Aproximação com centrão é fundamental para que projetos de Bolsonaro andem, diz Bia Kicis

Ex-vice-líder do governo nega mágoa, afirma que presidente agora faz política e que ministros do STF estão 'esticando a corda'

Brasília

Retirada do posto de vice-líder do governo por votar contra a renovação do Fundeb, a deputada federal Bia Kicis (PSL-DF) reconhece que foi surpreendida pela decisão do presidente Jair Bolsonaro, mas afirma que não ficou magoada.

Em entrevista à Folha, ela avaliou que a aliança com o bloco de partidos do centrão “é fundamental” e que agora o governo está fazendo política.

Investigada no inquérito das fake news, acusou os ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) de esticar "a corda de uma forma absurda". "Desinformação sempre houve, desde que o mundo é mundo", disse.

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A senhora ficou magoada por ter sido retirada do posto de vice-líder? Não, eu não fiquei magoada. Eu fiquei surpresa, porque ninguém falou comigo antes. E ninguém gosta de receber uma notícia dessa pelo 'Diário Oficial'. Mas eu não fiquei magoada. Eu compreendi que era um movimento político. E eu fiquei muito feliz depois quando o presidente foi até a minha casa, mostrando que ele tem muita consideração por mim. Então, entendi como um movimento político.

O que o presidente justificou para tomar essa decisão? Ele não justificou. Ele brincou comigo. "Você pediu, hein!?". As palavras dele foram essas. Aí eu que expliquei para ele a minha posição e falei: "Olha, não achei que haveria problema". Até porque outros vice-líderes já votaram contra o governo em outras ocasiões e não deu essa repercussão, não teve problema. Mas eu entendo, eu aceito.

Mas a senhora se sentiu injustiçada pelo fato de outros vice-líderes não terem sido afastados? Eu me senti surpreendida. Eu entendo que, até o fato de eu ser muito próxima ao presidente, às vezes dos outros vice-líderes ele não esperava um comportamento e não se importava tanto. Mas, por eu ser tão próxima, talvez ele tivesse entendido que eu deveria ter falado com ele primeiro.

Mesmo após essa decisão do presidente, a senhora se mantém fiel ao governo? 200% fiel ao governo.

A senhora se arrepende de ter votado contra a orientação do presidente? Não me arrependo. Eu compreendi a posição dele, mas eu me mantenho firme na minha posição. Entendo que o Fundeb é um caso que a sua constitucionalização poderá acarretar muitas demandas judiciais. O meu entendimento é que a gente tem de desinchar a Constituição.

Mas não seria muito abrupto retirar o financiamento de uma hora para outra sem ter um mecanismo para substituí-lo? Mas eu não defendo que se tire, de jeito nenhum. Tem de haver o financiamento. Fazia uma PEC [Proposta de Emenda à Constituição] e prorrogava por um ano do jeito que era e, enquanto isso, vamos debater esse financiamento. A gente precisa investir no ensino básico mais do que tudo. Eu acharia mais interessante a gente abrir um grande debate, para ver o que funciona e o que não funciona. Para encontrar uma saída melhor.

Nessa aproximação do presidente com o bloco do centrão, ele traiu o PSL? O PSL é um partido rachado, do qual o presidente saiu. Então, ele não pertence ao PSL. Mas uma parte do PSL permaneceu fiel ao presidente. Eu não entendo que o presidente esteja traindo absolutamente ninguém. Eu acho que essa aproximação com o chamado centrão e com os demais partidos é fundamental para que os projetos do governo andem. O que o governo está fazendo agora é política. A política como ela é feita em qualquer lugar do mundo.

O presidente errou no início de não ter feito essa política? Não de não ter feito essa política. O presidente chegou rompendo. Ele trouxe uma proposta de romper com o sistema criminoso. E o Parlamento precisou se adaptar a essa nova forma de governar, que é com independência.

Então, no que ele errou nesse início? Eu não vou dizer que ele errou, não. Ele fez uma ruptura e ele precisou de um tempo para chegar ao tom correto disso. Ele acertou 500 vezes mais. O que ele fez era necessário.

A senhora avalia que houve uma mudança, mas o presidente continua entregando cargos para o bloco do centrão. Isso é fazer política.

Mas não vai de encontro ao discurso de campanha contra o "toma-lá-dá-cá"? Mas ele é contra o "toma-lá-dá-cá". Veja bem. Na política, você tem que abrir espaço para todos. Quanto mais pessoas você tiver com você, maior a sua base e mais você consegue transformar.

Você não faz política excluindo todo mundo. E o que acontece? O presidente diz que não vai ter "toma-lá-dá-cá", não terá corrupção no governo dele. Experimenta um desses aí que está ganhando cargo fazer corrupção para ver o que acontece. Eu tenho certeza que está fora no dia seguinte.

Mas o "toma-lá-dá-cá" era entregar um cargo em troca de apoio no Congresso. Esse governo já entregou cargos na Saúde e na Agricultura. Não. "Toma-lá-dá-cá" não é isso, não. "Toma-lá-dá-cá", ​você dava os cargos e fechava os olhos. Era corrupção, as estatais eram usadas para caixa dois. Isso não vai acontecer no governo Bolsonaro porque ele é contra isso.

O presidente deve se envolver na disputa da sucessão de Rodrigo Maia? Da outra vez, ele se envolveu zero. Quando foi pela escolha do Maia. É o que eu falo da independência. Ele pode se envolver, mas eu acho que não diretamente.

Pode atrapalhar o processo se ele se envolver? Eu acho que trabalhando nos bastidores, conversando com as pessoas, eu acho que é natural. Mas eu acho bom também que ele mantenha essa linha dele de respeito ao Parlamento. De reconhecer a independência do Parlamento. É natural que ele converse com as pessoas. Mas, assim, interferir diretamente, eu não acho bacana, não.

Essa fase “paz e amor” do presidente é necessária para o país? Fase “paz e amor”. Não sei se gosto muito desse nome. Fica parecendo aquele negócio de “Lulinha paz e amor”. Porque traz uma comparação que eu acho que não cabe.

Eu acho que o que está havendo realmente é o presidente baixando um pouco o tom, o que eu acho que é bom. Mas eu vou achar muito bom que os demais parem de esticar a corda. Porque não adianta nada o presidente baixar o tom, em um sinal de boa vontade e na busca da harmonia, quando nós temos ministros do Supremo que estão esticando a corda de uma forma absurda.

Por que estão esticando a corda de uma forma absurda? Porque estão agindo totalmente fora da atribuição constitucional que lhes foi concedida pela Constituição. Estão atuando de uma forma a interferir nos outros Poderes. A perseguir aliados do presidente.

Basta ver que o povo hoje lamentavelmente não confia no Supremo Tribunal Federal. Então, no momento em que eles começam a perseguir aliados do presidente, querer calar pessoas, desrespeitar direitos fundamentais da população, fica difícil.

A senhora se refere ao inquérito das fake news. Mas não é importante combater as fake news? Elas não causam desinformação à sociedade? Eu acredito que nós, da população e da sociedade, somos adultos e capazes de ter discernimento. Eu começo a ler uma coisa e eu vejo que aquilo é lixo, eu não leio mais. Eu tenho discernimento para fazer isso. E acho que a maioria da população tem.

A própria história das fake news é a maior desinformação que existe. E sabe como eu sei disso? Porque eu estou nesse inquérito e eu nunca fiz fake news, não pratico desinformação. Eu coloco a minha opinião nas redes.

Mas a Justiça do Rio de Janeiro determinou, por exemplo, que a senhora apagasse uma fake news que ligava o ex-deputado federal Jean Wyllys, do PSOL, a Adélio Bispo, autor da facada contra o presidente. Eu não fiz fake news. Eu reverberei uma reportagem. Uma live que foi feita por uma pessoa que garantia que tinha estado com o Adélio, tem até foto dos dois, e ele dizendo que o Adélio esteve no gabinete. Eu coloquei essa notícia e ainda botei a origem, a fonte.

Mas isso não é propagar fake news, uma vez que ela não se confirmou? Era uma notícia falsa. Bom, mas quando eu fiz isso, eu não sabia. A única vez em que eu postei algo que depois eu suspeitei que fosse falso, eu tire em questão de horas. Eu removi e ainda pedi desculpas.

A senhora se arrependeu de ter publicado fake news?​ Eu não publiquei fake news. Eu leio todo dia fake news no jornal. Tem uma aqui do UOL que atribuiu coisas. Estou juntando coisas que eu estou lendo na grande mídia que é desinformação pura. E ninguém chama de fake news.

Então, eu estar em um inquérito por propagar fake news? Não. O Jean Wyllys está condenado. Eu condenei o Jean Wyllys. Ele me deve R$ 50 mil e até hoje não pagou por causa de uma publicação dele contra a minha pessoa.

A senhora checa as informações antes de divulgar? Sempre checo as informações. E, mesmo checando, às vezes acontece de uma coisa passar equivocada. Porque a pessoa que postou também às vezes recebeu de outra e achou que fosse verdadeiro.

Espalhar fake news é um desserviço à democracia? O que é fake news? Desinformação sempre houve, desde que o mundo é mundo. E eu vejo a imprensa todo dia [publicando] desinformação. Eu acho que o maior desserviço à democracia é você calar alguém em nome de impedir desinformação. Você violar o princípio da liberdade de expressão.

Quando a liberdade de expressão envolve calúnia e difamação, não deve ser punida? Se ela envolver calúnia e difamação, nós temos no nosso Código Penal a previsão de que a pessoa vai pagar por isso. Por exemplo, eu coloquei essa postagem do caso do Adélio e do Jean Wyllys e eu estou sendo processada. Se eu perder o processo, eu vou pagar. Acabou, isso é o correto.

Mas ela já não causou um estrago de imagem? Causou para mim também quando ele fez para mim. E daí? Eu vou calar o Jean Wyllys por causa disso? Eu nunca quis fazer isso. Então, a indenização vem exatamente por causa do estrago que se causa.

Há espaço para uma intervenção militar no país? Eu não acredito nisso.

Raio- X

Formada em direito pela UnB (Universidade de Brasília), a procuradora aposentada Beatriz Kicis de Sordi, 58, está em seu primeiro mandato como deputada federal, pelo PSL. Em sua carreira jurídica, foi corregedora da Procuradoria-Geral do Distrito Federal.

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