Prisão de Lula, Márcio Cuba e nova equipe marcam 1ª semana de França

Novo governador do estado bateu boca com Doria e negociou nomeação de secretários

Joelmir Tavares
São Paulo

Com 24 horas no cargo, a primeira crise. Lula tentava se entregar à Polícia Federal para ser preso e a multidão em volta do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC não deixava. O clima em São Bernardo, no sábado (7), estava tenso.

Comentaristas de política começaram a pedir no rádio: Márcio França, mande a Polícia Militar para lá, o que está acontecendo é arruaça. Com os recados, o clamor se espalhava nas redes sociais.
Recém-chegado ao posto, o até então vice (alçado à cadeira de governador com a saída do tucano Geraldo Alckmin para disputar a Presidência) teve que tomar uma decisão.

E avaliou ser temerário e desnecessário enfiar a PM num ambiente conflagrado como aquele. Para ele, a situação estava minimamente sob controle e seria um erro atravessar um processo conduzido pela Polícia Federal.

O assunto acabou se resolvendo sem maiores consequências para França, que é filiado ao PSB e pré-candidato à reeleição. Na primeira semana no cargo, o ponto alto foi um bate-boca com João Doria (PSDB), seu provável adversário nas urnas.

Márcio França durante feira internacional de segurança pública
O governador do Estado de São Paulo, Márcio França (PSB), que pretende ser candidato, em visita a uma feira internacional de segurança pública e corporativa - Divulgação/Governo do Estado de São Paulo


O tom da troca de hostilidades, feita via entrevistas individuais à Jovem Pan, foi mais ou menos este: o tucano chamou o socialista de “Márcio Cuba”, como parte da tática de associá-lo à extrema esquerda; França falou que o ex-prefeito é mimado e parecia estar possuído ao fazer as críticas.

A rusga foi o momento de maior exposição do novo chefe do Executivo na semana.

Antes de se recolher no gabinete para conversas sobre governo e secretariado, que tomaram seu tempo de quarta-feira em diante, ele teve poucos compromissos públicos.

Na segunda-feira (9), inaugurando a agenda oficial, foi a São Vicente e anunciou R$ 2 milhões para a duplicação de uma avenida —verbas para pavimentação devem ser frequentes nos próximos meses.
Popular na cidade do litoral como ex-vereador e ex-prefeito (e fiador da eleição do atual prefeito, seu cunhado), França foi abraçado e tirou fotos.

A cena foi outra no dia seguinte, evidenciando o principal problema que ele mesmo admite enfrentar no sonho da reeleição: o governador do estado é, para muitos paulistas, um ilustre desconhecido.

Convidado de um evento do mercado de construção pela manhã e de uma feira de segurança à tarde, o chefe do Executivo circulou tranquilamente pelos dois lugares. Foi reconhecido por um ou outro.

Na agenda das 14h, partiu de França a pergunta ao grupo de repórteres posicionados perto de uma porta: “Querem falar comigo?”. Deu entrevista por 3min45s e partiu calmamente, andando. Os jornalistas queriam mesmo era ouvir o ministro da Segurança, Raul Jungmann, que sairia da mesma porta instantes depois.

França diz que pesquisas próprias, que no início do ano mostravam 7% da população sabendo quem ele é, depois da posse já lhe conferem uma taxa de conhecimento de 20%.

Por outro lado, considera ter alguns fatores favoráveis: a visibilidade que virá com a máquina do estado na mão, o apoio de prefeitos (sondagem da Associação Paulista de Municípios mostra que ele é o preferido de 41% dos gestores) e os 13 partidos que já prometeram aderir à sua campanha.

Das escolhas de secretários já oficializadas, ao menos uma atende à indicação de legendas da coligação: a de Cícero Martinha, do Solidariedade, para a pasta de Emprego e Relações do Trabalho. A maioria das 25 secretarias segue com a titularidade indefinida.

Na mais ruidosa das nomeações já feitas pelo socialista, ele manteve um secretário da gestão Alckmin citado na delação da Odebrecht como operador do caixa dois da campanha do tucano em 2014. Marcos Monteiro migrou do Planejamento para o Desenvolvimento Econômico.

Secretário e ex-governador negam irregularidades. A gestão França defendeu Monteiro e as investigações do caso.

Outro tucano, Bruno Covas, também foi tratado com deferência no Bandeirantes na semana que passou. França chamou o prefeito da capital (apoiador da candidatura de Doria) para selarem pacto pela manutenção das parcerias entre governo e município.

Sorridentes, gravaram vídeo reiterando a relação institucional. França compartilhou as imagens em suas redes sociais, que ele mesmo alimenta.

Prefeito Bruno Covas ao lado do governador Márcio França
O Governador do Estado de São Paulo, Márcio França, durante encontro com o Prefeito de São Paulo, Bruno Covas - Divulgação/Governo do Estado de São Paulo

COMEÇOU BEM

No Twitter, o governador costuma compartilhar mensagens de usuários desconhecidos que o elogiam. Na quarta, desavisadamente, repostou a frase de um perfil que aparentemente o aplaudia: “Começou bem o Márcio França!”.

Só que o tuíte era irônico —se referia ao post anterior, crítico a uma afirmação do governador (ele havia dito que a taxa de homicídios no estado é sensacional, ao fazer comparação com o índice de outros lugares, como Miami).

A noite de quinta para sexta foi a primeira em que França e a mulher, Lúcia, dormiram na ala residencial do palácio. A primeira-dama assumiu a presidência do Fundo Social de Solidariedade, braço assistencial do governo.

Os dois assistiram recentemente à primeira temporada da série “La Casa de Papel”. A segunda terá que esperar um intervalo na agenda do casal.

Na terça, sob a justificativa de ganhar tempo, França requisitou um voo para ir à feira sobre segurança, em um centro de exposições na zona sul. O trajeto, que de carro levaria cerca de 20 minutos, durou menos da metade.

O helicóptero oficial do governo é o mesmo que foi cedido no sábado anterior para levar Lula da sede da PF ao aeroporto de Congonhas, já preso.

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