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Entenda o embargo americano a Cuba e por que ele se sustenta há 6 décadas

Discussão sobre bloqueio voltou à tona após protestos ocorridos na ilha comunista

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Guarulhos

Os protestos que eclodiram em Cuba em 11 de julho deram destaque para o embargo comercial e econômico que os EUA impuseram à ilha há seis décadas e que se mantém até hoje.

O líder da ditadura cubana, Miguel Díaz-Canel, enfatizou o discurso de que os problemas do país têm origem no bloqueio, reiteradamente condenado por organismos internacionais. Para os opositores do regime comunista, o embargo é usado como pretexto para mascarar a ineficiência do Estado e justificar a repressão.

Veja aqui quais são os principais pontos dessa questão:

Cubanos fazem protesto no Malecón, em Havana, contra o embargo americano - Alexandre Meneghini - 28.mar.21/Reuters

O que é o embargo? Um emaranhado de legislações, algumas por iniciativa do Congresso americano, outras do Executivo, que começaram a ser implementadas na década de 1960 como forma de retaliação política às mudanças postas em prática pela Revolução Cubana —sendo a principal a desapropriação de terras, muitas de posse dos americanos, para fins de reforma agrária.

Em fevereiro de 1962, o então presidente John Kennedy conferiu arcabouço legal ao embargo: proibiu todas as importações de produtos de origem cubana e aquelas feitas por meio do país caribenho.

Na década de 1990, outras duas leis se somaram à lista. Conhecidas como Torricelli e Helms Burton, elas estenderam a jurisdição dos tribunais americanos para fora das fronteiras territoriais: sujeitaram a sanções as subsidiárias americanas no exterior que realizem negócios com Cuba e enrijeceram a proibição de importações que contenham total ou parcialmente matérias-primas cubanas, independentemente de em qual país foram fabricadas.

“Essa extraterritorialidade conferida pela lei americana cria um clima de insegurança jurídica para empresas de outros países”, explica Pedro Feliú, professor de relações internacionais da USP (Universidade de São Paulo). Ainda que muitas nações tenham costurado normas próprias que derrubam a lei americana, algumas instituições são inibidas de fazerem negócios que envolvam Cuba pelo receio de serem processadas em tribunais dos EUA.

Por que existe? O embargo se mantém hoje pelo lobby doméstico dos latinos na Flórida, em especial cubano-americanos exilados da ilha. O estado, que ora apoia os republicanos, ora os democratas, é tido como um bom termômetro da política dos EUA, explica Carlos Gustavo Poggio, professor da Faap e especialista em política americana.

Em 2017, por exemplo, o então presidente Donald Trump escolheu Miami, reduto cubano, como palco para anunciar que reverteria o afrouxamento do bloqueio iniciado por seu antecessor, Barack Obama.

“É um grupo minoritário, mas com capacidade de influenciar na política externa”, acrescenta Feliú, da USP. Coeso, com assentos legislativos, poder econômico e influência na mídia, o grupo se tornou o principal fator explicativo do embargo. Calcula-se que 2,3 milhões de cubanos vivem nos EUA, sendo 66% deles na Flórida.

Quais as críticas? O regime de Cuba atribui ao embargo o principal combustível da asfixia financeira no país e obstáculo para o desenvolvimento nacional. A frase “abajo al bloqueo” (abaixo ao bloqueio) virou palavra de ordem do Partido Comunista de Cuba e é uma constante nos discursos das autoridades públicas.

A ONU (Organização das Nações Unidas) reiteradamente condena o bloqueio —já foram 29 manifestações do tipo aprovadas pela maioria dos países. O principal argumento é de que as sanções, unilaterais, ferem o direito internacional e o multilateralismo.

Além disso, dizem especialistas na área, o embargo acaba tendo efeito contrário ao pretendido. “Sanções tendem a aumentar a sobrevida de regimes autoritários, e a análise empírica sustenta isso”, explica Feliú.

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O que diz quem defende o embargo? Os EUA justificam que as sanções são uma forma de pressionar o regime cubano para a abertura democrática, argumento que ganhou força nas legislações postas em vigor na década de 1990. A Lei Helms Burton vincula de forma definitiva a possibilidade do fim das restrições econômicas à implementação de um regime de transição democrática na ilha.

Quais os impactos? Cuba publica relatórios periódicos com as cifras supostamente perdidas em razão do bloqueio. O último documento afirma que o dano econômico acumulado ao longo dos anos chega a US$ 148 bilhões (R$ 772,5 bilhões, na cotação atual). Somente de abril a dezembro de 2020, teriam sido US$ 3,6 bilhões (R$ 18,8 bilhões).

O embargo afeta a produtividade da economia cubana, afirma Joana Salém, doutora em história econômica pela USP e autora de livros sobre a história da ilha. “É responsável pela parte estrutural da crise”, acrescenta. De modo mais intenso no início, o bloqueio afetou a matriz tecnológica da indústria cubana, em grande parte dependente de peças americanas, que ficaram sem reposição. As sanções também impactam o setor de bens de consumo, mais difíceis de serem adquiridos no mercado externo, e o de biomedicina.

Em 2018, segundo relatório da chancelaria cubana, a Medicuba S.A, estatal de importação e exportação de suprimentos médicos, teve uma encomenda do antibiótico levofloxacina —para infecções bacterianas— negada por uma das principais farmacêuticas indianas. A justificativa foi que o banco operador da empresa se negou a receber pagamentos de um país embargado pelos EUA.

O que precisa para acabar? O Congresso americano é a autoridade que pode pôr fim ao bloqueio, dissolvendo o emaranhado legislativo que o sustenta. A Casa Branca também pode atuar, mas no sentindo de atenuá-lo. Foi o que fez Barack Obama em 2011, quando facilitou, por meio de ordem executiva (equivalente a decreto), viagens de religiosos, estudantes, acadêmicos e jornalistas a Cuba, além do envio de remessas de dinheiro.

Trump, seu sucessor, reverteu as medidas, ainda que mais “no campo da retórica do que da prática”, diz Poggio, da Faap. Às vésperas de deixar a Presidência, o republicano recolocou a ilha na lista americana de países patrocinadores de terrorismo, por exemplo.

Biden tem tido postura mais discreta nas relações internacionais e ainda é cedo para projetar as intenções do democrata em relação a Cuba, observa o professor. Nesta terça-feira (20), o Departamento de Estado americano anunciou que estuda aumentar o contingente de sua embaixada na ilha e revisar a política de envio de remessas de dinheiro. A sinalização veio pouco mais de uma semana após protestos serem realizados em diversas províncias de Cuba.

Qual o peso real do embargo nos atos de 11 de julho? A cesta de fatores que levaram os cubanos às ruas da capital, Havana, e de outras províncias é diversa. A pandemia tem peso. Em 2020, a paralisação do turismo, principal ingrediente da economia cubana, fez o PIB do país retroceder 11%, o que deve se repetir neste ano.

Pedro Feliú, da USP, explica que as manifestações podem ser entendidas, em parte, como reflexo da flexibilização e aproximação iniciada com Obama. “Uma fresta que se abre já torna a demanda por abertura muito maior.”

Joana Salém diz que, além da fuga de capitais motivada pelo embargo, outros três fatores devem ser considerados: o efeito dominó da crise econômica na Venezuela, importante parceira de Cuba, em especial no petróleo; a perda de poder de compra desencadeada pelo plano cubano de reunificação das moedas; e a perda da capacidade de diálogo de instituições criadas pelo PC Cubano com alguns setores, como os Comitês de Defesa da Revolução nos bairros, a Federação de Mulheres Cubanas e os sindicatos.

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