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Coronavírus

Auxílio de R$ 600 e discurso à base aliviam avaliação de Bolsonaro, aponta Datafolha

Devotos de presidente discordam do isolamento social e apoiam troca de ministro da Saúde

A tendência à polarização da opinião pública quanto ao desempenho de Jair Bolsonaro (sem partido) no combate à epidemia do novo coronavírus no Brasil, na mais recente pesquisa do Datafolha sobre o tema, reflete não só a troca do titular do Ministério da Saúde como também as ações recentes do governo na área econômica.

É certo que o posicionamento dos brasileiros quanto à demissão de Luiz Henrique Mandetta (DEM), assim como sobre as medidas de isolamento social, apresenta alta correlação com a avaliação que fazem da atuação do presidente na crise.

Apesar de ainda ser apoiada pela maioria da população, a principal medida adotada para retardar o colapso do sistema de saúde no país --a diminuição na circulação e na concentração de pessoas pelas ruas e pelos estabelecimentos comerciais-- vem perdendo a aceitação de parcelas dos cidadãos.

Como exemplo, por meio de análise estatística multivariada, chega-se a 15% de brasileiros que apoiam a troca na pasta e também defendem a priorização da economia e do emprego, mesmo diante da afirmação de que isso apontaria o fim do isolamento, podendo disseminar ainda mais o vírus. Bolsonaro tem aprovação superior a 90% nesse estrato.

Pelo tamanho e perfil do segmento, os dados apontam que o discurso presidencial tem aderência em seu eleitorado mais devoto, já que o índice de ocorrência do conjunto na amostra é próximo ao percentual de "bolsonaristas heavy" na população, identificados pelo Datafolha em pesquisas presenciais por meio de escala para medir o grau de afinidade dos brasileiros com as ideias do líder.

É um grupo que demonstra extrema fidelidade ao presidente, majoritariamente masculino, com renda e escolaridade acima da média, concentrado no Sul e no Sudeste e com proporção de empresários quase três vezes maior do que a verificada na população.

Seus integrantes são os que mais reprovam os desempenhos dos governadores de seus estados e do ex-ministro da Saúde, mas são os mais otimistas quanto à atuação do próximo ocupante do cargo.

São também os que, em maior número, estão desobedecendo o isolamento social e os que mais defendem a forma vertical da medida --mais da metade, 55%, continua circulando nas ruas, mesmo que com alguns cuidados, índice que no total da amostra corresponde a 30%.

Apenas 9% do estrato concorda que as pessoas que não pertencem aos considerados grupos de risco deveriam permanecer em suas casas --na média da população, essa taxa atinge 56%.

Mas os "bolsonaristas heavy" são insuficientes para manter o patamar atual de aprovação do presidente na crise. Mais de 80% dos três pontos de oscilação positiva que Bolsonaro apresenta no levantamento atual chegam dos estratos de menor renda, o que sugere reflexos de ações específicas na área econômica como vetores de influência, especialmente o auxílio emergencial de R$ 600, que começou a ser pago na última semana.

No grupo dos que recebem até dois salários mínimos, a avaliação de Bolsonaro melhorou três pontos percentuais, e entre os que recebem de dois a cinco salários, ela saltou seis pontos.

O estrato com perfil mais próximo do habilitado para receber o auxílio emergencial, com segmentação possível na amostra do Datafolha, é o que tem renda familiar de até três salários mínimos e faz parte do mercado informal de trabalho, correspondente a 25% dos brasileiros adultos.

Entre estes informais, Bolsonaro alcança percentual próximo ou superior a 40% de avaliação positiva no combate ao vírus, contra 33% entre os que têm a mesma renda, mas são assalariados registrados.

O público alvo do auxílio emergencial --informais com renda abaixo de três salários-- condena menos a demissão de Mandetta e tem melhor expectativa quanto ao ministro Nelson Teich do que seus pares com registro em carteira. No entanto estão circulando menos e se colocam mais favoráveis ao isolamento.

Nas próximas semanas, a comparação e o equilíbrio percebidos nas ações do governo em saúde e economia, num momento em que a doença avançará mais sobre as periferias e camadas vulneráveis, serão decisivos para compor a imagem que Bolsonaro herdará após a pandemia.

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