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Marta Pinheiro

Equidade no mercado financeiro

Referências femininas são essenciais para encorajar mulheres a investir

Marta Pinheiro

Diretora de ESG (‘Environmental, Social and Governance’ - governança ambiental, social e corporativa) na XP Inc.

É surpreendente —para não dizer chocante— saber que nós, mulheres, só começamos nossa trajetória rumo à independência financeira há pouco mais de 50 anos. O dinheiro existe há séculos, o primeiro banco brasileiro foi fundado há mais de 150 anos, mas apenas em 1962, pelo Estatuto da Mulher Casada, as mulheres conquistaram o direito de abrir conta em banco sem depender da autorização do parceiro. A igualdade completa dos direitos civis só aconteceu com a Constituição de 1988, o que ajuda a explicar o atraso do mercado financeiro em equidade de gênero e, claro, a urgência em falar sobre o tema.

De meados do século passado para cá, muitos outros espaços foram ocupados por mulheres. Ainda em 1962, também conquistaram o direito de trabalhar fora e, para crescer na carreira, passaram a buscar formação acadêmica. Desde então, essa participação vem crescendo e se tornou predominante —o Censo Escolar de 2016 mostra que 57,2% das matrículas em universidades são preenchidas por mulheres.

No entanto, o ímpeto para quebrar barreiras e seguir adiante não tem sido acompanhado pelas oportunidades e, principalmente, por salários, que seguem inferiores. Essa situação ganha contornos ainda mais dramáticos se considerada a condição da mulher negra no país. A pesquisa Desigualdades Sociais por Cor ou Raça, conduzida pelo IBGE, revela que, em 2018, pretas e pardas receberam 44,4% dos salários de homens brancos, os mais bem remunerados do país.

Contudo, essa é uma pequena parte de uma conversa que envolve milhões de outros desafios. Discutir equidade de gênero e a situação particular da mulher negra, que sofre com todo tipo de precarização na inserção social e econômica no Brasil em qualquer comparação à mulher branca, já não responde a todo o escopo de discussões sobre gênero feminino.

Diante deste cenário complexo e desafiador, não é difícil entender os motivos que levam a uma participação tão tímida das mulheres no mercado financeiro, ainda que venha crescendo.
Neste ano, a B3, Bolsa de Valores brasileira, registrou presença recorde de CPFs femininos, correspondendo a 25,42% do total de investidores em setembro. No Tesouro Direto, investimento mais conservador, esse percentual é maior: 32% em agosto, mas ainda é muito pequeno perto da representatividade na população brasileira (51%).

Mais que investidoras, é fundamental que mulheres ocupem também seus espaços dentro do setor. Quando uma empresa assume o compromisso de equiparar homens e mulheres em seu quadro de funcionários, como fez recentemente a XP Inc., ela estimula jovens a buscar formação em cursos predominantemente masculinos, empodera profissionais que já ocupam esses espaços a se tornarem referência e estimula as mulheres que têm medo de começar a investir.

Ao evoluir nesse aprendizado, damos um passo em direção à independência financeira e, consequentemente, à liberdade de escolher os próprios caminhos, direito conquistado com uma luta contínua e que ainda está longe de chegar ao equilíbrio desejado. Sendo assim, passou da hora de, juntas, avançarmos nessa jornada.

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