Descrição de chapéu
Jacob Pinheiro Goldberg

Não consigo respirar; o crime enquanto metáfora

Cada um numa bolha de artifício, que pode se quebrar num abraço, num beijo

Jacob Pinheiro Goldberg

Perseguido pela Covid-19, sufocado, o mundo aspira viver. Nunca o título lapidar da obra de Susan Sontag configurou um sentido tão óbvio que lembra o bordão psicanalítico: “Só não enxergamos o óbvio”.

Quando o policial branco —e nesta ordem de raciocínio a cor da pele ultrapassa a violência do racismo— impede o “criminoso” negro de respirar e o condena à morte, a tanatofilia (interesse mórbido pela morte) simboliza a tragédia sem precedentes, nessa proporção que encurrala toda a humanidade na virtual penitenciária do próprio útero que a protege, evitando a liberdade do contágio.

O psicólogo e advogado Jacob Pinheiro Goldberg, em São Paulo - Mathilde Missioneiro - 2.ago.19/Folhapress

De forma planetária, num fenômeno de contaminação frenético, milhões de pessoas ficam entre o pânico, o constrangimento e a autocondenação à privação da liberdade e da socialização.

Tiranos e pequenos tiranos, na expressão de Carlos Castañeda, determinam em sentenças irrecorríveis que, além de confinamento e distanciamento de pelo menos dois metros, também a própria alteridade, a imagem do outro, seja escondida. É preciso usar máscara.

A Idade Média, literalmente, triunfa com seu adaptado contemporâneo, o nazifascismo. Os rituais de limpeza lembram a eugenia que exclui, em “grupos de risco”, velhos e doentes —que, até por isso, devem morrer logo, por improdutividade.

Paradoxal e contraditoriamente, o rigor obsessivo transformou-se numa armadilha labiríntica: o negacionismo infantil e paranoico do “herói” que pretende matar a morte a tiros de fuzil e o submisso funcionário da ciência, talvez à Josef Mengele, que vaticina ondas viróticas na futurologia asséptica de um mundo sem amor.

Policial sufoca George Floyd ao prendê-lo em Minneapolis (Minnesota) - Darnella Frazier no Facebook, via AFP

“Quando sua mãe se ausentava, este se divertia lançando pequenos objetos para longe de sua cama, acompanhando esse gesto com uma expressão de satisfação que tomava a forma vocal de um ‘ôôôôô’ prolongado, no qual era possível reconhecer a palavra alemã ‘fort’, isto é, ‘partiu’. Um dia, a criança entregou-se a essa mesma brincadeira com a ajuda de um carretel de madeira preso num barbante: ela lançava o carretel gritando ‘ôôôôô’, depois puxando o barbante, fazia-o retornar, gritando um alegre ‘da’ (‘viva’). Dessa forma, Ernst transformava um estado de passividade ou desprazer ligado à partida da mãe numa situação controlada.” Sigmund Freud. ​

Cada um numa bolha de artifício que pode se quebrar por um abraço, um aperto de mão, um beijo e, supremo crime, uma relação sexual.

Pelos olhos que não devem enxergar, a boca que não deve falar, o nariz que não pode respirar: estes três traidores do desejo e do prazer, absolutamente controlados pela polícia dos costumes.

Primeiro foi a Aids, através do suspeito amor homossexual, supremo pecado contra a espécie que antecipava o apocalipse. Não veio. Resistimos. Agora, com essa misteriosa fantasia fantasmática de uma realidade assassina que une o caleidoscópio da ideologia em nome da vida, deixamos de viver.

Angústia de castração daquele cordeiro morto em Minneapolis e as multidões que bradam contra o racismo nos EUA ou por democracia na avenida Paulista, o consenso é o dissenso, o direito à aventura do risco que fez Adão ser expulso do paraíso e as gerações destinadas a morrer.

O enigma se coloca mais uma vez: eis que a vida e a morte são os protagonistas desse cosmodrama atemporal e inespacial.

Mais ainda, desta vez a esperança é a promessa do direito a respirar. Res-pirar.

Jacob Pinheiro Goldberg

Doutor em psicologia, advogado, assistente social e escritor

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