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Jack Terpins

Comemorar cada minuto

Hoje, esconder-se para garantir a integridade significa distanciamento social

Jack Terpins

Engenheiro, é presidente do Congresso Judaico Latino-Americano e membro do conselho de administração do Congresso Judaico Mundial

Nesta quarta-feira (27) celebramos a vida! É o Dia Internacional em Memória às Vítimas do Holocausto, data essa que marca a libertação do campo de Auschwitz. Foi instituída pelas Nações Unidas em 2005 e desde então vem sendo lembrada.

Apesar do reconhecimento oficial e de muitas iniciativas que visam elucidar o que foi esse genocídio, ainda há os que desconhecem o assunto, os que o ignoram, aqueles que negam e os que usam a tragédia para atiçar o ódio latente que permeia parte da sociedade.

Nos Estados Unidos, onde temos a maior comunidade judaica do mundo, atrás apenas de Israel, 63% dos jovens adultos desconhecem que 6 milhões de judeus foram mortos durante o Holocausto; 48% não conseguem nomear um único campo de concentração; 12% admitem não saber sobre o assunto; e 23% disseram acreditar que se trata um mito ou não tinham certeza da resposta, segundo levantamento da Claims Conference, responsável pela difusão de conhecimento do tema.

Enquanto enfrentamos a Covid-19, brotam discursos de ódio, ideologias racistas e teorias conspirativas (em muitos casos responsabilizando os judeus e outras minorias pela pandemia). E, mais recentemente, vemos ressurgir uma onda de antissemitismo que remonta períodos medievais, quando os judeus eram “culpados” por epidemias como a peste bubônica. Desta vez, o discurso está atrelado à pandemia do novo coronavírus, culpando os judeus e outras minorias pela doença.

Ora, pesquisadores do mundo inteiro estão empenhados em estudar o vírus, o modo como ocorre a transmissão e a cura. É algo desconhecido, novo e que, indistintamente, atinge uma ou outra pessoa, independentemente de sua classe social, conhecimento, nacionalidade etc. Um dos modos de se salvaguardar é através do isolamento social.

O jornal The New York Times publicou, no início deste mês, o depoimento de um sobrevivente. Ele conta que o Holocausto tirou-lhe a infância e a adolescência e que, agora, a Covid-19 está “roubando” o tempo que lhe resta. Mesmo usando a tecnologia para estreitar seu contato com o mundo exterior, reclama de não poder mais dar palestras presenciais sobre sua experiência durante esse sombrio período da história, atividade que sobreviventes fazem como forma de preservar a memória, garantindo o futuro e eliminando possíveis manifestações antissemitas.

Traçar um paralelo entre os que vivenciaram o terror nazista e, atualmente, enfrentar esse perigo latente é como refutar o medo do inimigo declarado em contraponto ao que pouco temos ciência e ansiamos que, com a vacina, poderemos erradicá-lo. O esconder-se para garantir sua integridade hoje significa distanciamento social. A liberdade pesa na balança.

A sociedade se questiona como estará quando tudo isso acabar. Mais solidária? Prestando mais atenção a saúde? Valorizando as mínimas coisas? A verdade é que cada dia que vivemos é mais um milagre...

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