Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Bolsonaro e Moro reforçam 'melhor cenário' para combate à corrupção, diz Dallagnol

Para coordenador da Lava Jato, conjuntura favorece aprovação de projeto para enfrentar problema

Joelmir Tavares
São Paulo

Duas razões ajudam a acreditar que o momento é muito propício para o combate à corrupção no Brasil, na opinião do procurador da Lava Jato Deltan Dallagnol: a eleição de Jair Bolsonaro (PSL) e a ida do ex-juiz Sergio Moro para o novo governo.

“Não vou avaliar o presidente eleito de modo nenhum, vou avaliar uma atitude, uma manifestação específica dele: ele manifestou apoio em relação às dez medidas contra a corrupção, o que é um sinal ótimo de aprovação de medidas anticorrupção”, disse o membro do MPF (Ministério Público Federal) nesta terça-feira (27), em São Paulo.

“O que eu vou dizer sobre o novo ministro da Justiça? Ele é alguém extremamente eficiente, viu? E ele está indo lá justamente com essa pauta, essa agenda, de evitar retrocessos e promover avanços na causa contra a corrupção”, prosseguiu.

O procurador da Lava Jato Deltan Dallagnol durante palestra no 2º Encontro sobre Ética nos Negócios, na terça-feira (27), em São Paulo
O procurador da Lava Jato Deltan Dallagnol durante palestra no 2º Encontro sobre Ética nos Negócios, na terça-feira (27), em São Paulo - Gustavo Flauzino/Divulgação

​​Dallagnol citou o próximo presidente e o futuro titular da Justiça ao defender a necessidade de análise do pacote de medidas contra a corrupção elaborado por entidades como Transparência Internacional e Fundação Getulio Vargas. “A gente tem a melhor conjuntura para a aprovação de um projeto como esse.”

O conjunto de propostas foi levado ao Congresso Nacional em agosto e é tratado como bíblia por Moro —no voo para o Rio quando aceitou o convite de Bolsonaro para ser ministro, o então juiz levou um exemplar do livro com o compilado de medidas.

Outras razões que Dallagnol considera favoráveis agora para o avanço da pauta anticorrupção são a renovação no Congresso, com a entrada de novos parlamentares, e o fato de que parte dos eleitos se comprometeu com a tramitação do plano na Casa.

Coordenador da força-tarefa da Lava Jato no MPF do Paraná, o procurador participou do 2º Encontro sobre Ética nos Negócios, evento em um centro de convenções da capital paulista que também recebeu convidados como o filósofo francês Luc Ferry, Monja Coen e o historiador e professor Leandro Karnal.

“Existirão forças contrárias poderosas, que não vão querer mudanças. Essas instituições e pessoas que querem a mudança vão precisar da tua ajuda. Você está disposto a ajudar?”, indagou o paranaense à plateia, formada por empresários, executivos e estudantes.

“Qual é o seu papel hoje, como cidadão, como profissional e como líder? Este é um momento especial no nosso país, nesta conjuntura crítica em que a gente vive, na luta contra a corrupção e na luta pela reafirmação da democracia”, discursou.

O ingresso para o dia de palestras custou R$ 1.100. A organização não divulgou o valor pago a Dallagnol pela participação. Abordado pela Folha na saída do auditório, ele não quis dar entrevista.

'Maçãs podres'

O procurador disse no palco ouvir pessoas que falam que a Lava Jato vai mudar o país, mas se mostrou cético quanto à ideia de que a operação é um divisor de águas. “Vocês estão errados se vocês pensam assim. A Lava Jato é, sim, um passo na direção certa, do império da lei, do Estado de Direito, mas não é um passo suficiente.”

“O que ela faz é tirar maçãs podres do cesto. Mas não basta retirar as maçãs podres do cesto. Você precisa mudar o ambiente que faz aquelas maçãs apodrecerem”, falou.

Se o país não avançar para além da Lava Jato, sustentou Dallagnol, haverá “apenas a troca dos rostos dos corruptos no poder”. Ele afirmou ao público que, no dia das eleições, ficou exultante ao ver caciques partidários envolvidos em escândalos derretendo diante dos seus olhos.

Ao discorrer sobre o tema do seminário, a ética nos negócios, o procurador ressaltou a necessidade de compliance —termo que ganhou popularidade após a megaoperação e designa o esforço das empresas para agir em conformidade com leis e regras de concorrência.

“A ética vale a pena mesmo nos negócios. Todos nós em geral somos vulneráveis a pressões e podemos acabar errando, por isso é muito importante a gente criar um ambiente favorável ao acerto”, afirmou.

O representante do MPF procurou ainda refutar a ideia comum de que “a corrupção, a falta de ética, funcionam como uma espécie de graxa nas engrenagens do motor dos negócios”. Para ele, em vez de graxa, práticas erradas são como areia.

Várias pessoas que confessaram crimes na Lava Jato disseram que a roda no mercado de infraestrutura girava à base da propina, ressaltou Dallagnol, alertando para o alto grau de tolerância da sociedade com práticas antiéticas —algo que, acredita, está mudando a partir da operação.

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