Descrição de chapéu Legislativo Paulista

Novata descobre política em crise de choro e é eleita sem jingle e com bebê no colo

Eleita pela Rede, Marina Helou superou grave infecção e hoje lidera projetos de ONGs

Laura Mattos
São Paulo

​Marina Helou, 31, quer ser chamada pelo nome e não de deputada. Vai reformar o gabinete para colocar sua mesa no meio da equipe e criar um espaço para crianças e para amamentação. Pretende ir trabalhar de bicicleta e entrou em um grupo que pede a instalação de chuveiros em banheiros da Assembleia Legislativa de São Paulo.

Eleita deputada estadual pela Rede com 39.839 votos, é representante do forte movimento de renovação das últimas eleições e de uma nova maneira de fazer campanha.

Líder em projetos de ONGs ligados à educação e à sustentabilidade, teve a primeira experiência nas eleições de 2016, como candidata a vereadora, aos 29 anos.

Retrato feito na Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) da deputada estadual Marina Helou (REDE)
Retrato feito na Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) da deputada estadual Marina Helou (REDE) - Bruno Santos/Folhapress - Produção Daniela Ribeiro

Formada em administração pública pela FGV, trabalhava na Natura e, à época, pediu um mês de licença não remunerada, que juntou com as férias para ficar dois meses atrás de eleitores. Afastou os móveis da sala de seu apartamento e montou ali um comitê com cara de startup, com uma pequena equipe de voluntários e a parede cheia de post-its.

Conseguiu R$ 130 mil com vaquinhas entre familiares, amigos e simpatizantes e pôs em ação a estratégia que chama de “três erres” (3 Rs): rede, roda e rua. A panfletagem nas ruas, algo tradicional, foi mantida, mas a concentração era na participação em rodas de conversa, em locais como universidades, ONGs e grupos de jovens líderes, e a forte presença nas redes sociais, especialmente no Instagram.

O discurso criava uma marca a partir de um tripé: mulher, jovem e sustentabilidade. Era uma campanha que gerava simpatia, conta Marina, mas vista com desconfiança.

“Muita gente achava legal, fofo até, mas dizia que não ia conseguir nem 2.000 votos, que ninguém se elegia com menos de R$ 1 milhão”. Ela teve 16.212, mais do que três vereadores eleitos, mas não entrou por causa do quociente eleitoral da Rede.

Marina foi convencida por amigos a se candidatar a deputada estadual, apesar de ter acabado de dar à luz Martin, que nasceu prematuro. Na casa nova, um sobrado em uma rua fechada da Vila Madalena, na zona oeste, a poltrona de amamentação foi poupada na operação arrasta móveis, e lá Marina passou reuniões e reuniões com o bebê no colo.

Com um orçamento maior, R$ 340 mil, reforçou os três Rs e novamente deixou velhas práticas de lado. Ela se esforça para lembrar a letra de um jingle que ganhou de presente para a campanha e não usou. “Acho meio estranho usar jingle.”

Mas admite que nem tudo que é novo é necessariamente bom, citando inclusive a renovação de 55% na Assembleia Legislativa de São Paulo. “Entrou muita gente despreparada e saíram alguns antigos que eram competentes.”

Nessa onda, o conservadorismo ganhou espaço, com o PSL de Bolsonaro se tornando a maior partido (15 deputados), e houve o fortalecimento da “bancada da bala”, formada por militares e civis que se alinham ao discurso do governador João Doria (PSDB) de que “a polícia tem que atirar para matar”.

Definitivamente, não é a turma de Marina, que tem ideias mais progressistas, ligadas aos diretos humanos. Mas ela colocou a segurança pública em sua campanha e quer diálogo com os parlamentares militares.

“São 15 com patente”, lembra a deputada, que acha engraçado quando comentam que nasceu no dia do soldado, 25 de agosto. “As pessoas sempre falam isso, quando eu era pequena, achava que era o soldadinho de chumbo”, diz, rindo. Entre suas propostas na área estão o investimento em delegacias da mulher e na carreira policial, com a valorização salarial.

Sustentabilidade

Mas a sustentabilidade é o centro das atenções de Marina, que fez o ensino fundamental e o médio na Rudolf Steiner, escola em um terreno de 16.600 m2 repleto de árvores no Alto da Boa Vista, zona sul, da metodologia Waldorf, que valoriza as artes, o movimento e o contato com a natureza.

“Tudo o que fazíamos girava em torno do respeito ao ambiente. Eu achava que o mundo todo era assim. Quando saí da escola, percebi que era um valor que eu havia adquirido e, aos poucos, entendi que é um desafio da nossa época e que eu deveria trabalhar por isso.”

Ela pretende propor uma CPI da água e do esgoto. “Precisamos entender como, em um estado com o segundo maior orçamento da América Latina, 14% da população ainda não têm acesso a esgoto e por que quase 50% do esgoto não é tratado”, diz.

A entrevista à Folha, em sua casa, que muito girou em torno da sustentabilidade, foi em certo momento interrompida pela campainha. Marina foi ao portão e voltou rindo: “Era uma vizinha reclamando que a moça que trabalha aqui está desperdiçando água lavando o quintal. Bem comigo, que sou a que mais fala disso! Eu agradeci e disse que vou reforçar para ela ter cuidado. Devia ter contado que os produtos de limpeza são biodegradáveis”, comentou, brincando.

Foi na escola também que Marina teve as primeiras vivências políticas. Reativou o grêmio e trabalhou na organização de um encontro na Suíça com estudantes de vários países –em abril deste ano, ela participa como palestrante convidada do evento.

Nessa época da adolescência, fez dois intercâmbios em escolas Waldorf, de um mês no Reino Unido e de três meses na Alemanha, e começou a atuar em projetos sociais, em um deles dando aula de artes para crianças da comunidade de Paraisópolis, zona sul.

Retrato feito na Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) da deputada estadual Marina Helou (REDE)
Retrato feito na Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) da deputada estadual Marina Helou (REDE) - Bruno Santos/Folhapress - Produção Daniela Ribeiro

“Sempre foi uma aluna engajada e atenta ao entorno”, lembra Constanza Kaliks, 51, professora de matemática e tutora da sala de Marina do 9º ano ao 3º do médio.

Foi com a intenção de se dedicar ao terceiro setor que optou pela faculdade de administração pública. Fez estágio em uma consultoria de sustentabilidade e trabalhou em uma startup de bandejas biodegradáveis e em outra de coleta de lixo sustentável.

Foi como universitária, conta, que viveu uma epifania que posteriormente iria levá-la à carreira política. Como parte da disciplina formação integrada para a sustentabilidade, que tinha acabado de entrar no currículo da FGV, sua turma foi visitar hidrelétricas em Rondônia e a construção da usina de Belo Monte, no Pará. Os alunos dormiram em alojamentos das obras, conversaram com funcionários, moradores e prefeitos para pesquisar os impactos desses empreendimentos na região.

“Foi um choque de contato com a realidade. Certa noite lá, tive uma crise. Chorava e chorava sem parar. Foi uma epifania. Não entendia direito o que estava acontecendo, mas percebi que as mudanças em larga escala na sociedade passam pela política.”

Sobrevivência incerta 

Outro episódio marcante se deu logo que saiu da faculdade. Uma infecção urinária assintomática chegou aos rins e evoluiu para uma septicemia, uma infecção generalizada. Os médicos do Hospital São Luiz disseram para os pais rezarem, por alguns dias a sua sobrevivência era incerta.

Passou dez dias na UTI e outros 20 internada. Curada, adquiriu um sentido de urgência. “Eu queria crescer de outra forma”. Decidiu tentar uma vaga na Natura, queria aproveitar as suas convicções no mercado corporativo, e a empresa, ela diz, era o grande case de autodesenvolvimento, do engajamento de funcionários em projetos.

Participou de ações para a inclusão de pessoas com deficiência e da criação da área de diversidade, com metas como o aumento do número de mulheres em cargos de liderança.

Pela Natura, acompanhou a fundação da Rede Empresarial de Inclusão Social (Reis), em que ampliou o contato com ONGs e com o poder público. Permaneceu na empresa por oito anos, desligando-se somente após ser eleita.

Katy Zambotto, 41, gerente de recursos humanos que foi gestora de Marina na área de marketing e sustentabilidade, diz que ela, desde quando era trainee, apresentava propostas ligadas a “temas que são tensões na sociedade”, como a questão de gênero.

“Quando decidiu se candidatar, conversou comigo. Não tínhamos um procedimento interno para essa situação e, com ela, criamos um regulamento que concede licença não remunerada, durante a campanha eleitoral, a funcionários que queiram concorrer. Tornou-se um modo de incentivar a participação política sem envolver a empresa.”

A vontade de encarar as eleições surgiu durante as manifestações de 2013, lembra Marina. “Eu observava aquilo e sentia uma sensação de que não dava mais para esperar.” Em 2015, passou na seleção da Raps (Rede de Ação Política pela Sustentabilidade), que tem entre os objetivos formar líderes políticos. Comecei a conviver com pessoas de todos os partidos, de muitos espectros ideológicos. Tenho amigos do PSOL ao Novo.”

Dessa onda de movimentos suprapartidários surgidos a partir da ideia de que “a velha política tinha chegado ao limbo”, nas palavras de Marina, fez parte ainda do Acredito, Nova Democracia e Renova BR.

Nesse universo está a bandeira da participação política dos cidadãos. Marina diz que pretende fazer disso uma rotina. Abriu inscrição para quem quisesse ir à Assembleia discutir como deveria ser seu futuro gabinete. “O interesse foi enorme, e a maioria nunca havia ido até lá”. Também realizou um processo seletivo para montar sua equipe, algo inusual. “Foram mais de 2.000 inscritos para 9 vagas.”

É um modo de proceder que gera certo estranhamento na Casa, ela conta, ainda mais quando o tema passa da reforma do gabinete para o apoio ou a oposição ao governo.

“Está maluco isso lá. As pessoas ficam tentando me colocar em algum bloco. Isso não vai acontecer. Eu vou votar a favor de um projeto do Doria se achar que é bom e contra se achar ruim.” Justamente por isso, ainda não definiu seu candidato à presidência da Assembleia. “Isso não vai ser decidido pelo partido, mas por mim. E não vou escolher só para marcar posição, quero alguém mais conciliador.”

É o tom da independência que adota também para opinar sobre o governador. “Ele montou um time bom, mas precisa se concentrar em construir algo com mais profundidade, pensando no estado e não no próximo projeto pessoal dele na política.”

Da mesma forma evita posição radical sobre o presidente Jair Bolsonaro (PSL). “Ele se mostra disposto a realizar coisas importantes, como a reforma da Previdência, mas tem um lado bem ruim, com muita gente na equipe que não tem a menor ideia do que está fazendo lá, a exemplo da educação.” Essa é uma área a que Marina promete se dedicar, especialmente na primeira infância, período do nascimento até os seis anos.

Foi com a chegada de bebês e suas mães, aliás, que a conversa com a Folha terminou. Era o grupo de aulas de música compartilhadas da qual faz parte seu filho, que está com 1 ano e 4 meses. E Marina arrastou os móveis para mais uma reunião.


Perfil

Idade 31 anos​

Nascimento São Paulo (SP)

Partido Rede

Estado civil Casada

Cor/raça Branca

Grau de instrução Superior completo

Ocupação Gerente

Reeleição Não

Descrição dos bens declarados do parlamentar Apartamento, aplicação de renda fixa, depósito bancário em conta corrente no país, veículo automotor terrestre e outras participações societárias

Valor declarado dos bens  R$ 1.531.000

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.