Bolsonaro com Covid pode até causar ganho político a ele, mas efeito seria limitado, diz cientista político

Professor da UFMG Leonardo Avritzer lança livro Política e Antipolítica: a Crise do Governo Bolsonaro

São Paulo

Há uma chance de que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tenha benefícios políticos depois de ser infectado com Covid-19. Mas esse eventual ganho de popularidade teria efeito bastante limitado.

Essa é a avaliação do professor titular de ciência política da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) Leonardo Avritzer, que está lançando o livro “Política e Antipolítica: a Crise do Governo Bolsonaro” (editora Todavia).

“A população, em geral, está muito mais arisca, confia muito menos nele do que antes”, afirma Avritzer.

Com base em pesquisas realizadas nos últimos anos pelo Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação, do qual faz parte, o cientista político acredita que em 2020, “pela primeira vez desde 2014, temos elementos de recuperação de práticas democráticas”.

O pesquisador dá como exemplo dessa mudança de patamar o aumento da confiança da população no Congresso Nacional e no STF (Supremo Tribunal Federal). “Nossos levantamentos têm fortes convergências com pesquisas que o Datafolha realizou durante a pandemia.”

À Folha Avritzer explica por que a “fase cordata” do presidente tende a durar pouco e comenta os fatores que impulsionaram Bolsonaro ao centro do poder, um dos temas do seu novo livro.

Leonardo Avritzer, cientista político e autor de "Política e antipolítica: a crise do governo Bolsonaro" - Divulgação

Do ponto de vista político, como avalia o fato de o presidente ter sido diagnosticado com o novo coronavírus? É mais um momento lamentável nessa sequência de episódios do presidente ligados à Covid-19. Mesmo que o diagnóstico signifique uma alteração radical da postura dele em relação ao enfrentamento da pandemia, o que parece duvidoso, seria uma mudança que vem demasiadamente tarde e vem de uma pessoa que mostrou pouquíssima sensibilidade e capacidade de gerar empatia com a população.

Pode haver algum benefício político? É difícil pensar em algum ganho nesse sentido, mas não impossível. Basta lembrar que Bolsonaro se beneficiou demais do atentado [a facada em setembro de 2018], embora ele tenha sido um dos políticos que mais incentivaram a violência durante a campanha eleitoral.

Pode haver, sim, um efeito [de maior adesão] entre os grupos bolsonaristas e entre aqueles que abandonaram recentemente o apoio ao presidente. Mas a população, em geral, está muito mais arisca, confia muito menos nele do que antes.

No início do seu novo livro, o senhor fala que “Bolsonaro passou de um político marginal ao centro da política”. Quais os fatores principais para levá-lo a esse novo patamar? São três. O primeiro é o colapso do governo de esquerda, com o qual ele adquire protagonismo. Todos devem se lembrar do voto de Bolsonaro durante a sessão da Câmara dos Deputados que autorizou o processo de impeachment de Dilma Rousseff, em 2016.

Em segundo lugar, o fracasso do governo Michel Temer. Houve uma operação desastrada das forças de centro ao retirar uma presidente de esquerda para botar o governo nas mãos de Temer, que articulava todo o sistema de desvios de recursos públicos.

Um terceiro ponto é a Lava Jato, que talvez opere numa raia própria na crise brasileira. De um lado, defendeu o que os brasileiros querem, a punição da corrupção no sistema político. Por outro, destruiu quase a totalidade do centro político.

O senhor também escreve que “o colapso do bolsonarismo não ocorre subitamente, mas pela primeira vez desde 2014 temos elementos de recuperação de práticas democráticas”. O que o leva a acreditar nessa recuperação? Em março de 2018, nós, na UFMG, participamos da realização de uma pesquisa nacional, e os resultados foram catastróficos. O apoio às instituições políticas era baixíssimo, apenas cerca de 10% confiavam no Congresso Nacional. O apoio à democracia tem que ser, evidentemente, um apoio às instituições democráticas.

Naquela pesquisa, os brasileiros confiavam principalmente nos militares e nas igrejas.

Tivemos recentemente [pesquisa em junho deste ano] certa recuperação da confiança nessas instituições. A confiança no Congresso não é enorme, mas melhorou. Houve aumento ainda no caso do STF.

Também é importante que os brasileiros tenham se manifestado a favor do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta. A democracia precisa de políticas públicas, de objetivos claros, e era isso que Mandetta apresentava nas entrevistas que concedia no ministério. E o bolsonarismo faz o quê? Desorganiza a política e surge com uma solução mágica.

De acordo com a pesquisa mais recente do Datafolha, 75% expressam apoio à democracia, o maior índice da série histórica. Como avalia esse resultado? É uma boa notícia, claro, mas isso, por si só, não resolve o problema do apoio à democracia.

Seria preciso também perguntar às pessoas se elas concordariam em romper com a democracia em certas situações. Uma coisa é dizer “eu acho a democracia um bom sistema de governo”, outra é “em todas as situações, eu vou ser democrata e me comportar democraticamente”.

Na verdade, esse resultado de 75% é mais significativo pelo que revela de contraste com a posição do presidente, que participou de uma série de manifestações em que ideias de golpe ou intervenção militar foram levantadas.

O governo tem se aproximado nos últimos meses dos partidos do centrão. Isso será suficiente para sustentá-lo no poder? Há dois problemas. Um é que a base bolsonarista é altamente anticentrão. O movimento que o presidente faz nessa direção o torna vulnerável diante do bolsonarismo como movimento.

E existe um segundo problema: os políticos que apoiam Bolsonaro agora, como Ciro Nogueira (PP), Valdemar Costa Neto (PL) e Gilberto Kassab (PSD), são aqueles que estiveram ao lado da ex-presidente Dilma no segundo mandato dela. Eles não foram capazes de segurar a Dilma, não é?

O centrão pode oferecer uma estabilidade mínima no Congresso, mas não te ancora completamente. O que segura mesmo um governo é a opinião pública, são as ruas, os níveis de aprovação e o Poder Judiciário, na medida em que tem a capacidade de colocar o Executivo em xeque.

O senhor diz que a gente vive um equilíbrio precário. Vivemos numa conjuntura de equilíbrio catastrófico, eu diria, com um presidente que não é democrata e que tem um apoio significativo da população. Quando se pergunta aos brasileiros se querem a renúncia ou o impeachment, a sociedade aparece bastante dividida.

Aparecem menções ao cesarismo ao longo do livro. Do que se trata? É um termo que a ciência política usou muito no século 19 e no começo do século 20. Está associado a líderes que acumularam apoio militar (o termo vem de César, em Roma) e foram progressivamente assumindo controle completo da política. Conseguem transferir esse carisma militar para o sistema político.

Entre os líderes cesaristas importantes, estão Napoleão 3º, na França, e Bismarck, na Alemanha.

Bolsonaro pode se tornar um deles? Acho que não. Não acredito que tenha carisma no Exército como um todo, ele tem entre aqueles de baixa patente. Não é um líder inconteste do Exército brasileiro. Pelo contrário, aliás.

Quando pôde, o Exército o reformou. Há uma série de características prezadas pelas Forças Armadas, como hierarquia e disciplina, que Bolsonaro não segue.

O senhor escreve que “Bolsonaro em versão cordial é uma ficção que não atrai os apoiadores que ele quer mobilizar contra as principais forças políticas do país”. Isso quer dizer que essa fase aparentemente mais moderada, que acompanhamos nas últimas semanas, terá vida curta? Tendo a achar que sim. Qual é o problema desse Bolsonaro cordato, que fala da importância do STF e que passa dias sem agredir jornalistas? Ele não faz sucesso na sua base, não faz sucesso nem mesmo entre os próprios filhos.

Existe uma contradição do bolsonarismo como movimento e o bolsonarismo como governo. O bolsonarismo como movimento precisa desse Bolsonaro que chuta tudo, que compartilha fake news. Mas ele tem problemas para governar. Ao se comportar dessa maneira, sofre derrotas no Congresso e no STF.

Já o Bolsonaro cordato pode completar o seu mandato, mas dificilmente vai se reeleger ou vai continuar sendo líder de um movimento.

Tenho a impressão de que ele é muito mais feliz à frente de um movimento antidemocrático, falando as coisas que costuma falar na cerquinha do Alvorada do que indo ao Congresso conversar sobre políticas públicas.

Pode haver uma conciliação entre o Bolsonaro líder de um movimento e o Bolsonaro da governabilidade?  São coisas muito diferentes. Grande parte das pessoas que o apoiam nas redes sociais não estão interessadas na governabilidade. Acreditam numa luta ideológica, que é preciso tirar a educação brasileira das mãos dos comunistas, que é preciso combater o globalismo no plano internacional.

O bolsonarismo é um movimento muito forte porque é radical, não busca um meio termo, especialmente nas redes sociais.

LEONARDO AVRITZER, 61

  • Com doutorado em sociologia política pela New School for Social Research, em Nova York
  • É professor titular de ciência política da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e colaborador da Universidade de Coimbra, em Portugal
  • É autor de livros como "Reforma Política no Brasil" (ed. UFMG), "Pêndulo da Democracia" (ed. Todavia) e do novo "Política e Antipolítica - A Crise do Governo Bolsonaro" (ed. Todavia)
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