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Ásia

Xi oferece abertura calculada a Biden para manter fria a guerra entre eles

Líder chinês faz sinalizações ao americano, mas insiste em ser tratado como um igual

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São Paulo

Reuniões de cúpula, com as exceções clássicas, são feitas para apresentar correções de rota na relação entre grandes potências. Raramente se espera algo definidor de novas eras.

Até pelo formato virtual, uma cortesia da pandemia de coronavírus que agora serve de desculpa para manter a assepsia de um relacionamento mergulhado em tensões, o encontro entre Xi Jinping e Joe Biden entregou o prometido: nada em especial.

Na Sala Roosevelt da Casa Branca, Biden faz encontro virtual com o chinês Xi Jinping
Na Sala Roosevelt da Casa Branca, Biden faz encontro virtual com o chinês Xi Jinping - Mandel Ngan - 15.nov.21/AFP

Por outro lado, marcou uma discreta inflexão no contencioso geopolítico central deste século, muito por obra das peculiaridades da condição de Xi.

O líder da ditadura comunista promoveu movimentos de abertura em direção ao rival na Casa Branca. Na terça da semana passada (9), fez ser lida por seu embaixador em um evento em Washington uma carta aberta em que explicitava a disposição de mudar o rumo de colisão entre os dois países.

No dia seguinte (10), China e EUA surpreenderam os presentes à inócua reunião do clima da ONU na Escócia com uma declaração conjunta de cooperação —o ar e as águas do planeta, afinal, são bens comuns, e as duas maiores economias do mundo são as maiores poluidoras também.

O encontro virtual desta segunda (15) —ou desta terça (16), no horário de Pequim—, coroou essa tríade de boa vontade. Não sem antes Xi deixar clara sua posição, sinalizando como um enxadrista ao "velho amigo" Biden os limites de seu sorriso.

Pequim passou outubro ameaçando militarmente a ilha de Taiwan, que se vê protegida pelos EUA, com as maiores incursões contra as defesas aéreas de Taipé na história da disputa que remonta à vitória comunista no continente, em 1949.

Vários analistas, como o papa da geopolítica americana George Friedman, veem nisso um blefe: a China teria muito mais a perder do que a ganhar numa difícil operação para conquistar Taiwan.

Se foi isso, Biden mordeu a isca. A presidente da ilha confirmou que há anos tropas dos EUA treinam secretamente em seu território, uma forma de tentar dissuadir Xi de avanços mais ousados. O efeito, contudo, foi o de legitimar o discurso chinês de interferência estrangeira.

Isso porque, bem ou mal, os EUA reconhecem diplomaticamente a China desde 1979, e isso inclui aceitar a ideia de que a ilha é parte do império hoje sob Xi. Ele foi claro ao comentar o apoio americano aos pró-independência e o risco de uma declaração do tipo ser emitida.

"Tais rumos são extremamente perigosos. É como brincar com fogo, e quem brinca com fogo acaba queimado", disse. Biden, segundo os relatos disponíveis, apenas reafirmou sua preocupação com a relação no estreito de Taiwan.

Outro elemento formativo do Xi em modo de abertura diplomática foi sua entronização como o terceiro mandarim do panteão da China moderna, com a resolução do Partido Comunista que o elevou ao status de Mao Tse-tung e Deng Xiaoping na semana passada.

Com a provável recondução dele a mais cinco anos no poder em 2022, e talvez de forma vitalícia, o líder torna-se um elemento inescapável no panorama político mundial —goste-se ou não dele, a exemplo do que ocorre com o russo Vladimir Putin, 22 anos de poder e contando.

​Xi quer ser visto como um igual, como diz a cada discurso. Por outro lado, como o blefe de suas capacidades militares, há fraquezas a mover Xi. A principal é a crise no pilar central das finanças de seu país, o mercado imobiliário, ainda absorvendo os choques da megacrise com a empresa Evergrande.

Investidores temem que as ondas sísmicas de um colapso derrubem economias mundo afora, e isso cria uma desconfiança que Xi precisa tourear, ainda mais na esteira dos impactos da pandemia de Covid-19 nas cadeias produtivas que passam pela China.

Do lado de Biden, as debilidades de sua gestão o eclipsaram. O presidente antevê a perda de controle do Congresso no ano que vem, o que pode matar sua chance de reeleição, e patina num sem-número de questões.

De toda forma, ele chancelou a continuidade da Guerra Fria 2.0 iniciada por seu caótico antecessor, Donald Trump, e colocou na mesa todas as suas contrariedades, de resto explicitadas nos últimos meses com movimentos como o pacto militar com a Austrália e com as inúmeras provocações de lado a lado.

Hong Kong, Taiwan, Xinjiang, os movimentos do arsenal nuclear chinês, tudo isso foi debatido ou citado em algum momento. Mas o tom ameno, diferentemente do famoso encontro das duas diplomacias no Alasca, em março, indica que a conversa talvez seja possível.

No mínimo, para manter fria a guerra entre os dois países, já que qualquer embate fora do controle em Taiwan ou no mar do Sul da China teria consequências imprevisíveis.

Este é um ponto central do embate de superpotências no século 21. Na versão anterior, a Guerra Fria dos EUA com a União Soviética era quente por procuração e afetou a vida de pessoas no mundo todo, como brasileiros pudemos atestar com a ditadura de 1964.

Mesmo com a maior assertividade de Xi no campo externo, não há nada parecido com a projeção ideológica soviética em blocos de poder no mundo. O negócio da China são, bem, os negócios. E a interconexão com a economia americana, algo que nunca houve entre Moscou e Washington, também é um fator razoável de dissuasão.

Claro, basta voltar aos profetas de 1910 que negavam a chance de uma guerra porque a Europa girava em torno da City londrina e dos laços de sangue de monarcas para saber que arcabouços são falíveis, e há muita gente séria que antevê a inevitabilidade do tira-teima China-EUA.

Pode ser, mas por ora parece que veremos a evolução dos movimentos do xadrez proposto por Xi a Biden.

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