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Erika Hilton

Mais diversidade na Paulista

Espera-se que Doria cumpra decreto e instale museu da comunidade LGBTQIA+

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Erika Hilton

Vereadora (PSOL) e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de São Paulo, é negra e transvestigênere (termo mais amplo para transexual)

Todos os anos, a Parada do Orgulho LGBT leva milhões de pessoas à avenida Paulista, na região central de São Paulo, para celebrar nossa diversidade, reivindicar respeito e igualdade de direitos. A última edição nas ruas, em 2019, contou com um público de 3 milhões de pessoas e movimentou cerca de R$ 403 milhões.

Trata-se da maior parada do mundo e um dos poucos eventos que têm autorização para ocorrer na avenida mais conhecida da cidade. O público LGBTQIA+ frequenta estabelecimentos como hotéis, bares, restaurantes e baladas na região o ano inteiro, transformando os arredores em um território da nossa comunidade, que nunca teve problemas em conviver e incluir outros grupos, mesmo que a recíproca não seja verdadeira.

Fachada do Museu da Diversidade Sexual, localizado na estação República do metrô
Fachada do Museu da Diversidade Sexual, localizado na estação República do metrô - Adriana de Maio/Divulgação

Não podemos esquecer também que foi na Paulista que ocorreu um dos casos mais emblemáticos de violência contra a população LGBTQIA+, quando cinco jovens espancaram e usaram uma lâmpada fluorescente para agredir no rosto um rapaz gay, proferindo insultos homofóbicos.

Embora eu tenha começado este artigo com os números que movimentamos —pois, de fato, são impressionantes—, conseguimos alcançar tais resultados porque existimos e resistimos, porque temos nossa cultura e expressamos nossas identidades. Porque, para além de todas as tentativas de nos invisibilizar e nos matar, seguimos com muita vontade de viver, com alegria por estarmos vivas e propositivas, sendo cidadãs e cidadãos que contribuem para a nossa sociedade. ​E é essa história que o Museu da Diversidade Sexual se propõe a preservar.

Fundado em 2012, é o primeiro na América Latina com essa temática. O museu, ligado à Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, fica em um pequeno espaço na estação República do metrô —outro território histórico da nossa comunidade.

Mesmo sem uma estrutura física adequada, realiza exposições (na capital e em cidades do interior e do litoral) e atividades educativas, além de ter sido reconhecido como marco cultural pelo São Paulo Convention & Visitors Bureau.

Em 2014, o então governador, Geraldo Alckmin (PSDB), destinou o palacete Franco de Mello, localizado no número 1.919 da avenida Paulista, para ser a nova sede do museu. A ideia é que o endereço acolha a parte administrativa, o acervo permanente e exposições temporárias, mantendo também a sala de exposição do metrô República, que é um lugar de grande circulação e acesso fácil e democrático para os visitantes das diferentes regiões da cidade.

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Fachada do palacete Franco de Mello, no número 1.919 da avenida Paulista, em São Paulo - Zanone Fraissat - 28.fev.19/Folhapress

No entanto, a gestão atual, do também tucano governador João Doria, desrespeita o decreto assinado pelo antecessor e lançou um edital para a concessão do palacete, por 35 anos, para a criação de um Museu da Gastronomia.

De forma alguma somos contra a criação desse espaço. Mas não podemos tolerar e ser coniventes com mais uma tentativa de nos apagar e negar a nossa existência. A comunidade LGBTQIA+ tem direito a contar a sua própria história e preservar sua memória no local que ela elegeu como território físico e simbólico. Nada a mais, nada a menos. Apenas nossos direitos.

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