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EUA acusam Rússia de preparar vídeo fake para justificar invasão da Ucrânia

Pentágono não traz provas; Moscou faz maior ação militar na Belarus desde a Guerra Fria

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São Paulo

A guerra de nervos entre Rússia e Ocidente em torno de uma eventual invasão da Ucrânia seguiu em alta tensão nesta quinta (3), com os Estados Unidos acusando o Kremlin de elaborar um pretexto para o conflito, enquanto Moscou conduzia um grande exercício militar na Belarus.

O presidente Vladimir Putin tem talvez 130 mil soldados em três frentes em torno da Ucrânia: Crimeia, fronteira leste do vizinho e a ditadura aliada de Minsk, ao norte. Um quarto ponto, com poucas forças, fica num encrave separatista da Moldova, junto ao oeste ucraniano.

Blindados fazem manobras durante exercício conjunto da Rússia e da Belarus na região belarussa de Brest
Blindados fazem manobras durante exercício conjunto da Rússia e da Belarus na região belarussa de Brest - Vadim Iakubionok/BelTA/via Reuteres

Com essa movimentação, o russo quer uma solução de segurança para o Leste Europeu que atenda seu imperativo de não ver a Ucrânia e outros países sendo englobados pela Otan, a aliança militar ocidental.

Ela remete a 2014, quando Putin anexou a Crimeia e apoiou rebeldes pró-Rússia que hoje controlam parte do leste ucraniano para evitar que o novo governo em Kiev adentrasse as estruturas ocidentais.

Com infrutíferas trocas de ultimatos e respostas negativas, a tensão só faz crescer, embora haja grande esforço diplomático para evitar uma guerra que ao fim não interessa a nenhuma das partes —aparentemente, na visão ocidental.

Os EUA repetiram o Reino Unido nesta quinta, acusando sem mostrar provas os russos de preparar um pretexto falso para a invasão que negam estar planejando.

Segundo autoridades do Pentágono citadas anonimamente pelo jornal The New York Times, a inteligência americana tem informação sobre um plano no qual os russos fariam um vídeo falso de um ataque simulado de ucranianos contra a Rússia ou contra populações civis de etnia russa no leste do país.

A ideia seria alegar risco de genocídio contra os habitantes, justificando uma invasão a pedido dos líderes separatistas. Haveria material militar ucraniano, como drones turcos recentemente comprados, e atores se passando por cadáveres na encenação.

O tema do genocídio é frequente na imprensa e nas redes sociais russas, que exageram o movimento que existe no governo de Kiev para tentar coibir a influência do vizinho, tendo fechado em 2021 três canais russófonos e aplicado sanções a empresários acusados de ligação com os rebeldes.

Cerca de 20% da população ucraniana, de 44 milhões de pessoas, é russa étnica, e mais de um terço do país fala a língua de Putin —que tem o mesmo berço da ucraniana e da belarussa.

A acusação vazada ao New York Times é frágil factualmente, assim como a feita por EUA e Reino Unido na semana passada de que haveria planos russos de operações de "bandeira falsa", quando é simulado um ataque contra suas tropas para justificar uma ação, e até de derrubada do governo de Volodimir Zelenski.

Por outro lado, não havia provas factuais da ação russa de infiltração de "pequenos homens verdes", militares sem identificação, na Crimeia em 2014, até que ficou claro que eles garantiram a realização do plebiscito que escolheu a volta do território à Rússia —de onde havia sido extirpado em 1954, quando tudo aquilo era parte da União Soviética.

Não houve comentários imediatos do Kremlin, que mais cedo havia criticado duramente o deslocamento de 3.000 soldados americanos para posições no Leste Europeu, um sinal simbólico de escalada da crise. Na ocasião anterior, o plano denunciado em Londres foi chamado de delirante.

Mais tangível, contudo, foi a ação vista na Belarus, onde 30 mil soldados russos participaram com um contingente não divulgado de militares locais de exercícios perto da fronteira norte da Ucrânia. Caças avançados Su-35S e aviões de ataque Su-34 participaram das ações, que foram supervisionadas pessoalmente pelos chefes das Forças Armadas dos dois países.

Desde que a ditadura de Aleksandr Lukachenko se viu desafiada por protestos contra mais uma reeleição do líder que está no poder desde 1994, Putin fez crescer seu domínio político sobre o vizinho, dando apoio irrestrito ao aliado. Os dois países, que participam de uma vaga entidade chamada Estado da União, unificaram protocolos militares e aumentaram a frequência de exercícios conjuntos. No mundo ideal de Putin, as nações se fundiriam.

Lukachenko sempre contornou isso, fazendo jogo duplo com a Europa, que tem forte presença econômica no seu país. Isso acabou com a crise iniciada em 2020 e, agora, o belarusso já admite até o posicionamento de tropas e mísseis nucleares russos em seu território.

Desde que a ditadura se envolveu numa crise fronteiriça com a Polônia, devido ao influxo de refugiados, Moscou e Minsk fazem voos de patrulha juntos no país. A Europa vê isso com tanto ou mais temor de que exercícios amplamente divulgados possam virar o prelúdio de uma invasão da Ucrânia, embora haja precedentes disso na guerra entre Rússia e Geórgia em 2008.

O secretário-geral da Otan, a aliança militar ocidental, Jens Stoltenberg, disse nesta quinta que a ação era preocupante e configurava o maior deslocamento de tropas russas para o vizinho desde os tempos da Guerra Fria.

Ainda nesta quinta, adicionando alguns graus à fervura, o Kremlin determinou o fechamento do serviço da rede alemã Deutsche Welle na Rússia, como retaliação pelas sanções à rede russa RT na Alemanha.

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