Projeto confere veracidade de 106 boatos sobre eleições em dois meses

Das peças analisadas, 98 são falsas e ao menos duas foram encontradas em redes oficiais de políticos

Sarah Mota Resende
São Paulo

A campanha eleitoral chega ao fim do primeiro turno com as notícias falsas em alta. Em dois meses, o Comprova totalizou, até esta sexta-feira (5), 106 verificações, das quais 98 falsas. Foram 34 checagens em agosto e 72 em setembro e nos primeiros dias de outubro.

Capitaneado pelo First Draft, da Universidade Harvard, nos EUA, o projeto, uma coalizão de 24 veículos de mídia brasileira, dentre eles a Folha, que visa identificar, checar e combater rumores, manipulações e notícias falsas sobre as eleições, começou a atuar no Brasil em 6 de agosto, dez dias antes da corrida eleitoral começar oficialmente.

Confira aqui todos os boatos checados.

Carinhas dos candidatos a presidência final
Carinhas dos candidatos a Presidência nas eleições de 2018 - Folhapress

Líder nas pesquisas de intenção de voto, Jair Bolsonaro (PSL) foi peça de 33 verificações. Já os petistas Luiz Inácio Lula da Silva, que teve sua candidatura barrada pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral), e Fernando Haddad, vice que assumiu a cabeça da chapa, foram alvo de 37 boatos.

Das peças analisadas pelo Comprova, pelo menos duas fake news foram encontradas em redes sociais oficiais de políticos.

No Facebook, o deputado Marco Maia, do PT, publicou um vídeo que mostrava, sem mencionar seu nome, Catarina Martins, deputada portuguesa e coordenadora do partido Bloco de Esquerda, criticando a prisão de Lula.

A publicação dizia que a Europa havia pedido à ONU “retaliação ao Brasil pela prisão ilegal” de Lula.

Mas o pedido nunca existiu. Ao ser contatada pelo Comprova, a deputada retratada no vídeo declarou desconhecer tal solicitação e que as imagens eram uma montagem. O mesmo foi confirmado pelo partido Bloco de Esquerda.

O Comprova também não encontrou registro de qualquer pedido por parte da União Europeia dirigido às Nações Unidas sobre retaliações pela prisão de Lula

Após a verificação do Comprova, o vídeo publicado no Facebook de Marco Maia foi apagado. Em nota, a assessoria do petista “agradeceu a investigação” do projeto e afirmou acreditar “no papel da imprensa neste trabalho de verificação de fake news”.

Em outro caso checado pelo Comprova, foi localizado o dono da voz de um áudio de apoio a Bolsonaro que circulava pelo WhatsApp sendo falsamente atribuído ao padre Marcelo Rossi, famoso na década de 1990 por lançar hits católicos.

O áudio foi publicado no YouTube de Bolsonaro com o título “Padre Marcelo explica voto em Bolsonaro”. Mesmo vídeo também foi publicado por Carlos Bolsonaro, filho do presidenciável do PSL, em sua conta no Twitter.

O Comprova localizou o dono da voz, apóstolo Rina Seixas, da igreja Bola de Neve. Ele nunca se apresentou como Rossi. Sem sua autorização, trecho de uma pregação religiosa sua foi tirado de contexto e viralizou com autoria falsa.

Rossi desmentiu ser o dono da voz em suas redes sociais. “Além de ser uma notícia mentirosa, eu jamais me meto em política”, disse o religioso católico. Horas depois de ser publicado, o vídeo foi apagado das contas de Bolsonaro e de seu filho.

Outra verificação do Comprova atestou, por meio de laudo elaborado pelo Instituto Brasileiro de Peritos, que uma voz atribuída a Bolsonaro não era verdadeira.

Na gravação enganosa, o homem que se passava por Bolsonaro xingava o general Hamilton Mourão, vice do candidato à Presidência, e uma enfermeira do hospital onde o capitão reformado estava internado para se recuperar de um atentado a faca.

No áudio viral falso, o homem ainda dizia que não aguentava mais ficar no hospital e que o “teatrinho acabou”. A fala alimentou teorias falsas de que o atentado sofrido por Bolsonaro seria forjado.

De acordo com laudo elaborado por peritos, foi percebido no áudio falso, por exemplo, um sotaque típico do interior na fala do fonema “r”, enquanto na fala de Bolsonaro isso não aparece.

Também foram percebidas diferenças na ressonância, articulação, velocidade de fala e desvio fonético entre amostras comparadas —o áudio falso e uma entrevista de Bolsonaro a um programa de televisão.

Os partidos também sentiram o peso da desinformação e investiram em táticas a fim de combatê-la. Das cinco legendas com os candidatos mais bem colocados na mais recente pesquisa Datafolha, apenas o PDT, de Ciro Gomes, não tinha uma seção voltada a desmistificar notícias falsas em seu site.

Os outros quatro, PSL, de Bolsonaro; PT, de Haddad; PSDB, de Geraldo Alckmin; e Rede, de Marina Silva, investem no assunto em seus sites e em páginas de redes sociais.

Até o TSE precisou investir em desmentidos. No Comprova, seis peças de desinformação envolvendo urnas eletrônicas e pesquisas foram verificadas.

Uma delas dizia que o TSE "entregou códigos de segurança das urnas eletrônicas para venezuelanos", o que não é verdade.

De acordo com o texto enganoso, a empresa, com os tais códigos, poderia gerar votos falsos, fraudando as eleições brasileiras.

Segundo o texto enganoso, a entrega dos códigos teria sido feita a uma empresa comandada por venezuelanos, vencedora do edital da licitação nº 106/2017. 

A licitação não previa entrega de códigos da urna nem chegou a ser concluída, pois as duas únicas empresas interessadas foram desclassificadas.

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