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Guerra na Ucrânia Rússia

Ataque perto da fronteira coloca conflito na Ucrânia em novo patamar e gera temor de escalada

Ação a 25 km da Polônia dá munição aos militaristas do Kremlin e da aliança ocidental

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São Paulo

O ataque russo ao Centro Internacional de Manutenção da Paz e Segurança de Iavoriv coloca o conflito na Ucrânia em um novo patamar, perigosamente perto do cenário mais tenebroso de todos, o de um embate entre Moscou e forças da Otan, a aliança militar ocidental.

Em português, o risco de uma Terceira Guerra Mundial, nuclear como todos os lados já avisaram ser inevitável ao longo dessas semanas de crise. Se a hipótese já havia sido reintroduzida no cotidiano após 30 anos de dormência devido às ilusões do fim da Guerra Fria, agora ela está colocada na mesa.

Militar ferido é colocado em ambulância após o ataque em Iavoriv
Militar ferido é colocado em ambulância após o ataque em Iavoriv - Kai Pfaffenbach/Reuters

Ao executar o ataque, Moscou deu materialidade à ameaça feita pelo vice-chanceler Serguei Riabkov na véspera, de que os comboios com letais mísseis antitanque e antiaéreos enviados pelo Ocidente para Kiev seriam alvos militares legítimos. Por óbvio, eles o são.

A Rússia está perdendo uma quantidade considerável de blindados em razão da ação desses armamentos. O ataque foi um alerta: a base de Iavoriv, a meros 25 km da fronteira polonesa, é um dos centros de recebimento e distribuição presumidos desses insumos letais.

Local em que militares americanos ensinavam ucranianos a manejar o lançador portátil de mísseis antitanque Javelin pouco antes da guerra, Iavoriv é um dos pontos de contatos mais óbvios entre Otan e Kiev. Não será surpresa se algum dos mortos for ocidental, embora ninguém possa admitir isso.

A ação coincidiu também com relatos de que Kiev e Moscou podem estar próximas de fazer avançar algum acordo, então pode também ser lida como um risco no chão feito pelos russos a fim de manter o Ocidente de fora dos termos das negociações.

Se tivessem atacado um comboio, de resto o próximo passo lógico da escalada, os russos arriscariam matar algum polonês. O país vizinho, por sua longa história esmagada entre os interesses da Alemanha e da Rússia, que lhe privaram a soberania várias vezes, é provavelmente o mais agressivo membro da Otan.

Foi em Varsóvia que se desenhou o plano de enviar sua frota de 28 caças MiG-29 para Kiev usar na guerra, só para ser refutado pelos EUA. É de lá também que saem os pedidos mais insistentes para que o apelo de Volodimir Zelenski para que o Ocidente implante uma zona de exclusão aérea na Ucrânia seja ouvido.

Novamente, recebeu uma negativa da Otan, baseada na admissão cândida de que tal medida levaria a uma Terceira Guerra com a maior potência nuclear do mundo. Ainda assim, as engrenagens da guerra não param. Neste domingo (13), o presidente polonês, Andrzej Duda, um líder quase tão iliberal quanto Jair Bolsonaro ou o vizinho húngaro Viktor Orbán ou o rival Vladimir Putin, disse em uma entrevista que a Otan deveria considerar ir à guerra caso fossem usadas armas de destruição em massa na Ucrânia.

Ele se refere às histórias contadas pelos dois lados. Segundo o Kremlin, os Estados Unidos custearam uma rede de laboratórios biológicos que, claro, só poderiam existir para fazer armas do gênero para proceder com o genocídio que dizem ocorrer no Donbass, no leste russo do país.

Já os americanos dizem que isso é uma desculpa para que Putin faça uso deste tipo de arma, ou das químicas, que de resto sancionou para o ditador amigo Bashar al-Assad usar na guerra civil da Síria.

Provavelmente ambos as partes estão mentindo ou exagerando, mas o que interessa é que a motivação vai se desenhando. Sob essa lente mais sombria, o ataque deste domingo foi só uma etapa inexorável. A visão mais otimista associa o alerta à possibilidade de um acordo.

A confusão é clara porque a atividade militar russa no oeste da Ucrânia era bastante limitada. Houve uma tentativa frustrada de um ataque com helicópteros perto de Lviv nos primeiros dias do conflito, e, depois, só bombardeios esporádicos. Nada parecido com a violência em Mariupol, Kharkiv ou no entorno de Kiev.

Os EUA já deslocaram duas baterias antiaéreas Patriot para a Polônia. Não se sabe o status operacional delas, mas basta um dos caças ou aviões de ataque que dispararam contra Iavoriv escapar um pouco de sua trajetória e cruzar o espaço aéreo polonês para o relógio adiantar um minuto rumo ao conflito maior.

Houve um ensaio disso na própria Síria, quando um caça-bombardeiro Su-24 russo foi abatido por um F-16 por basicamente lamber a fronteira turca no começo da intervenção de Moscou por lá, em 2015.

No fim, a diplomacia e os objetivos comuns falaram mais alto, mas não há chance de Varsóvia emular Ancara em seu comportamento e interesses. Em resumo, todos os envolvidos já têm sua narrativa pronta para agir em um próximo capítulo, e isso é aterrador, dado que estamos falando de forças que detêm quase a totalidade das ogivas nucleares do planeta.

Durante a crise dos mísseis de Cuba em 1962, o presidente John Fitzgerald Kennedy mandou distribuir entre todos os comandantes das Forças Armadas dos Estados Unidos o livro "Os Canhões de Agosto", publicado naquele ano pela historiadora americana Barbara Tuchman. A obra resumia, de forma concisa e brilhante, como cada fator da crise que levou à Primeira Guerra Mundial em agosto de 1914 se moveu como uma peça autônoma de uma grande engrenagem, ignorando consequências de suas decisões.

Políticas de alianças rígidas, certezas obsoletas e percepções incorretas fizeram ao fim o mundo desabar no grande conflito, que só teve seu desfecho na ainda mais mortífera Segunda Guerra Mundial 25 anos depois. Ao fim, ambos os conflitos colheram algo como 100 milhões de almas.

Não se sabe se os militares de Kennedy leram o livro, mas aquele momento acabou com a assertiva do presidente: "Não entraremos em guerra", disse, desafiando o maquinário fardado que jogava Washington em um conflito nuclear. Em 1983, ele voltaria a se mexer com grande perigo, embora menos publicidade.

Quase 60 anos depois da crise de Cuba, alguém deveria levar cópias do livro de Tuchman para Putin, Joe Biden, Duda, Zelenski e tantos outros.

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