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Marcelo Dunlop

A feijoada que derrubará o governo

Brindaremos todos com uma batida gostosa, de nome 'doce ilusão'

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Marcelo Dunlop

Jornalista e cronista, gosta de samba e joga na saída nas peladas do Clube Militar

Acompanhei pela Folha o trelelê entre Jair Bolsonaro e as Forças Armadas. Não sou especialista na matéria —só entro no Clube Militar para bater minhas peladinhas—, mas, pelo que entendi, apesar da vice-presidência, sete ministérios e uns 3.000 cargos no governo, os militares cansaram de bater continência para tudo que o Bolsonaro diz ou faz. Um amigo, ex-bolsonarista, tentou fazer piada: “Relaxa, cara. É que ele sonha tanto com intervenção militar que resolveu, ele próprio, intervir nos seus militares”.

Não achei graça. Quanto mais a fervura subia, eu só lembrava dos tempos em que, bobeou, os militares botavam a tropa na rua —e, no embalo, enfiavam censores dentro das Redações de jornal e TV, uma página infeliz da nossa história escrita de 1972 a 1975. Notícias de epidemias e mortes maciças de doentes, por exemplo, eram sumariamente censuradas. Dá para imaginar isso hoje?

Mas sou otimista e creio que o Brasil já vê uma luz no fim do túnel —o túnel, infelizmente, lembra aquele do Clint Eastwood em “Alcatraz - fuga impossível”. E, se der tudo errado e a censura federal voltar com todo o gás —e porretes—, também não vou me afligir. Afinal, já tenho uma sugestão digna de Primeira Página aqui para a Folha. Ou já se esqueceram daquelas ocasiões em que os editores, diante de um artigo vetado, precisavam imprimir, às pressas, uma letra de música ou uma receita de um bom quitute? Foi assim, para desanuviar a tensão política, que desvendei um dos maiores mistérios da música popular brasileira, desde que a iguaria mítica foi cantada por mestre Paulinho da Viola: a receita do famoso feijão da Vicentina.

Primeiro, é preciso pedir perdão, pois citar tia Vicentina (1914-1987) e Bolsonaro num mesmo texto é de dilacerar o coração, obra da fatalidade. A famosa baiana da escola Portela era uma senhora de aparência digna, comedida, de fala mansa e humor inteligente. E generosa, pois transmitiu de bom grado sua receita (para 15 comensais) em entrevista à jornalista Inês D’Estrada (está no “Livro de Cabeceira da Mulher”, da editora Civilização Brasileira):

- 2 kg de feijão uberabinha
- 1,5 kg de carne-seca
- 1,5 kg de costela
- 3 kg de tripa
- 1 kg de paio
- 500 g de toucinho paulista
- 2 kg de pé de porco
- 1 kg de lombo magro
- 1 kg de bucho
- 1 kg de orelha
- 1 kg de rabinho
- 1,5 kg de toucinho de fumeiro (para o torresmo)

Em caso de uma reportagem censurada bem extensa, caberia o acompanhamento e os temperos, que a sábia cozinheira servia de modo igualitário, com um pedaço igual de carne em todos os pratos, já que ela não podia ver ninguém sair prejudicado:

- Couve à mineira refogada
- 4 folhas de louro
- 2 dentes grandes de alho
- Pimenta-do-reino
- 1 cebola grande picada (é o que engrossa o feijão)
- Arroz, laranja etc.

O refogado era o "grand finale" de Vicentina do Nascimento: ela juntava o louro, a cebola picada e o alho socado e fritava no óleo ("tsss..."), feito Bolsonaro com seus ministros. Após dourar, adicionava a pimenta e despejava tudo no panelão fumegante, com aquele feijão cor de chocolate. Lembra de fato uma feijoada comum, mas havia os segredinhos de Vicentina, num modo de preparo capaz de fazer salivar até a antiga linha-dura: primeiro, arrancam-se os pelinhos dos pés e das orelhas, quebram-se os ossos maiores com um facão e, então, escaldam-se as carnes no fogo. Mas Vicentina, republicana, deixava sempre as costelas inteiras. E desprezava as línguas.

Ah, você eu não sei, mas não vejo a hora de voltarmos a ter um daqueles tremendos pagodes, com civis, militares, médicos, heróis, ateus e evangélicos, todos juntos e vacinados —​de preferência sob o comando de tia Surica e outras discípulas de Vicentina.

E somente lá, com os risos e lágrimas temperando o feijão, e com o retorno da conversa olho no olho, sempre mais humana —“pois conversa não é só palavra, é olho, é riso, é gesto e sustos”, como notou Ziraldo—, não restará argumento que sustente este governo triste, que por nada se responsabiliza e só parece ter um objetivo: achar em quem jogar a culpa. E brindaremos todos, claro, com uma batida gostosa com o nome de "doce ilusão".

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