Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Saída de Moro e pronunciamento de Bolsonaro provocam panelaços e buzinaços nas capitais

Manifestações foram ouvidas em várias cidades após pronunciamento do ex-titular da Justiça

São Paulo

Panelaços e buzinaços foram ouvidos em diversas cidades depois do pronunciamento do agora ex-ministro Sergio Moro, que anunciou na manhã desta sexta-feira (24) sua saída do Ministério da Justiça, e durante o discurso do presidente Jair Bolsonaro, que falou à tarde sobre a mudança na pasta.

Os protestos ocorreram em bairros de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Porto Alegre, Curitiba, Salvador, Belo Horizonte e outras capitais. Manifestantes também gritaram expressões como "acabou, Bolsonaro", "fora, Bolsonaro" e "miliciano". O presidente tem sido alvo de atos do tipo desde o início da crise do coronavírus.

Pessoa bate panela na janela em um prédio na Avenida Nove de Julho, no bairro de Bela Vista, durante pronunciamento do Presidente da República, Jair Bolsonaro, após a demissão do ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro
Moradora bate panela na janela em um prédio na Avenida Nove de Julho, na Bela Vista, em São paulo, durante pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro - Mathilde Missioneiro/Folhapress

Na capital paulista, regiões como Jardins, Bela Vista, Perdizes, Itaim Bibi, Pompeia, Tatuapé, Higienópolis e centro registraram protestos.

Ao anunciar sua demissão do governo federal, Moro criticou a "insistência" do presidente para a troca do comando da Polícia Federal, sem apresentar causas que fossem aceitáveis. Disse ainda que Bolsonaro queria ter acesso a informações e relatórios confidenciais de inteligência da PF. ​

"Não tenho condições de persistir aqui, sem condições de trabalho", disse, acrescentando que "sempre estará à disposição do país".

"Não são aceitáveis indicações políticas." O ex-ministro falou em "violação de uma promessa que me foi feita inicialmente de que eu teria uma carta branca". "Haveria abalo na credibilidade do governo com a lei."

No pronunciamento em resposta ao ex-auxiliar, Bolsonaro rebateu afirmações de Moro e disse que não sairá do conflito com a pecha de mentiroso.

O presidente afirmou que confiava em Moro e que nunca esteve contra a Operação Lava Jato. E reforçou que as nomeações de seu governo não são feitas de forma partidária.

"Colocamos um ponto final nisso. Poderosos se levantaram contra mim. Estou lutando contra o sistema. Coisas que aconteciam no Brasil não acontecem mais", disse.

Moro topou largar a carreira de juiz federal, que lhe deu fama de herói pela condução da Lava Jato, para virar ministro. Ele disse ter aceitado o convite de Bolsonaro, entre outras coisas, por estar "cansado de tomar bola nas costas".

Tomou posse com o discurso de que teria total autonomia e com status de superministro. Desde que assumiu, porém, acumulou série de recuos e derrotas.

Moro se firmou como o ministro mais popular do governo Bolsonaro, com aprovação superior à do próprio presidente, segundo o Datafolha.

Pesquisa realizada no início de dezembro de 2019 mostrou que 53% da população avalia como ótima/boa a gestão do ex-juiz no Ministério da Justiça. Outros 23% a consideram regular, e 21% ruim/péssima. Bolsonaro tinha números mais modestos, com 30% de ótimo/bom, 32% de regular e 36% de ruim/péssimo.

Sergio Moro na entrevista coletiva em que anunciou sua saída do governo Bolsonaro, nesta sexta (24) - Pedro Ladeira/Folhapress

O ministro, nos bastidores, vinha se mostrando insatisfeito com a condução do combate à pandemia do coronavírus por parte de Bolsonaro. Moro, por exemplo, atuou a favor de Luiz Henrique Mandetta (ex-titular da Saúde) na crise com o presidente.

Aliados de Moro avaliam que ele foi um dos alvos da recente declaração de Bolsonaro de que usaria a caneta contra "estrelas" do governo.

"[De] algumas pessoas do meu governo, algo subiu à cabeça deles. Estão se achando demais. Eram pessoas normais, mas, de repente, viraram estrelas, falam pelos cotovelos, tem provocações. A hora D não chegou ainda não. Vai chegar a hora deles, porque a minha caneta funciona", afirmou Bolsonaro, no início do mês, a um grupo de religiosos que se aglomerou diante do Palácio da Alvorada.

​Sob o comando de Moro, a Polícia Federal viveu clima de instabilidade no ano passado, quando Bolsonaro anunciou uma troca no comando da superintendência do órgão no Rio e ameaçou trocar o diretor-geral.

No meio da polêmica, o presidente chegou a citar um delegado que assumiria a chefia do Rio, mas foi rebatido pela Polícia Federal, que divulgou outro nome, o de Carlos Henrique de Oliveira, da confiança da atual gestão. Após meses de turbulência, o delegado assumiu o cargo de superintendente, em dezembro.

No fim de janeiro, o presidente colocou de volta o assunto na mesa, quando incentivou um movimento que pedia a recriação do Ministério da Segurança Pública. Isso poderia impactar diretamente a polícia, que poderia ser desligada da pasta da Justiça e ficaria, portanto, sob responsabilidade de outro ministro.

Bolsonaro depois voltou atrás e disse que a chance de uma mudança nesse sentido era zero, ao menos neste momento.

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