Bolsonaro cobra do Congresso votações, mas nega incitar ataque ao Legislativo

Em live, presidente fez ataques à imprensa e disse ser de 2015 vídeo com imagem de facada de 2018

Brasília

Em sua live semanal, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) cobrou do Congresso a aprovação de projetos enviados pelo governo, mas negou que tenha incitado a população a ir às ruas em manifestação contra o Legislativo.

Sob críticas de congressistas e do Judiciário, o presidente tem sido pressionado a tentar aplacar uma crise política que ele mesmo criou ao ter compartilhado um vídeo em apoio a ato convocado para 15 março contra o Congresso.

Live de quinta-feira com o Presidente Jair Bolsonaro
Jair Bolsonaro durante live nas redes sociais nesta quinta (27) - Reprodução

Nesta quinta (27), Bolsonaro negou que esteja criando um ambiente público contra os demais Poderes, mas enumerou uma série de medidas do governo que, segundo ele, não avançam no Congresso.

Além disso, fez ataques à imprensa e chegou a dizer que era de 2015 o vídeo que ele compartilhou, apesar de haver imagens da facada que levou em setembro de 2018.  

"Gostaria de fazer muita coisa pelo Brasil, mas estou há seis meses com um projeto de lei dentro da Câmara para que a validade da carteira de motorista passe de cinco para dez anos, mas não vai para frente. Estou também há seis meses com um projeto fazendo com que você perca a sua carteira depois de completar 40 pontos no ano, e não 20, como é atualmente", disse.

Apesar de destacar as propostas de mudanças nas regras de trânsito, o presidente não citou entre suas prioridades em análise hoje no Congresso a agenda econômica do ministro Paulo Guedes (Economia).

A PEC (proposta de emenda à Constituição) do Pacto Federativo e a emergencial, por exemplo, são consideradas fundamentais para ajudar o Brasil a retomar o crescimento econômico.

"Fui parlamentar por 28 anos, não estou inventando nada, e não estou ofendendo o Parlamento brasileiro, muito pelo contrário, quero um Parlamento independente e atuante. E a Justiça também, independente e atuante. E o Executivo também, nós somos independentes. Não existe qualquer crítica a eles, agora, eu tenho que dar uma satisfação porque, na ponta da linha, o povo cobra muito mais de mim do que do Legislativo ou do Judiciário", disse.

A preocupação do presidente é que o episódio dos protestos inviabilize de vez propostas de interesse do governo neste ano.

Na live, o presidente voltou a falar que não há crise.

"Nós estamos cada vez mais próximos de chegar a essa união, as nossas decisões ajudam o Brasil, e não podemos ficar como, infelizmente, não os presidentes dos Poderes, eu não vi nenhum presidente de Poder falar sobre essa questão do dia 15, que eu estaria estimulando um movimento contra o Congresso e contra o Judiciário, não existe isso. Agora, nós não podemos nos envenenar com essa mídia podre que nós temos ai, em grande parte, podre que nós temos aí."

Nas redes sociais, usuários compartilharam convocações para o dia 15 com mensagens autoritárias —há grupos que pedem, por exemplo, intervenção militar.

O protesto estava previsto desde o fim de janeiro, mas mudou de pauta e foi insuflado após o ministro-chefe do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), general Augusto Heleno, ter chamado o Congresso de chantagista na disputa entre Executivo e Legislativo pelo controle do Orçamento deste ano.

Sem citar diretamente o vídeo compartilhado por Bolsonaro, o presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), ministro José Dias Toffoli, afirmou que não há democracia sem um Legislativo atuante e um Judiciário independente.

Já o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), cobrou respeito às instituições democráticas e disse que criar tensão institucional não ajuda o país a evoluir. O presidente do Senado, David Alcolumbre (DEM-AP), não comentou.

Bolsonaro disse na live estar apanhando de "praticamente quase toda a mídia brasileira" por ter compartilhado o vídeo pelo WhatsApp.

"O recado para a imprensa: não vou desistir, vou buscar fazer tudo aquilo que eu falei durante a campanha. Eu não vou criticar o Parlamento, assim como eu não critico decisão do Supremo Tribunal Federal. Agora, nós temos que insistir, persistir, o que eu gostaria do Parlamento é que bote em pauta. Se a maioria falar que não, enterrou o projeto. Encerra o assunto. Agora, caducar uma medida provisória, não botar em pauta, é triste isso aí", afirmou.

"Há três dias eu tô apanhando da mídia, Jornal Nacional, Folha, Estado, Globo, eu acho que praticamente quase toda a mídia brasileira: 'Eu disparei trilhões de zap pedindo aí o apoio de todos à manifestação de 15 de março'. O que eu mandei para poucas dezenas de pessoas do meu ciclo de amizade, eu mando sem filtro. São ministros, algumas personalidades, talvez não passe de 50, 60, tá certo? E a Vera Magalhães teria —olha só, Vera, como eu sou legal contigo— teria recebido um vídeo eu pedindo, sim, o apoio para a manifestação de 15 de março de 2015", disse.

A notícia de que Bolsonaro compartilhou um vídeo sobre os atos contra o Congresso foi revelada pela jornalista Vera Magalhães, do jornal O Estado de S. Paulo, que se tornou alvo de ofensas do presidente e de seus apoiadores.

Apesar de o presidente ter dito que o vídeo seria de 2015, e não de 2020, em um deles há imagens da facada da qual ele foi alvo, em setembro de 2018, durante ato de campanha. 

Nesta quinta, no Palácio da Alvorada, Bolsonaro afirmou que a jornalista mentiu sobre caso. "A Vera mentiu. Eu quero que a Vera mostre o vídeo em que eu estou convocando as pessoas", disse.

A jornalista divulgou em suas redes sociais nesta quinta prints das mensagens repassadas por Bolsonaro que mostram a sequência dos dois vídeos e fotos dele passeando de moto em Guarujá, onde passou o Carnaval.

Diferentemente do que diz o presidente, a jornalista não disse que Bolsonaro compartilhou um vídeo em que ele próprio convocava a população para o ato de 15 de março. A reportagem informava que o vídeo compartilhado pelo presidente fazia uma convocação para os protestos.

O jornal divulgou uma nota repudiando os ataques.

"O Estado de S. Paulo lamenta que o Presidente da República ataque a jornalista Vera Magalhães acusando-a de mentir por ter revelado que ele divulgou via WhatsApp um vídeo conclamando a participação nas manifestações previstas para o próximo dia 15 de março. Ao agir assim, ignorando os fatos, endossa conteúdos falsos vinculados ao tema que circulam nas redes sociais, algumas com ameaças veladas ou não direcionadas à Vera Magalhães."

Bolsonaro ainda cobrou que a jornalista divulgue o vídeo, afirmando que ela publicou apenas um print. Contudo, os vídeos foram publicados por ela e por demais repórteres.

Em nota, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) condenou os ataques a Vera Magalhães e a outros jornalistas que foram alvo de ofensas do presidente e de seus aliados.

"São inadmissíveis as contínuas e sistemáticas agressões aos profissionais da imprensa, por simplesmente fazerem seu trabalho. Bolsonaro, seus filhos, ministros e parlamentares incentivam a perseguição aos jornalistas", diz o texto. 

"Já se acumulam episódios em que o presidente Jair Bolsonaro fere o decoro do cargo e comete crime de responsabilidade. As instituições da República, em especial o Poder Legislativo e os partidos políticos que o integram, precisam agir de acordo com a Constituição brasileira para que a Presidência, uma das instituições republicanas, volte a ser exercida com decência, dignidade e respeito ao povo brasileiro", conclui a Fenaj.

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