Estrela em alta, governador do RS incomoda planos de Doria no PSDB

Com ou sem intenção, Eduardo Leite é visto por aliados do paulista como obstáculo rumo a 2022

São Paulo

O PSDB entrou 2019 sob a expectativa da consolidação do poder do governador João Doria (SP) sobre a sigla, pavimentando o caminho para sua provável candidatura a presidente em 2022.

O tucano conseguiu boa parte de seus objetivos, embora tenha sido pego de surpresa pela emergência de um velho conhecido dos políticos que se destacam na agremiação: o adversário interno, que impede a unificação do partido.

Desta vez, a dinâmica está a cargo do jovem governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite. Eleito na usual alternância de poder de seu estado, ele virou o talismã da velha guarda tucana, que não se vê representada por Doria.

Leite, 34, pode não ter comprado a briga para si de forma intencional, mas alguns de seus gestos neste ano foram assim interpretados por tucanos alinhados ao paulista.

João Doria, então candidato ao governo de SP, cumprimenta o então postulante ao governo gaúcho, Eduardo Leite, em reunião da executiva do PSDB em 2018
João Doria, então candidato ao governo de SP, cumprimenta o então postulante ao governo gaúcho, Eduardo Leite, em reunião da executiva do PSDB em 2018 - Pedro Ladeira - 9.out.18/Folhapress

Aliados de Doria viram nesses movimentos, que incluíram a negativa de disputar a reeleição em 2022 e o famoso “estou à disposição do partido”, uma aprovação tácita à especulação sobre seu papel na sucessão presidencial.

O gaúcho percebeu que poderia ser alvo do fogo amigo na semana que antecedeu a convenção nacional do PSDB, em 7 de dezembro.

Nela, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso incluiu o nome dele junto ao de Doria e ao do apresentador Luciano Huck como alternativas para o dito centro político se viabilizar em 2022.

Decano do tucanato, FHC é inimputável e reincidente. Numa entrevista à Folha em 2017, ele havia incluído o então prefeito paulistano Doria e o mesmo Huck numa lista de encarnações do “novo” —só para agastar tanto o hoje governador quanto o então presidenciável da sigla Geraldo Alckmin (SP).

Além disso, o presidente da agremiação, Bruno Araújo, concedeu entrevista ao jornal Valor dizendo que Doria não era a única alternativa tucana para 2022.

Fiador da posição de Araújo, Doria lhe passou uma descompostura ao telefone antes da convenção.

Na convenção, Leite tratou de acalmar os ânimos. Primeiro governador a falar, desceu do palco e foi abraçar Doria, pregando que não havia “disputa nenhuma” entre eles.

Recebeu afagos posteriores na mesma linha, embora com toques sutilmente hierárquicos: o paulista de 62 anos o chamou de “amigo jovem”, um recado entendido por partidários do gaúcho.

As armas foram recolhidas, mas estão carregadas. No entorno de Doria, Leite é visto como um instrumento da velha guarda para desgastá-lo.

Entre representantes dessa ala, que acompanharam a feia disputa entre o paulista e o grupo do deputado Aécio Neves (MG) pelo comando da bancada do partido na Câmara com preocupação, Leite é elogiado diuturnamente.

Ele acabou o ano em alta, conseguindo aprovar na Assembleia e sancionar uma reforma previdenciária que poderá começar a ajudar a desafogar seu estado, um dos mais encalacrados do ponto de vista fiscal da União, ao lado do Rio de Janeiro.

No segundo quadrimestre, a proporção dívida líquida/receita líquida dos gaúchos era de 226%, acima das duas vezes permitidas pela Lei de Responsabilidade Fiscal. São Paulo está ainda dentro do limite, com 173%.

Segundo os entusiastas de seu nome, o importante agora é nacionalizar Leite, o levando para participar de eventos partidários e estimulando a publicação de artigos.

Mas tais movimentos podem colocá-lo novamente na mira de aliados de Doria.

De todo modo, eles minimizam o poder do gaúcho, que foi prefeito de Pelotas de 2013 a 2017. Muito jovem e desconhecido no resto do país, ele teria uma ladeira muito íngreme a subir.

E o peso político e econômico de São Paulo é incomparável, como a candidatura do então governador Alckmin à Presidência em 2018 prova: mesmo com todos os indicativos de que iria fracassar, o tucano institiu —só para acabar humilhado com cerca de 4% dos votos no primeiro turno.

Ainda assim, os pró-Doria dizem que a gravidade falará mais alto.

Não que a vida do paulista esteja fácil. Além de lidar com os problemas diários, Doria passou o ano numa disputa com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que já se colocou como candidato à reeleição na prática.

Tendo sido eleito em 2018 com ajuda do voto bolsonarista, o tucano buscou afastar-se, mas há dificuldades no processo. Eles transitam numa faixa semelhante da população, e se as condições econômicas e de gestão estiverem mais favoráveis em 2022, é incerto qual discurso faria esse voto migrar do presidente para o governador.

Observadores equidistantes ponderam que é ali e na composição de alianças que mora o maior problema de Doria —ou de Leite, na hoje improvável hipótese de ele virar candidato a presidente.

O gaúcho até faria contraponto ideológico a Bolsonaro, mas há entre estrategistas dos partidos a certeza de que não se pode abandonar o eleitor conservador que surgiu com força em 2018.

Aliados tradicionais estão preocupados com seus quintais neste ano, PSD e DEM à frente, e o reforço e possível fusão entre siglas após a eleição municipal tenderá a elevar o preço de acertos para 2022.

Esses tucanos mais neutros apontam, de todo modo, que o partido só quase reconquistou a Presidência em 2014 porque houve união de fato entre as forças concorrentes em torno do nome de Aécio.

Para eles, a sigla deveria apaziguar-se se quiser voltar a ter alguma chance de exercer protagonismo nacional.

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