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Alon Feuerwerker

O estupro da memória

Faltou delicadeza em crítica a monumento às vítimas do Holocausto no Rio

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Alon Feuerwerker

Jornalista

Em coluna nesta Folha sob o título "Monumento construído no morro do Pasmado estupra a paisagem" (1º/11), Alvaro Costa e Silva proporciona ao leitor um conjunto de informações. Ficamos sabendo que ele tem críticas ao projeto Rio-Cidade, do então prefeito do Rio de Janeiro e hoje vereador Cesar Maia (DEM). E que não gosta do obelisco de Ipanema, no cruzamento da rua Visconde de Pirajá com a avenida Henrique Dumont. E, finalmente, que considera o recém-inaugurado Memorial às Vítimas do Holocausto, no Morro do Pasmado, em Botafogo, um estupro à paisagem e ao entorno.

Pensei em usar aqui aspas na palavra "estupro", mas vai sem mesmo, para ser fiel ao texto do colunista, que tampouco usou aspas.

E ele segue na sua coluna, explorando indiretamente a tensão entre o quinto mandamento ("Não matarás"), inscrito no monumento, e as árvores que precisaram ser cortadas para abrir espaço à construção. Talvez um protesto velado do jornalista diante do sacrifício imposto à vegetação para que se construísse ali um monumento aos milhões de mortos, ao menos 7 milhões deles judeus, da indústria de extermínio erguida pela máquina político-militar nazista.

Obelisco de 20 metros de altura no morro do Pasmado, tendo ao fundo o Pão de Açúcar - Zô Guimarães - 20.set.21/Folhapress

Não ocorreu ao colunista fazer qualquer gentileza ou delicadeza do tipo "é importante cultivar a memória do Holocausto, para que não se repita". Se quisesse reforçar a veia "crítica", que sempre acrescenta um brilho ao mais rotineiro dos textos, poderia ter dito que a obra não está à altura da homenagem pretendida. Mas não. O significado histórico do monumento parece ter passado ao largo das preocupações dele.

Fiquei matutando com meus botões: será que o jornalista teria o mesmo ímpeto crítico frio e desassombrado se fosse tratar de algum monumento às vítimas negras da escravidão? Ou às mulheres mortas em feminicídios? Ou às vítimas da violência relacionada a orientações e preferências sexuais? Sinceramente, duvido. Não arriscaria seu pescoço, pensaria duas, ou mais, vezes.

Muito menos chamaria de "estupro" um monumento em qualquer desses casos.

Não deixa de ser um sinal dos tempos. Explicar as razões deixo a cargo dos especialistas, e estou longe de ser um. E acharei normal afirmarem que só me incomodou porque sou judeu e descendente de sobreviventes do Holocausto. Mas também duvido que, se eu fosse negro e estivesse incomodado com uma crítica assim a um monumento contra a escravidão, alguém teria a coragem de dizer "você só está reclamando porque é preto".

Termino esclarecendo que não escrevo este comentário para criticar o jornalista "ad hominem", ou o jornal por tê-lo como colunista. É apenas uma reflexão sobre o tratamento descuidado recebido pelo Holocausto. Uma advertência pontual sobre certa normalização do antissemitismo, um racismo que vai se restabelecendo socialmente à medida que o Holocausto se distancia no tempo.

Esclareço, ainda, que não acuso o jornalista de qualquer tipo de preconceito ou racismo. Penso apenas que é preciso redobrar a vigilância no assunto. Para que, aí sim, não assistamos passivamente a um verdadeiro estupro da memória dos milhões de mortos nos campos de extermínio da Segunda Guerra Mundial.

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