Descrição de chapéu

Bolsonaro abraça cloroquina como panaceia para o vírus e para sua fragilidade

Presidente insiste em defender o uso de remédio e usa médico Kalil para estocar Doria e Uip

São Paulo
Em seu novo pronunciamento acerca da pandemia do novo coronavírus, que já matou 800 brasileiros, o presidente Jair Bolsonaro elevou o tom da politização acerca do uso da cloroquina e da hidroxicloroquina como promessa de panaceia contra a Covid-19.
Tornou definitiva sua opção retórica pelo uso da cloroquina e da hidroxicloroquina como promessa de panaceia contra a Covid-19, com o objetivo subjacente de enfraquecer as teses de isolamento social preconizadas inclusive pelo Ministério da Saúde.
Mandetta asperge álcool em gel na mão de Bolsonaro em reunião sobre a Covid-19, em março
Mandetta asperge álcool em gel na mão de Bolsonaro em reunião sobre a Covid-19, em março - Sérgio Lima - 18.mar.2020/AFP

Para quem passou o dia, por meio de seus prepostos virtuais e mesmo o ministro Luiz Henrique Mandetta (Saúde), criticando o uso político da administração ou não do tratamento com os medicamentos, Bolsonaro não se fez de rogado.

Usou ninguém menos do que o médico Roberto Kalil, do Hospital Sírio-Libanês (SP), que usou a cloroquina para se tratar da Covid-19. O mesmo Kalil de quem Bolsonaro rejeitou uma remoção para São Paulo após levar a facada em 6 de setembro em Juiz de Fora.

Para Bolsonaro, Kalil era "médico de estrelas e de petistas", por ter tratado de Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff e outros criticados pelo então candidato. Preferiu ir ao Albert Einstein, outro hospital de ponta da capital paulista.

A citação a Kalil foi uma estocada em João Doria, o governador tucano de São Paulo que o antagoniza na condução da crise. O chefe do combate à Covid-19 no estado, o também médico David Uip, se curou da doença e negou-se a dizer se utilizou a cloroquina.

Para Bolsonaro, é uma aposta arriscada, dada a incerteza acerca do escopo possível de tratamento com esses medicamentos, mas o presidente parece trabalhar com a hipótese de que o sucesso no uso da cloroquina possa cimentar uma vitória política em seu momento de maior fragilidade política.

A cloroquina é assim o novo nióbio, o metal fetichizado por Bolsonaro como passaporte para um futuro econômico melhor.

A fala desta quarta integra um arco que começa no pronunciamento de 24 de março, que lhe garantiu críticas domésticas e internacionais na mesma medida, passa pela modulação presente no texto da terça passada (31), quando adotou um tom mais ponderado.

Apesar de orientado pela ala militar do governo a não defender abertamente o fim de medidas de isolamento, Bolsonaro desta vez adotou uma tática diferente. Jogou na costas de prefeitos e governadores a "responsabilidade exclusiva" pelas medidas, que integram o protocolo internacional de mitigação da propagação do patógeno.

O recado era novamente para Doria e outros chefes estaduais com pretensões presidenciais, como Wilson Witzel (PSC-RJ), que lidam na ponta com os efeitos do isolamento por quarentena.

Fragilizado politicamente e tendo sua autoridade tutelada por setores do governo, Bolsonaro posou de comandante. Falou nos "ministros que escolhi" e que todos estariam "sincronizados" com ele.

Foi uma forma de responder à situação envolvendo Mandetta, que encarnou um figurino rebelde da entrevista de segunda (6), quando passou o dia como virtual demitido. Nem precisava.

Mandetta, político do centrão que é, buscou contemporizar na entrevista que concedera à tarde a polêmica da semana e jurou lealdade a Bolsonaro nesta quarta, como se tivesse opção. Fora aconselhado pela área militar a modular seu tom após a fala de segunda. De quebra, atacou Doria.

A politização da hidroxicloroquina estimulada por Bolsonaro atingiu níveis surreais, amparada em uma saraivada de notícias, falsas e verdadeiras, que circulam pelas redes de apoio ao presidente –sempre emulando postagens de seus filhos e, por vezes, do próprio mandatário máximo.

Os ataques conseguiram colocar o governador paulista na defensiva pela primeira vez no seu embate com o presidente sobre o manejo da emergência sanitária.

O governo vinha há alguns dias citando o caráter experimental do uso do remédio, mas foi o episódio envolvendo o infectologista Uip que obrigou Doria a falar sobre o tema em sua entrevista diária sobre o tema.

Redes bolsonaristas vazaram uma receita sua do remédio, que ele disse ter prescrito para ter em sua prática clínica, antes de cair doente. As postagens foram apagadas pelo Twitter e pelo Facebook e o médico queixou-se do crime de invasão de privacidade.

Politicamente, contudo, Doria vinha propagandeando a transparência absoluta como forma de diferenciar-se de Bolsonaro. Quando ambos os políticos testaram negativo para a doença, Bolsonaro não mostrou seu exame e Doria, sim.

Desta forma, Uip, ao se negar a falar como se tratou, deu munição ao adversário, apesar da tentativa de diluir o assunto e falar sobre sua recomendação do uso do remédio no SUS a Mandetta.

De quebra, Mandetta reclamou que o paulista estaria politizando a questão, para a alegria do chefe. Desde o início da crise, Doria elogiava o ministro enquanto criticava o presidente, e chegou a sondar a eventual adesão dele a sua equipe em caso de demissão. Esse momento parece ultrapassado agora.

A confusão mostra o grau de irracionalidade do debate que se polariza sobre tudo no país. A cloroquina é uma alternativa de tratamento em estudo em diversos países e que pode vir a ser central contra o coronavírus, mas não é de aplicação universal, em especial quando combinada com a azitromicina. A associação é tóxica, em especial para o ritmo cardíaco.

Como em tantas outras circunstâncias, Bolsonaro não tirou a cloroquina do nada. A droga vem sendo propagandeada, contra conselho de autoridades médicas americanas, pelo presidente Donald Trump, o modelo político do brasileiro.

Trump, assim como Bolsonaro, negava a relevância da pandemia. Bem mais rapidamente que seu colega tropical, mudou o tom quando ficou evidente a realidade atual: os EUA são o país mais atingido do mundo pela Covid-19, com mais de 1.700 mortes diárias.

A hidroxicloroquina entrou no vocabulário trumpista como panaceia e causou corrida a farmácias, ainda que a rigorosa FDA (o xerife do mercado farmacêutico e alimentar) tenha a liberado apenas para uso emergencial em pacientes, uma recomendação semelhante à dada pelo Ministério da Saúde.

A principal autoridade americana em infectologia, Anthony Fauci, insiste em que não há comprovação clínica que justifique o uso até preventivo da hidroxicloroquina. No domingo (5), ele foi cortado por Trump numa entrevista coletiva quando iria responder uma questão sobre o tema.

Os defensores das substâncias se amparam em estudos não conclusivos, como um restrito conduzido na França, que deu bons resultados, mas tem sua metodologia contestada. Um ensaio chinês também apontou dados promissores. Outros países avaliam o potencial desta e de outras drogas.

No Brasil, há pelo menos nove estudos em curso com drogas, inclusive as cloroquinas, em curso. Nenhum deles deve ter conclusões preliminares divulgadas antes do fim do mês. Ensaios feitos na Fundação Oswaldo Cruz, referência de infectologia no país, não acharam inicialmente diferenças significativamente em favor dos remédios para evitar mortes.

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