Descrição de chapéu

Algazarra autoritária

Instituições impediram Bolsonaro de engrossar o coro de manifestações anômalas

O presidente Jair Bolsonaro no Palácio da Alvorada, em Brasília, neste mês
O presidente Jair Bolsonaro no Palácio da Alvorada, em Brasília, neste mês - Evaristo Sa/AFP

Os atos marcados para este domingo (26) no país estão envolvidos numa névoa de incerteza. Não se sabe bem a que vieram, nem tampouco quem exatamente os estimula.

Fala-se em reafirmar respaldo ao presidente Jair Bolsonaro (PSL). Cogita-se criticar o chamado centrão e a “velha política”. Ensaia-se um grito em defesa da Lava Jato.

Parte dos agitadores hostiliza o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal. Um líder caminhoneiro prometeu que haverá tumulto de norte a sul e um cerco de veículos à sede do Legislativo federal, qualificado por ele de “câncer”.

Em mais de três décadas de regime, pela primeira vez as instituições democráticas no Brasil têm de lidar com rebentações políticas abertamente autoritárias. A situação se complica porque o presidente elegeu-se com o apoio desses grupos, os quais adulou.

Não se pode perder de vista, no entanto, a dimensão ainda diminuta desses nichos de truculência e, sobretudo, a repulsa crescente que suas invectivas têm despertado em organizações civis e estatais.

Após testar as águas, Bolsonaro parece ter percebido o risco de isolamento em que incorreria se contribuísse para inflamar as manifestações deste domingo. Afirmou que não iria aos atos e desestimulou a participação de seus ministros. Também criticou os vitupérios contra o Supremo e o Congresso.

Instinto político, mais que convicção, motivou o presidente, pois o quadro não favorece aventuras.

Enquanto o governo exibe desnorteio, o Congresso tolhe prerrogativas e desejos do Planalto e vislumbra uma agenda própria de votações. O vice-presidente toma distância cautelar das confusões promovidas ou toleradas pelo titular.

O Ministério Público avança na investigação de atividades atípicas no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro, hoje senador. O Parlamento alerta para o desbordo do Executivo no decreto das armas e ameaça derrubá-lo.

Multidões foram precocemente às ruas desafiadas pela boçalidade de um ministro destrambelhado.

As instituições reprimem, assim, o elemento despótico associado à ascensão de Bolsonaro. Reiteram ao presidente que o caminho para realizar seu plano de governo não admite desvio do Estado de Direito.

A convocação temporã de atos em prol do presidente da República é uma anomalia. “Protestos a favor” de quem detém o poder raramente se revestem de intenções virtuosas. Com frequência objetivam enfraquecer os mecanismos de controle que impedem o chefe circunstancial do Executivo de atuar como se fosse um imperador.

Graças a esses mecanismos, Bolsonaro não pôde engrossar o coro dos radicais que prometem ir às ruas hoje. Ainda assim, é preciso estar atento à escala e às mensagens dessa algazarra autoritária.

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