "agente estrangeiro", o que é quase uma pena de morte para o negócio.

Uma lei de 2012, feita na esteira de grandes protestos contra a nova eleição de Putin, mirou ONGs, indivíduos e órgãos de mídia que tenham financiamento externo. Eles podem operar, mas são sujeitos a inspeções financeiras draconianas. O Meduza é baseado na Letônia, para onde sua fundadora, Galina Timtchenko, fugiu em 2014 com medo da repressão russa. Com reportagens investigativas e artigos de opinião contrários ao regime, o site tem grande capilaridade, com colaboradores espalhados pela Rússia.

Agora, essas pessoas podem sofrer achaques legais. No começo do ano, a tradicional Rádio Europa Livre, americana, foi tachada de agente estrangeiro e agora enfrenta um processo que pode resultar em US$ 150 mil em multas, inviabilizando sua operação na Rússia.

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