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Ana Vitória Lopes

Toda mãe tem um pouco de Dona Hermínia

Personagem de Paulo Gustavo vive em todas nós

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Ana Vitória Lopes

Jornalista e mãe de Liz, 1 ano e 6 meses

Nesta semana perdemos o ator Paulo Gustavo, que lutou pela vida por quase dois meses em um hospital no Rio. A Covid não levou mais um número: Paulo representa os mais de 410 mil brasileiros que tiveram suas vidas ceifadas pelo vírus, cada um com sua história particular, que deixou a família sem aviso.

A morte é assim, não manda recado. Mas, quando temos a consciência de que ela poderia ser evitada, nos revoltamos, não conseguimos crer em como é possível perder alguém dessa forma. Por que o Paulo, a Maria, o João? Por que a vacina não chegou em tempo hábil? Por que as aglomerações continuam? Todos estão surdos ou não entendem o que está acontecendo? A resposta, não sei. Mas dói, angustia, traz desesperança. Não é falta de fé em Deus, mas nos homens.

Paulo Gustavo com a mãe, Déa Lúcia
Paulo Gustavo com a mãe, Déa Lúcia - Instagram/@dealucia66

Não é preciso ser mãe para sentir a dor de Déa Lúcia, mãe do ator e inspiração para a personagem mais famosa, Dona Hermínia, interpretada brilhantemente. Nem para pensar nos filhos que ele deixa, no marido, na família. Quem não se comoveu com a perda de Paulo Gustavo?

Paulo é dessas pessoas que temos a impressão de que não vai morrer. E é verdade. O carisma, o humor simples e inteligente fez e ainda fará muita gente rir. Mas, além disso, o que você enxerga através de Dona Hermínia, a personagem inspirada na mãe de PG? Eu vejo uma relação entre mãe e filho de dar inveja, de amor, cumplicidade e orgulho mútuos —e que deve ter tido seus altos e baixos, como em qualquer família, mas que no final das contas coloca a importância de um na vida do outro acima de tudo.

Que mãe não se identifica com Dona Hermínia? Esqueça os rolinhos no cabelo. Ou não. Diga-me se você não se viu naquela fala da personagem da vida real sobre a bagunça dos filhos, o traste do ex, a preocupação em levar o agasalho ao sair de casa —afinal, vai que o tempo vira e ele(a) pega um resfriado? Aposto que você também pechincha na feira, acha a grama do vizinho mais verde, tem uma tia solteirona e reflete sobre a filha engravidar ou o filho “virar” gay.

Ou, em um contexto mais atual, jura que seu filho não vai ter acesso a televisão e celular antes dos cinco anos —mas está aí, mais uma mãe queimando a língua.

Vida de mãe é assim, e às vezes dá vontade de sumir e não voltar mais. Eles tiram a gente do sério. Um dia, não querem tomar banho; no outro, desafiam a nossa autoridade. Depois, decidem que vão dormir tarde e acordam atrasados; ou se trancam no quarto e colocam música ruim em alto e bom som.

Mãe é "tudo igual". Sonhamos em ser a melhor mãe do mundo, e a maternidade real nos mostra que contos de fada só existem nos livros. Fazemos de tudo pelos filhos, e na adolescência eles nos presenteiam com indiferença, sentem vergonha de nós.

Como pode? Depois o jogo inverte: voltam a pedir colo, conselho, dizem que nos amam e nos elegem como a melhor mãe do mundo. Esta é a Dona Hermínia. Esta sou eu e você. Quando uma mãe perde um filho, todas as mães perdem um pouco também. Por isso sentimos tanto a perda de Paulo Gustavo. Por isso ele estará sempre em nossos corações.

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